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O derby expõe feridas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de setembro de 2013 | 06h24

Carles: Segunda vitória seguida do Atlético sobre o Real Madrid em pouco tempo depois de quase 15 anos sem conseguir uma só. Carletto tinha dito antes do jogo que o time ‘colchonero’ é o Cholo de novo. Só que o time dele mesmo, parece não ter nenhuma cara, nenhuma identidade. Logo ele que dos três treinadores dos times de ponta foi o que chegou falando mais grosso. No contraponto, a fala macia do Tata Martino, que parece toma as decisões e começa a dar identidade ao Barça, ou várias para ser exato, uma para cada situação. É dura a vida na liga vista desde os ‘banquillos’

Edu: Os caras mais bem pagos do mundo, com os elencos mais caros do mundo, nos cenários mais midiáticos do mundo e com a melhor estrutura de que se tem notícia. É dura a vida de técnico na Espanha… E justo o ‘primo pobre’ dessa história é que tem algo consistente pra mostrar, porque o Barça, mesmo ganhando tudo, ainda oscila nas mãos do argentino. Enquanto isso, o outro hermano, Simeone, faz o time dele jogar direitinho e tem as mesmas sete vitórias que o Barça. Sobre Madrid prefiro respirar fundo por alguns minutos antes de dar opinião.

Carles: O Atlético amargou anos de penúria, com resultados muito aquém às possiblidades do terceiro orçamento da Liga. Chegou Simeone e consertou tudo? Talvez o maior acerto dele tenha sido proteger seu elenco do inimigo mais poderoso, os dirigentes do próprio clube, que nos clubes de futebol parecem quase sempre inconformados em cuidar só dos assuntos deles. Todo mundo quer opinar, quer escalar, decidir quem contratar. No momento em que o Cholo tirou diplomaticamente os cartolas do vestiário, o time começou a funcionar e não para de evoluir. Ancelotti parecia ter um time que, mais ou menos,  funcionava, mas parece disposto a desmontá-lo, primeiro com a saída de Özil, o homem que segundo comentava Valdano esta semana, criava por jogo pelo menos três ocasiões manifestas de gol aos atacantes. Ontem o time acabou o jogo com uma tremenda munição lá na frente, Cristiano, Bale, Morata e Benzema,  mas ninguém para alimentar esse ataque. Isco, que nem um armador é, tinha deixado o campo. Será que desde o banco de reservas ‘blanco’ o mundo se vê tão diferente assim?

Edu: Quando um presidente é técnico só pode dar nisso. E quando quem deveria ser o técnico é um molengão, pior.  Porque foi Ancelotti que permitiu que o presidente desmontasse a mínima estrutura deixada pelo Mourinho, uma das poucas coisas que funcionava, a dupla Di Maria-Özil. Mas aí veio o homem das trevas e contratou o sujeito mais caro do planeta. Pronto, virou um timeco, essa é a verdade. Dá pena ver Cristiano se virando com os zagueiros adversários como num MMA em que ele enfrenta três ou quatro ao mesmo tempo e durante todo o tempo.

Carles: Qualquer outra empresa que, com o orçamento do Madrid, tivesse obtido os  resultados conseguidos por Floren, já tinha sido posto no olho da rua. Como ele parece colado na cadeira da presidência, melhor seria ensiná-lo a jogar aquele vídeo game, acho que é Manager Football, assim ele se distrai um pouquinho e deixa os seus comandados trabalharem mais tranquilos. Porque o lance dele parece algum trauma de infância, de não poder jogar no time da escola ou coisa do gênero. Até o meu amigo Rosell parece mais inteligente. Ou o Tata, mais convincente.

Edu: Tata, ao menos, parece ter pé no chão e já pegou um esquema minimamente resolvido. Acrescentar o Neymar nisso é moleza, teoricamente. Mas sempre tive prevenção contra times feitos artificialmente, à base de muita grana, e sem técnicos com personalidade. Mesmo aqui, nesta estrutura que não se compara à de vocês, há muitos exemplos que não deram certo, um Corinthians dos anos 80 que chegou a ter nove caras de seleções (incluindo o simpático Dunga, Casagrande e o uruguaio Hugo de León) e não ganhou nada, ou o São Paulo de medos dos 90, ou o Flamengo que juntou Romário, Edmundo e Sávio… e tantos outros. Acontece que montar um elenco com muitas divas torna a situação difícil de governar e não só pelos egos, pelo jogo mesmo. O próprio Madrid perdeu tempo com técnicos sem estrutura pessoal para reger as estrelas, como Queiroz e Luxemburgo. E o time fica sem norte, lógico. Quem vai se sacrificar pelo outro? Quem vai pensar na equipe? Quem vai reclamar de uma finalização precipitada quando o correto era um passe? Que moral tem Isco para esbravejar com Bale ou Cristiano?

Carles: Uma coisa é procurar o melhor treinador, outra, o treinador mais adequado e outra ainda, um treinador que não interfira nos negócios do clube, quando ele deveria ser parte fundamental. Se a política de contratações de jogadores do Madrid se baseia principalmente na venda de imagem de produtos, de camisetas, é melhor montar uma agência de publicidade e marketing de uma vez. O Isco tinha demonstrado no campo que poderia ser o líder desse novo Madrid e pouco a pouco parece estar perdendo moral. Em compensação, Bale já entra em campo pedindo desculpas pelo que custou, afobado em justificar seu preço. O treinador italiano que teoricamente veio apaziguar os ânimos, não consegue se impor e parece fadado a ser engolido pela filosofia mercantilista do clube, nem aquela autoridade meio arbitrária de Mourinho ele consegue demonstrar. O cúmulo foi, num jogo transcendental como este derby madrileño, sair com uma escalação sem o ponto de equilíbrio do time, Modrić, talvez para justificar o alto investimento em Illarra, bom jogador, mas uma contratação que pareceu outro caprichinho do ‘presi’. Uma lição de como queimar dois jogadores com uma só tacada.

Edu: E aí temos o quê: um time certinho do outro lado expõe todas as feridas e praticamente afasta o bilionário Madrid da Liga, porque cinco pontos de diferença em um campeonato como o espanhol é uma eternidade. Com duas ou três pérolas de Koke (um jogador de eficiência impressionante), um trio de meio-campo dedicado, uma defesa estoica e um atacante que, sozinho, resolveu o assunto, o Atlético deu uma aula. E depois do que fez Diego Costa, só resta a Pepe e Sérgio Ramos uma boa terapia.

Carles: É como manchetou ‘El País’, logo que o juiz apitou o final do derby: “El Atlético va muy en serio”.

 

 

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