As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O craque, o zoom e o tabuleiro de xadrez

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de setembro de 2013 | 09h18

Edu: Também somos torcedores sem fronteiras, como tantos por aí. Pertencemos àquele tipo de apreciador de futebol que lê e vê muito, identificamos estilos e padrões táticos com certa facilidade até. Logo, imagino que os treinadores e as equipes técnicas também têm acesso a tudo, certamente de uma forma mais sofisticada, porque são equipes especializadas voltadas para essa captação. Talvez isso explique, por exemplo, a fórmula encontrada por alguns times para neutralizar o Barça (o Santos não conta) e também a Seleção do Marquês. Será que cada vez existem menos segredos no futebol?

Carles: Nada se inventa, tudo se transforma. As novidades do Barça, se esmiuçarmos a história do jogo tático, nada mais são do que velhas estratégias recicladas, recuperadas e turbinadas com métodos e preparação física mais sofisticados e a grande esperteza do senhor Pep de observar as estratégias de outros esportes, bem menos conservadores (inclusive porque têm menor compromisso público e menos que perder). Portanto, opino que o mais meritório é a capacidade de se reinventar, de não se acomodar a uma mesmice vigente. O problema é que as reinvenções tem prazo de validade e precisam ser re-reinventadas sempre. Não posso evitar citar novamente Guardiola, que teve a sabedoria de se afastar do objeto para conseguir uma perspectiva crítica. Já Don Vicente não tem tempo para isso. Quanto aos segredos, espero que ele tenha algum guardado na manga porque ultimamente custa a La Roja surpreender alguém que não seja o Taiti.

Edu: Não é o caso de crucificar o Marquês porque, como ele, dezenas de milhares de treinadores não se reciclam, talvez seja um vírus dessa profissão. Como também não tenho a mesma visão sublime que você sobre Guardiola, prefiro pensar que há muito de oportunidade nessa história das supostas ‘inovações’ táticas, há muito de inteligência ao aproveitar o material humano e um pouco de sorte também, porque ninguém é de ferro. Mas, nesse ponto, chegamos ao dilema do momento, mesmo que não haja grandes segredos e que a opção seja a reciclagem: o treinador é cada vez mais decisivo em sua batalha por criatividade tática ou ele continuará refém do material humano que tem na mão, algo tão antigo quanto a própria história do futebol?

Carles: Sem dúvida o papel do treinador é cada vez mais decisivo e isso é uma boa notícia. Eu pelo menos gosto que o campo de futebol, numa visão macroscópica, se pareça a um tabuleiro de xadrez em que a força de todas as peças se conjuguem e reforcem a capacidade individual. Mas adoro o zoom que mostra perícias particulares, dribles arriscados e toques impossíveis. É pedir muito? Nem acho, considerando que isso só depende da inteligência de um sujeito que é pago para pensar e não para lidar com egos. Se ele for capaz de traçar planos estratégicos eficientes e que, além disso, não coíbam o talento, está feito. Com todas as minhas restrições a Rafa Benitez, ele é um cara que dá tudo isso ao clube. Talvez discordemos na forma de chegar aos resultados, mas é um cara estudioso e preocupado em se renovar, mesmo que as vezes não consiga.

Edu: Vamos encontrar um Benitez aqui e outro ali, cada país tem o seu, bem mais do que um até. Mas ainda é pouco num universo tão gigantesco e não sei se falo sob o impacto do papel exercido pelos técnicos brasileiros nesse sentido de capacitação, que é o pior possível. E tem o outro lado da balança, que vive levando a melhor, esse das perícias e dos riscos. Sempre haverá um Messi, um Neymar, um Özil para fazer algo diferente. O futebolista de qualidade, este sim tem segredos indecifráveis e vai derrubar as realidades sistêmicas eventualmente criadas pelos técnicos. Por isso corremos o risco de o avanço das individualidades ser mais rápido do que o do sujeito no tabuleiro de xadrez.

Carles: Mas o segredo, sem nenhuma novidade, mais uma vez é o equilíbrio. Dou como exemplo a tolerância ao erro dentro de campo. Em tempos em que a única exigência, além da vitória, era a habilidade, uma jogada arriscada era mais consentida. A alta competitividade acelerou as urgências pela segurança na posse de bola. A forma de garantir isso pode estar muito bem estabelecida no quadro negro do “professor”, mas a posta em prática depende de que, cada vez mais, os jogadores ponham cabeça e não só coração. Um time competitivo conta com cada vez mais seres pensantes dentro de campo, capazes não só de viabilizar o jogo da equipe, mas de tomar as decisões certas na hora certa. Estamos cansados de ver fracassar grandes talentos intuitivos, verdadeiros malabaristas com a bola no pé, mas que pouco se preocuparam em desenvolver a outra extremidade.

Edu: Também gostaria de rever essa poesia toda, de o jogador poder arriscar, de privilegiar a habilidade e, em seguida, vamos tomar ‘una caña’ e continuar nos divertindo. Um tempo atrás, era assim até nas aulas de educação física. Mas suponho que temos que trabalhar com a realidade, que é essa da competição desmedida, de um sujeito que paga cem milhões de euros para o outro trazer resultados. E, insisto, mesmo assim os craques continuam prevalecendo. Muitos grandes jogadores de hoje são muito mais táticos do que eram, por exemplo, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno dez anos atrás. Obviamente que Iniesta é principalmente intuitivo, mas tem também uma inteligência tática intuitiva e, por isso, é um cara competitivo, além de talentoso.

Carles: Quando o talento é muitíssimo evidente até se perdoam as carências táticas. Normalmente, isso é privilégio de um grande jogador em cada grande equipe e olhe lá. Se quiser ganhar da outra grande equipe vai ter que marcar, sim, vai ter que tocar a bola simples, sem arriscar perdê-la e tomar um contra-ataque. Os super-homens são uns dois ou três e, mesmo assim, sujeitos a fases ruins ou menos boas, como pudemos comprovar recentemente com Messi. O que nunca falha é um bom plano tático, isso não entende de marés ou fases da lua. Só o aspecto coletivo é capaz de garantir uma regularidade, impossível para a imponderabilidade do comportamento individual. No fim das contas, são os Xabis, Xavis, Paulinhos, Özis que garantem o emprego e os altos salários dos Messis, Cristianos e Bales.

Edu: Como prefiro os craques aos técnicos, talvez eu tenha a ilusão de sempre ver mais do que um por equipe, independente dos salários. É o que pretendo continuar apreciando nessa minha caminhada de torcedor sem fronteiras. Se nesse meio tempo surgir algum gênio do tabuleiro de xadrez, melhor.

Carles: Pois viva a bola no pé, mas com inteligência.

 

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: