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No reino das velhas raposas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

13 de julho de 2013 | 09h34

Edu: Alertado por você, fui procurar todas as explicações que levaram Pep Guardiola a metralhar a direção do Barça sem que precisasse de nenhum estopim específico. Parece que foi um efeito dique, uma série de mentiras, traições e relações perigosas que explodiram de uma vez. Mesmo assim – e com o objetivo de despertar o advogado de defesa que você incorpora quando se trata de Guardiola – dá a impressão de que, nessa história, é muito frágil a linha que separa as verdades das calúnias.

Carles: Neste caso, defendo Pep em dobro, só pelo gostinho de cutucar Rosell. Não que seja essencial ser uma ótima pessoa para presidir uma entidade esportiva, mas já nos acostumamos a não esperar a melhor política do atual presidente para o Barça. Principalmente por alguns artifícios que aprendeu e que, durante algum tempo, colocou a serviço da anterior diretoria, da qual fazia parte. Laporta nunca teve pudor em utilizar os padrões de Rosell enquanto estiveram juntos, mas quando o então presidente começou a priorizar a imagem do Barça como símbolo catalão, provavelmente por interesse político, Rosell rompeu a aliança (e a amizade) e levou a porção mais capitalista da chapa com ele.

Edu: Ok, você está me convencendo de que Rosell não é um santo. Mas não explica a postura de Pep, o rompante de atacar de uma hora para outra, e de forma violenta, o clube que é sua casa de sempre, dentro daquela concepção de que o Barça é um estado de espírito, uma entidade acima dos valores terrenos, e coisa e tal. É de se respeitar algumas particularidades dessa admirável cultura ‘culé’, que nunca vamos entender totalmente por estes lados. Mas há algo universal em matéria de bom senso, independente das culturas locais, que definitivamente está faltando para todas as partes neste momento. Guardiola arremete contra o Barça, parte da imprensa sai em defesa da direção, mostra indignação e chama o ex-técnico de traidor, outra parte, contando com Laporta que agora é oposição, o defende abertamente. É complicado ver alguma objetividade – mesmo que seja estritamente política – neste novo drama, especialidade da casa.

Carles: Não foi de uma hora para outra. A história do Neymar foi a gota. Rosell teme Laporta, é o tipo de executivo que costuma ir ganhando poder pelas beiradas, mas que sempre se sentiu subjugado pelo jeito falastrão de Laporta. Por isso prefere arremeter contra Guardiola como forma de atacar a antiga diretoria. Se você se refere ao caso Thiago Alcântara, é provocação sim, mas Pep fez de frente, olhando para a câmera. Se quiser, tem ainda outras defesas: Pep disse que está farto de que Rosell faça intriga entre ele e a torcida, entre ele e Vilanova, inclusive usando a doença do atual treinador, e entre ele e os jogadores do Barça. Acho que quem não está agindo com o mínimo respeito humano é o Rosell e assim foi com Abidal, Villa e, agora, Thiago. Talvez Pep esteja protegendo seu pupilo, um jovem ainda, e exposto à irresponsabilidade de Rosell e do pai dele.

Edu: Um dos melhores artigos sobre o tema, publicado no El PaisEl victimismo en el Barça” e assinado por Ramon Besa, que aliás é catalão, fala um pouco de um viés bem delicado para a Catalunha, o vitimismo. É certo que essas tentativas de acusar Pep de envenenar a negociação de Neymar ou de jogá-lo contra Tito Vilanova são deploráveis, não é essa a questão. O que está sem resposta agora é por que Guardiola foi ao ataque? É só uma forma de defesa? Ele se julga uma vitima do sistema? É uma declaração pura e simples de guerra à atual direção? É uma diferença pessoal com Rosell? Que mensagem ele quis passar para a comunidade catalã? Ele tem noção de que sua reação será instrumento político? Não se sinta obrigado a responder tudo, porque suponho que não existam respostas satisfatórias para metade sequer.

Carles: Não creio que Pep tenha ou possa evocar uma imagem vitimista para si. É um caráter forte e não se enquadra de nenhuma forma nesse personagem. À imprensa, sobretudo a catalã, não convém entrar numa guerra com o clube mais importante e instituição catalã por excelência. Inclusive porque terão que cobrir o clube durante a temporada e Pep, por enquanto, está bem longe. Isso não quer dizer que ele não tenha declarado a guerra à diretoria atual, é possível, assim como Johan Cruyff tem feito. Eles jogam em outro time e obedecem a outros interesses. Toda disputa é daninha, mas possivelmente o tempo demonstrará quem é mais prejudicial ao clube. Pep não gosta de cartola, nem mesmo Laporta, com quem evitava compartilhar os costumeiros arroubos ufanos nas vitórias. Se ele se deve a alguém dentro do clube é a Cruyff, que não tem cargo a não ser honorário (pelo que me consta, revogado por Rossel). O holandês tem muito poder, é a eterna eminência parda e não tem nenhuma dúvida na hora de articular contra ou a favor. Mas duvido que Guardiola seja esse maquinador frio.

Edu: Cruyff, um franco-atirador que fica fornecendo munição para os outros o tempo todo, é um tipo indefinido de postura que podemos discutir mais adiante. Mas é cartola sim, faz papel de cartola e, por agora, é uma lamentável influência para o Guardiola, de quem é muito amigo pelo que sabemos. Enfim, não consigo ainda chegar a uma conclusão, Carlão. Espero que você tenha razão sobre as posturas de Pep, mas em princípio não muda a imagem de que ele poderia ter sido, desde o início, bem mais transparente. E que ainda deve uma explicação para a comunidade ‘culé’ sobre sua aproximação com o Bayern quando ainda era técnico do Barça. Isso tem cheiro de um tipo treinador que é relativamente comum por aqui.

Carles: Não concordo que Cruyff seja uma má influência, nem franco-atirador, ele tem um belo quinhão de poder no clube em forma de representatividade. Ou seja, é respeitado e ouvido por uma enorme parcela a nação ‘blaugrana’, sem ter cargo e sem se candidatar a nada. Quanto a Guardiola, você está pedindo que ele seja totalmente transparente e assim mesmo sobreviva nesse mundinho? Desculpe, mas é ser muito exigente justamente com o lado menos pernicioso. Sem querer justificar atitudes deste ou daquele, como você reagiria se no auge da sua carreira e estando no time campeão de tudo, sofresse acosso dos seus chefes? Tentar uma saída, não? Todo mundo faz e por que Guardiola não? Olha, quer que eu diga uma coisa, Zé? Ainda acho que Guardiola vai acabar fazendo um favor para o Barça no caso Thiago Alcântara. O presumível interesse dele (não compartilhado pelo Bayern) vai dificultar a ida do rapaz para o United, o tempo vai passar e vai chegar o 1º de agosto, quando a cláusula volta aos 90 milhões de euros. De quebra, um favor para Rosell, a não ser que seja mais uma trama sorrateira para se livrar de um dos pupilos favoritos do Pep.

Edu: Me desculpe, mas não vejo nada de absurdo em querer transparência sempre,  nem que seja a última coisa da face da terra. Não dá para aceitar que, pelo fato de ‘esse mundinho’ ser desprezível eticamente, sejamos compreensivos com qualquer bobagem que esses tipos dizem, seja Cruyff, Rosell ou qualquer outro. E o argumento de que todo mundo faz e, portanto, Pep pode fazer, para mim encerra o assunto.

Carles: Prefiro sem manipulação, eu disse que você exige TOTAL transparência do Guardiola quando o que corria risco é a carreira dele!!! Ele não ocupa um cargo público, está lidando com empresários ardilosos e tem que jogar claro, sem guardar nenhuma carta na manga? Uma questão de sobrevivência profissional, não acha? Tente se colocar no lugar dele, se tiver outra sugestão, não se iniba, tentaremos que da próxima vez ele faça à sua maneira.

Edu: Carreira em risco? Por favor. No tal ‘mundinho’ de que você fala ninguém deixará de dar emprego hoje em dia a um cara como Guardiola. Se tem um cara neste momento que não deve estar preocupado com sobrevivência profissional no futebol, esse é Pep Guardiola.

Carles: Imagino que para manter o nível do Barça, ele teria muito poucos clubes para escolher e, excluindo o arquinimigo, menos ainda. Mas, como o objetivo aqui é só trocar impressões e não convencer você de nada, só me resta mais uma vez recorrer à ironia e entender que as verdadeiras vítimas na mão de ‘raposas’ como Pep Guardiola são Rosell e Hoeness.

 

 

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