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Novos ventos sopram dos Balcãs

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

18 de abril de 2013 | 05h31

Carles: Na visão do Europeu médio, ao Leste do Éden fica o inferno balcânico, acúmulo de estádios habitados por um futebol invariavelmente refinado, de arquibancadas ameaçadoras e, provavelmente, não tão vencedor quanto merecesse. Depois de sofrer um sério golpe na capacidade de competir com o traumático processo de redivisão política, as pequenas repúblicas herdeiras parecem recuperar pouco a pouco o prestígio e admiração mundial.

Edu: Há muitas justificativas, todas plenamente aceitáveis, para a instabilidade do futebol daquela região – se excluirmos a Grécia, que para efeitos geográficos também pertence aos Balcãs (mas como de refinado o futebol grego não tem nada, então não conta). É claro que tudo o que aconteceu na ex-Iugoslávia desde a Segunda Guerra até o fim da década de 1990 atingiu diretamente o jeito de aquele povo enfrentar as dificuldades, sua conturbada trajetória social, seu olhar para os vizinhos e o resto do mundo. Ali, nada deixa de ter tem um forte viés político, religioso, étnico, desde a mistura de culturas da época do império otomano – e o futebol não é exceção. O interessante, no caso do futebol, é que, no fundo, os pequenos estados são fiéis a uma característica que mistura habilidade pessoal e vocação de ataque. Só não têm a organização tática dos vizinhos ricos do continente.

Carles: Aparentemente, mais do que uma forma de ver o futebol, é um modo de vida. A postura feroz e agressiva, antes que preventiva. A busca do objetivo a qualquer preço. Isso parece claramente refletido na recente história dessa zona geográfica e de alguma forma nos traços comuns a cada uma das suas ‘tribos’. Contudo, se a gente observar a evolução de cada uma das seleções, teremos que dar certa razão a esse veemente interesse em marcar diferenças. O último emergente, Montenegro, liderando seu grupo na classificação para o Mundial do ano que vem, pouco ou nada tem a ver com a aquela Croácia, terceira colocada da Copa de 1998.

Edu: Tanto que Montenegro deixou numa tremenda saia justa ninguém menos que a Inglaterra. Essas diferenças entre os estados formados após a guerra sangrenta dos anos 90, porém, não afetam outra característica comum a todos eles, incluindo Eslovênia e Bósnia: eficiência para formar mão de obra. É muito fértil aquela escola de futebol. E tem o handicap cultural extra de, durante os anos complicados de reconstrução (que, aliás, ainda não terminaram), ter se envolvido num intenso intercâmbio com quase todos os centros importantes do futebol. É raro encontrar um grande time europeu que não tenha ao menos um ou dois jogadores daquela região.

Carles: Verdade, quase sempre mais do que coadjuvantes e menos que estrelas desses times. E não por falta de talento. Tenho gostado muito, por exemplo, da evolução do meio-campista  Ivan Rakitić no Sevilla, apesar da temporada mediana do clube hispalense. É o croata, nascido na Suíça, mais andaluz que conheço.

Edu: É claro que ainda temos bem vivos na memória os clássicos jogadores de pouco tempo atrás, como o refinado croata Boban, o sérvio Stojkovic ou o montenegrino Savicevic. Mas as últimas gerações, principalmente de croatas e sérvios, tem-se mostrado menos brilhantes e mais disciplinadas e competitivas, conforme os traumas daquele período conturbado vão sendo superados. É só ver quem anda fazendo sucesso por aí, como os croatas Mario Mandzukic, do Bayern, e o seu amigo Modric, do Madrid. Além de uma boa safra de zagueiros que está na Premier, comandada pelo sérvio Ivanovic, do Chelsea, mas que tem como maior promessa Matija Nastasic, 20 anos, do City. Esse é craque.

Carles: Mandzukic é considerado o grande desfalque do Bayern para o primeiro confronto contra o Barça, mesmo com o seu “reserva” Mario Gomes fazendo três gols na terça-feira pela semifinal de copa alemã. Falando em futebol sérvio (ou iugoslavo), é impossível não lembrar do mítico Estrela Vermelha de Belgrado, único clube balcânico com um título de campeão continental. E manda seus jogos, nada mais nada menos, que no “Pequeno Maracanã”. É só uma homenagem ou existe mais em comum entre o estilo do futebol da região e o da América do Sul?

Edu: O apelido do estádio tem relação direta justamente com a antiga identificação dos iugoslavos com estilo do futebol brasileiro. Eles mesmos se auto definiam como o ‘Brasil Europeu’.

Carles: Tem ainda mais uma proeza desse futebol tão particular, e ao mesmo tempo tão marcado por fusões de estilos. Na copa de 2006, apesar da independência de Montenegro, a seleção da Sérvia ainda contava com jogadores montenegrinos o que, segundo algumas interpretações, considera-se o único caso de um combinado multinacional a disputar um campeonato mundial de seleções.

Edu: O que demonstra que tudo o que veio daqueles lados teve algo de originalidade, depois de tempos tão bicudos. Não é futebol, é basquete, mas ainda assim, para se ter uma boa ideia do que representaram aqueles anos de crispação e terror, vale a pena ver e rever o documentário feito pela ESPN, chamado ‘Once Brothers’, que mostra a história da amizade rompida, por causa da guerra, entre dois astros, então na NBA: o sérvio Vlade Divac e o croata Drazen Petrovic, o Pelé do basquete europeu, morto pouco depois em um acidente de carro. É um filme extremamente sensível e retrata com precisão o peso das relações humanas naquela sociedade em transformação, tendo o esporte como cenário de fundo http://www.youtube.com/watch?v=zanji1I7Yd4

Carles: Boa indicação.

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