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O encontro de Guardiola com seu par perfeito

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

25 de março de 2014 | 20h53

Edu: Em menos de um ano, Pep Guardiola entrou para a galeria do Bayern e do futebol europeu como o técnico que conquistou um título com maior antecipação na história das grandes ligas, com a vitória de hoje por 3 a 1 sobre o Herta Berlim: sete rodadas antes do fim da Bundesliga, 19 vitórias consecutivas, melhor ataque, melhor defesa. Salvo uma hecatombe, será campeão invicto. Até que ponto o Bayern foi mais Guardiola que Jupp Heyckens? Até que ponto a Bundesliga é suficientemente forte para valorizar esse título que desde a primeira rodada todos sabiam de quem seria? Até que ponto este Bayern é um novo Barça? Pergunto porque, sinceramente, foram as dúvidas que me vieram à cabeça acompanhando a cada rodada esse campeonato tão previsível e monótono.

Carles: Pep Guardiola encontrou a tampa para o seu balaio. Ele é um obcecado pela perfeição e no clube bávaro pode ter longas conversas táticas com Schweinsteiger, Müller ou Lahm e corrigi-los, sem problemas, porque a busca incansável pela melhora faz parte da cultura alemã. Até Ribéry e Robben entraram na dele. Assisti ao vídeo de uma entrevista com Pep na página do Bayern, dizendo que o grande requisito no futebol é a inteligência. Entender o jogo, e entender tanto atrás como na frente, independente da posição em que se joga. Por isso ele encontrou um lugar para Götze como ala, para o antigo ala Kroos como volante, para o antigo meia Müller como centroavante, ‘enganche’ ou seja lá o que for. É evidente que o Bayern de Pep é diferente do de Heyckens, como está claro que Guardiola aproveitou bem a senda aberta pelo seu antecessor. De uma forma simplista e até estereotipada, eu diria que o time do catalão tem a força e o automatismo de antes, com a capacidade de improvisação (se for requerida, claro) mais afim com a cultura latina. O que sim pode ser certo é que esta Bundesliga 2013-14 não esteve à altura, nem exigiu mesmo muito desse time aparentemente sem limites.

Edu: A dedicação do time nas coisas táticas mais comezinhas já era uma realidade com Heyckens. Não é de hoje que Mandzukic e Ribéry vêm dar carrinhos no meio de campo, mas concordo que a cara do time mudou um pouco, ficou menos vertical e mais dominante, embora seja estranho querer transformar Toni Kroos, por exemplo, em um especialista em toque de bola, coisa que ele fica visivelmente desconfortável ao tentar fazer. Não sou tão fã quanto você de Guardiola, mas admiro nele especialmente o desprezo por defender de forma tradicional e optar pela marcação dinâmica, a decantada ‘marcação ofensiva’. O que questiono, isso sim, é se o modelo foi efetivamente testado porque a diferença técnica com os rivais da Bundesliga é um abismo, do tamanho da diferença econômica dos nanicos germânicos, Dortmund inclusive, com o gigante da Baviera. Para ser um novo Barcelona será preciso ao Bayern, então, provar todas as teses de Pep na Champions?

Carles: Acho que você está nivelando por baixo o que talvez nem seja tão medíocre como possa parecer à primeira vista, tendo como referência um Bayern muitíssimos pontos acima do resto. É a teoria do côncavo e do convexo funcionando tanto na competição como em cada um dos jogos em que a inteligência tática não só fez o próprio time jogar, mas conseguiu inibir as capacidades do adversário. Foi assim que, na Champion do ano passado, o Bayern de Jupp fez o Barça parecer um time de escolares, e dos ruins. E, no fim, não era para tanto. Não acho que o time do Bayern tenha perdido verticalidade, e até diria que ganhou em velocidade, mesmo que muitas vezes opte por não tentar chegar ao gol com três toques. É a teoria de “terminar a jogada” levada até as últimas consequências. Noto nesse Bayern o advento do tique-taca (à alemã, é verdade – com deslocamentos de grandes massas e não de baixinhos) em busca do desmarque. E não só dentro da área, mas de todos os jogadores que se movimentam constantemente e que ocupam o meio, seja através do toque de qualidade, como Götze ou Thiago (este com uma dose de risco, sempre) ou a aplicação tática de Kroos. Aliás, Pep soube retificar quanto à predisposição inicial com Toni ou Mandzukic e tem contado com eles, até prova em contrário.

Edu: O Bayern pode ter feito as coisas ficarem fáceis, sim, é verdade, mas esse quadro que você pinta é de uma perfeição suprema. Quem nunca viu o Bayern jogar e está lendo estas linhas vai pensar que estamos em algum paraíso futebolístico que não precisa de retoques de entidades divinas, é a paz celestial, uma epifania acima de todas as virtudes terrenas. Só que até mesmo um intocável da história do Bayern e do futebol alemão, Franz Beckenbauer, há duas semanas, andou cutucando Pep Guardiola ao definir como ‘aborrecido’ o futebol do Bayern, dizendo que, ‘daqui a pouco jogaremos um futebol tão chato quanto o do Barcelona’. Palavras do kaiser. Ok, a estética alemã pode estar em choque com algumas propostas de Pep, mas ao menos significa que não há no reino da Baviera toda essa unanimidade em torno do técnico.

Carles: Você nunca trabalhou diretamente com um executivo alemão ou holandês? Eu já tive o “prazer”. Franz, assim como Matthias Sammer e Rummenigge são executivos e, não tenho dúvidas, vivem se revezando para bater no Pep, tal e como faria a zaga do Levante com Messi ou Diego Costa. Só para que o técnico catalão não se esqueça em nenhum momento de que eles estão ali, em nome dos interesses do clube que é mais deles do que do primeiro aventureiro que possa se atrever a invadir as terras bávaras. Aventureiro, aliás, que acabou de entrar para o clube seleto de treinadores – seis no total – que ganharam o título já no ano de sua estreia na Bundesliga, entre eles o próprio Beckenbauer em 1994, o sérvio Branko Zebec em 1969 e Louis van Gaal em 2010, todos pelo Bayern. E mais Georg Knöpfle em 1964 pelo Colonia e o austríaco Ernst Happel em 1982 com o Hamburgo. Happel por certo, entrou para a história como um dos grande estrategistas europeus e com quem a imprensa alemã começa a comparar Guardiola.

Edu: Então, diante disso, meus argumentos minguaram, mesmo. Tenho que me conformar, estamos diante de uma divindade do futebol. Vou fazer força para sublimar os ataques de autoritarismo que ele já teve no Barça e que, ao que consta, andou mostrando no vestiário da Allianz Arena uma ou outra vez. Mas, para dar a mão à palmatória definitivamente, prefiro esperar o desfecho da Champions. Aí, prometo nunca mais colocar em dúvida os métodos do chefão do Olimpo futebolístico.

Carles: Olha, apesar da minha admiração pelo trabalho de Guardiola, que não considero santo, nem muito menos, mas sim um comandante que não exige nada que ele não dê em troca… apesar disso, eu preferiria que a Champions não fosse o passeio para o Bayern que, eu temo, será nesta fase final.

 

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