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O ‘caño’ de Neymar e a teimosia de Tata

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de agosto de 2013 | 18h16

Edu: Os catalães já estão percebendo que, muito além daquela história de cai-cai, Neymar é de fato um tipo de jogador que desperta a ira dos adversários que não são tolerantes à humilhação de um drible.

Carles: Imagino que você se refere ao ‘chega pra lá’ do Jesús Gamez, do Málaga, depois de tomar uma bola no meio das pernas do garoto.

Edu: Se todo jogador que tomasse um ‘caño’ de Neymar reagisse como ele, todas as partidas teriam problemas, confrontos e expulsões.

Carles: Primeiro: quem é Jesús Gamez? Segundo: que outro recurso ele tem diante do talento de Neymar? Espero que Neymar perceba que isso é parte de um plano dos medíocres para intimidá-lo, aproveitando que ele ainda está meio zonzo com a recente chegada à Liga. Já aviso, ele não vai ter a mesma proteção de outros jogadores locais.

Edu: Mas a vida dele no futebol, curta mas intensa, não teve outro perfil em nenhum momento. Não será novidade. Foi sistematicamente ameaçado por aqui por zagueiros tão ou mais toscos que esse Gamez e nunca foi de se intimidar. A questão é se o Barça dará respaldo, como também os colegas e a imprensa. Porque o fato de Neymar dar um drible pode ser visto como um abuso em determinadas ocasiões, mas é como ele sabe jogar, é o diferencial de um jogador desse tipo. Se algum dia alguém do Barça pedir para ele se conter porque estará humilhando um adversário, aí estarão tolhendo o menino. Será um crime de censura.

Carles: Acho que vocês seguem confundindo alguns dos códigos locais, dancinha em goleada na casa de time ameaçado pelo rebaixamento é, no mínimo, deselegante. E eu estou de acordo. Um drible, lindo, com leveza, necessário e pertinente para ganhar a posição e dirigir-se ao gol, como inclusive foi o lance em questão, é sempre um recurso válido e merece cartão para o infrator.

Edu: Você acha que não existe nenhuma possibilidade de algum luminar que prega os ‘valores’ do Barça um dia chegar e pedir para ele se conter nos dribles?

Carles: Se os dribles forem produtivos e nisso incluo a manutenção da posse de bola para clarear o jogo, espero que não. Intolerantes e energúmenos existem em todas as partes. Se algum iluminado desses resolver censurar o jogo bonito, tipologia louvada por todo bom apreciador de futebol aqui ou na China Popular, certamente não terá nem apoio nem repercussão. Neymar até aqui me pareceu suficientemente inteligente para ler e entender os tempos do jogo. Lógico que precisa um período para adaptar tudo o que ele já tem mecanizado e desconfio que esse é o objetivo da incorporação paulatina planejada pelo Tata, mas que já está despertando desconfiança.

Edu: Drible produtivo é um conceito bem elástico e pode ter múltiplas interpretações. Em determinado momento do jogo, um drible que aparentemente não é produtivo pode ser importante para turbinar o moral do time ou para dar uma enquadrada no adversário. É algo comum no futebol brasileiro, mas não tão bem visto na Europa. Neymar faz muito isso. E há também formas diferentes de driblar. Messi tem um drible vertical, sempre, e dá a impressão constante de ser um drible produtivo, embora às vezes não seja. É diferente do estilo de Neymar.

Carles: Eu, pelo menos, sei muito bem o que é um drible produtivo. Você tem razão, o drible de efeito moral não é bem visto por aqui, opinião que eu compartilho. O drible produtivo não tem porque ser vertical. O drible vertical efetivo pressupõe uma série de circunstâncias favoráveis pouco frequentes. As probabilidades de se fazer uma finta vertical e ter outro jogador na cobertura é grande. A rapidez de reflexo e habilidade de Messi permitem que ele tire partido dessa jogadas permanentemente.  Acho que o Neymar para essa jogada necessita mais espaço. Outro exemplo é Thiago Alcântara, cujo talento é uma unanimidade, como também o é que seu maior defeito sempre foi tomar a decisão errada na hora de escolher a região do campo para realizar um drible arriscado. E isso não é discutível, é fato, ele vivia criando situações de perigo contra o próprio patrimônio.

Edu: De qualquer jeito, a possibilidade de Neymar render o que sabe está vinculada ao apoio que ele encontrar dentro do time para impor seu estilo. Imagino que para isso foi contratado. Por outro lado, está difícil entender o que quer Tata Martino com essa insistência em fazer o garoto jogar pouco, em pílulas. Se fosse o caso de Pedro e Alexis estarem arrebentando, seria uma explicação. Mas não é. E também não acredito que seja uma forma de ‘preservar’ Neymar. Um jogador desse porte precisa de jogo, precisa de pressão.

Carles: Daí a riqueza da diversidade e do choque cultural. Eu não consigo  convencer você nem vice-versa, sobre os respectivos códigos de conduta. Mesmo assim, reconheço que você tem razão em que Neymar precisa de apoio, algo que independe do número de minutos que ele está jogando, sobre tudo numa parte morna do campeonato. Não é difícil de entender que é interesse da maioria, Barça, Tata e quase todo o plantel, que Neymar arrebente. Ninguém, a não ser os Gamez da vida, tem interesse em freá-lo. Ele e todos os seus fãs precisam ter um pouco de paciência.

Edu: É um conceito bacana, Carlão – diversidade, nuances culturais, viva as diferenças! Mas o futebol é cruel em algumas particularidades e quanto mais tempo durar essa lenga-lenga, mais problemas de insegurança pode gerar. Até onde sabemos, não há mais aquela questão física, da tal anemia. Neymar está no mesmo patamar dos colegas, que aliás têm demonstrado as dificuldades físicas naturais do início de temporada. Portanto, esperar para quê? A torcida, os fãs, o entorno, todos podem até ter paciência, mas é preciso medir até onde vai a impaciência do próprio Neymar, porque vai surgindo uma ansiedade que pode trazer consequências não muito boas quando, enfim, ele for titular.

Carles: Arrisco dizer que Neymar, apesar da natural ansiedade, é capaz de entender que não está deixando de ser titular num time de ponta com uma longa temporada pela frente e uma porção de títulos importantes por disputar. Ninguém me disse e suponho que nem a ele, que não é titular do Barça ou que o plano não seja esse. Por outro lado, compreendo que desde o Brasil tenha-se a sensação de que jogar 30 minutos por jogo, em compromissos de média importância e em fase de adaptação, seja uma condição de reserva e não de titular.

Edu: Não sei se é isso, acho que não. Todo mundo sabe que ele não é reserva, porque, se for, seria preciso mandar Tata Matino para o garrote. Mas é evidente que Neymar precisa jogar. Pode ser uma bobagem nossa, mas aqui todo mundo quer ver o Neymar em campo, é o lugar dele. E ponto.

 

 

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