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O ‘efeito Mou’ na Seleção de Del Bosque

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

23 de março de 2013 | 10h58

Edu: Fiquei impressionado como todos os jornais espanhóis, tanto os festivos como os mais sérios, só falavam nesse jogo contra a Finlândia como ‘partido de trámite’.

Carles: Sabia que seria complicado, mas não tanto. Pensei em 1 a 0, 2 a 1 ou na pior das hipóteses 0 a 0, mas depois de fazer 1 a 0 tomar o empate foi falta de concentração, bobagem do Marquês, mais do que ninguém. Não manteve a tensão. Inclusive com as alterações mandou um recado, de “ya está”, poupemo-nos para Paris.

Edu: Manter a tensão não é das principais virtudes do Marquês… Pareceu uma certa soberba

CarlesExatamente. Teve um lance curioso ontem: no 1 a 1, excepcionalmente ele tentou dar ordens e esbravejar desde a lateral. Os jogadores começaram a se olhar entre eles e fazer uma cara de “o que ele está dizendo?”. Pedro não sabia onde se posicionar e acabou, durante um ataque espanhol, ele, um atacante, indo para perto do Del Bosque para que ele explicasse. Nenhuma partida é de trâmite, nunca! Del Bosque deveria saber (de verdade!) disso.

Edu: Del Bosque esbravejando ao lado do campo não tem nada de  natural. Dá a impressão de ser uma encenação para a torcida e para a imprensa. Tipo ‘fiz o que pude’.

Carles: Não, não, desespero nitidamente. Ué, o desconfiado não sou eu, sempre?

Edu: Tenho um pouco esse direito. Não só deveres.

Carles: Claro (vamos fingir que sim). Vitimismo catalão…. hummmmmmmm

Edu: Nas últimas aparições públicas o Marquês tem mostrado uma nova cara. Fez um discurso um tanto ácido dirigido ao Mourinho no Brasil em janeiro. Depois mandou outros recados e indiretas capciosas. E na véspera desse jogo contra a Finlândia disse que não via problema em se dar bem com a imprensa, como se tivesse respondendo a alguém (Mourinho outra vez?). Agora fica furioso à beira do campo. Onde está aquele impávido ‘salmantino’ que transpira racionalidade e autocontrole? Temos um Marquês reciclado.

Carles: Imagino que as suspeitas levantadas por Mourinho sobre os votos ao melhor treinador da FIFA não o tenham deixado cômodo, por muito que procurasse demonstrar tranquilidade e indiferença. Mou conseguiu desestabilizar a ‘Roja’, sem dúvida, através do seu líder. E de Ramos, Casillas…

Edu: Que poder tem esse português!

Carles: Não sei se tem, mas a sua especialidade são os dardos envenenados. Via microfones. Sobre isso não tenho nenhuma dúvida.

Edu: Para desestabilizar até o Marquês é porque incomoda mesmo. Mas é de se estranhar o jeito de ser do espanhol (e não só o Marquês), tão orgulhoso de suas idiossincrasias, ser abalado por esse cara…

Carles: Se a abordagem for psicossocial, vamos lá… Generalizando, é característica dos “mansos” engolir e, como consequência, com o tempo, revelarem-se ressentidos. Imagino que Del Bosque pertença a essa categoria. Às vezes, detecto nele certa melancolia, um certo vitimismo resignado que se confunde com elegância. Não nego que ele seja um cara cortês, mas tantas faces para dar às bofetadas, frente às adversidades, me fazem duvidar. Ninguém é tão plácido, realmente.

Edu: Dá a impressão de ele ser cobrado sistematicamente por essa postura muito plácida.. Pode ter sido uma reação a isso também. Aí transfiro a desconfiança para você. Será que essa campanha dirigida pelo Mourinho faz parte de uma artimanha mais elaborada, plantada pelo Jorge Mendes? O que a dupla lusitana ganharia desestabilizando a ‘Roja’? É só por causa dos votos que elegeram o Marquês na Fifa?

CarlesSigo insistindo que me pareceu uma reação humana, de desespero. Sentiu-se contra a parede, pelo questionamento dos votos que ele recebeu e pela situação delicadíssima em que o gol da Finlândia colocou ‘La Roja’. Imagine se a campeã não chega ao próximo mundial? Quanto à possível conspiração lusa, não acredito, demasiada frieza e inteligência para o superagente Mendes.

Edu: Mourinho tem tanto ódio dirigido aos espanhóis que, do alto de sua esquizofrenia, própria de um cara com tamanho ego, tem claramente um propósito destrutivo em tudo que diz – e desta vez o alvo é o Marquês, via Fifa. Obviamente que se trata de uma insegurança pessoal que desata esse mecanismo de defesa, partir destrutivamente para o ataque.

Carles: Estamos de acordo, ele está se sentido desprezado pelos espanhóis, quase ninguém na imprensa lhe dá apoio, atualmente. E dentro do vestiário é evidente a ruptura com o grupo de espanhóis. Se bem que a gota d’água foi o afastamento do treinador de jogadores do outro grupo, que tinha o Marcelo, e definitivamente, de Cristiano Ronaldo. Tudo começou ao romper com o grupo de espanhóis e isso divide o vestiário, mas o ar ficou irrespirável quando ele se afastou de Cristiano Ronaldo. Faz quanto tempo que você não ouve uma entrevista de um falando do outro? A sensação é de que ele está brigado com o mundo. Imagino que Mendes ganha muito com essa fórmula de atrito, mal estar, rescisão de contrato atual e um novo, com outro grande clube, não? A fórmula é assim de simples, como na história que o caboclo que vendia um animal, este quebrava tudo, a cerca, e voltava ao antigo dono, que podia revendê-lo.

Edu: Evidente que o Mendes ganha sempre. E é bom lembrar que estamos no mesmo barco: Felipão é parte dessa turma. É peixe do Mendes e vive elogiando alucinadamente o Mou. E não dou 24 horas para ele, na primeira oportunidade, vir dizendo com aquele seu poder de articular ideias originais: “Tá vendo? Vocês vivem falando da Espanha? Olha aí o que aconteceu.”

Carles: E olha que o Felipão foi o último a demonstrar certo carinho com o Marquês em público, justamente na entrega do polêmico prêmio.

Edu: Mas aí ele era um funcionário graduado da CBF fazendo de anfitrião. Tinha que agradar a chefia.

 

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