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“No meu tempo…”

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de setembro de 2013 | 05h36

Edu: Por dever profissional, para concluir um trabalho recente, mantive contato com a produção acadêmica do professor Hugo Lovisolo, antropólogo social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre suas ideias, algumas defendidas no livro ‘A Invenção do País do Futebol’, uma em especial afeta e incomoda todos nós admiradores do futebol: o excesso de nostalgia deste meio. Torcedores fanáticos ou simples admiradores, entre os que me incluo, estão sempre dizendo que o futebol ‘de antes’ era melhor, que no tempo em que o futebol era mais simples jogava-se melhor, que quando não havia tanta interferência do mercado e da mídia o jogo era mais puro, mais autêntico. Lovisolo contesta com veemência essa postura e propõe algumas questões, não exatamente com estas palavras. Por que o futebol de hoje não pode ser bom e prazeroso pelo simples fato de que há muito dinheiro em jogo? Por que o que era supostamente ‘ingênuo’ era melhor do que é supostamente ‘contaminado’? O futebol que se joga dentro do campo tem de fato toda essa ligação com o mundo externo ou o verdadeiro apreciador do futebol sabe diferenciar o que presta do que é daninho?

Carles: Vejo a questão por dois lados. O primeiro que o futebol é um desfrute de ordem afetiva, ligado à falta de preocupações e portanto gravado na memória de cada um, segundo uma época vivida sem culpa, digamos com mais “irresponsabilidade” e portanto, reforçando sempre um determinado modelo no subconsciente. Por isso o saudosismo com o futebol se parece à lembrança da carambola saboreada no quintal da casa da avó. O outro, é o nosso velho e bom assunto do mercantilismo que profissionaliza e portanto cria um compromisso de excelência entre a parte contratante e a parte contratada, como diria Groucho; mas em compensação padece do problema crônico da busca do lucro, a desmedida ambição dos seus gestores, normalmente os menos apaixonados pela essência da atividade. Acho que o problema nem é só se os rios de dinheiro são ou não incompatíveis com uma prática eminentemente lúdica, mas a suspeita (incluindo os que estão dentro) quase permanente que paira sobre tudo aquilo que move sempre tanta grana e em que os jogos de interesses são a moeda corrente.

Edu: O que está em discussão no argumento de Lovisolo não é, em nenhum momento, a ambição desmedida dos gestores ou o jogo de interesses e o que isso traz de podridão ao meio futebolístico. Portanto, estamos falando só de um lado dessa questão, o futebol jogado em campo.  Se você quiser voltamos ao assunto da gestão depois (mais uma vez entre tantas). A contestação da nostalgia e do saudosismo lembra de quando ouvíamos Beatles na eletrola e nossos pais torciam o nariz e diziam que música mesmo era a de Chico Alves ou Orlando Silva. Hoje sabemos que tanto Beatles quanto Chico Alves tinham imenso valor em seus tempos e nichos, mesmo antes de se tornarem clássicos, mas nossos pais talvez não pensassem assim sobre os maluquetes de Liverpool. Refaço a dúvida: será que o futebol é uma travessia que levou do prazer à obrigação? Não é injusta essa visão que muitos temos, como se os de antes fossem uma maravilha de pureza e ingenuidade e os de hoje uns vendidos?

Carles: Naturalmente, e eu reforço a ideia da carambola, cujo sabor, na memória, pode até dar mais prazer do que morangos com chantilly. Como na questão do paladar, as sensações que o futebol proporciona dependem dos nosso vínculos culturais e portanto da nossa capacidade de  identificação com uma coisa ou outra. Lógico que ele está perdendo seus traços regionais, cada vez mais os jogadores e equipes praticam um futebol mais parecido, a velocidade com que se recebem as imagens em quase todas as partes do mundo, permite que qualquer um tenha a possibilidade de observar o seu ídolo e tente imitá-lo. Eu gosto de, por exemplo, poder comprovar que os europeus já são capazes de bater na bola de três dedos. Assim mesmo, ao primeiro sintoma de fracasso de um estilo de jogo mais inovador, a torcida não tem dúvida e logo esbraveja: “Preferia quando meu time lutava e corria!”, recorrendo sempre aos traços mais ancestrais. O que sim é verdade é que o futebol exige cada vez mais uma preparação intensa, potencializando o aspecto físico em detrimento do, digamos, circense. Quem sabe a escassez de velhos malabaristas, feitos no futebol de rua e a presença de tantos super-homens tenha algo que ver com essa questão toda.

Edu: Não acho que isso seja real, mas também já pensei assim e entendo que a impressão seja esta diante de tanta coisa que vemos hoje e que não víamos antes. A começar pela quantidade – de jogos, de jogadores e de horas que ficamos diante da televisão vendo gente do mundo todo rolando uma bola. A verdade é que os malabaristas continuam existindo e alguns podem até ser melhores que os de antes. E eles não são inviabilizados pelos super-homens, como aliás abordamos nestes dias no post sobre os 28 toques hipnóticos. O professor Lovisolo fala em vitimismo dos saudosistas, que vivem evocando pureza e futebol autêntico, mais parecendo uns coitadinhos diante da cruel modernidade. De certa forma, tem plena razão.

Carles: Pode ser, mas acho que usar o vitimismo para explicar o apego ao passado é um pouco difuso. A gente vive se apoiando nas lembranças, que não deixam de ser (re)vivências das que, por conveniência, recortamos os aspectos menos desejáveis. E possivelmente, é só para compensar as nossas frustrações frente à realidade presente. A visão do passado é quase sempre idílica e por isso mais agradável, sem inconvenientes. Não deixa de ser um sentimento vitimista. Se o meu presente não cumpre com todas as minhas expectativas e por isso não me faz feliz (pobre de mim!), nada mais confortável que o passado. Há quem diga que esse processo começa tão logo nascemos, quando choramos porque fomos privados de uma situação mais cômoda e não só fisicamente, mas afetivamente. E não creio que um recém-nascido já possa utilizar o vitimismo como defesa, uma espécie de chantagem adquirida a partir da convivência social. Acho que a gente costuma associar o futebol que viveu no passado com o jogo de botões, com os álbuns de figurinhas e não vejo nenhuma relação vitimista nisso, se bem que siga sendo um refúgio confortável.

Edu: Minha prosaica conclusão por enquanto é que, como na música, no cinema ou na literatura, é libertador reconhecer que há ótimas coisas, enriquecedoras, em qualquer tempo, só é preciso ter informação suficiente para saber desfrutar. A memória serve também para isso. O apreciador do futebol não pode ficar preso no chororô do ‘no meu tempo era assim…’

 

 

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