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O exemplo de como não fazer

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

31 de julho de 2013 | 06h40

Edu: Muitas vezes neste espaço insistimos na necessidade de os treinadores poderem dar consistência a seu trabalho com um prazo razoável para aplicar conceitos sem que, para isso, precisem fazer concessões e se agarrar de qualquer forma ao emprego. Abel Braga estava há dois anos no Fluminense, teve esse prazo para estabelecer suas ideias e conseguiu, foi campeão brasileiro, fez um time de respeito. Mas foi demitido após cinco derrotas consecutivas.

Carles: Lamentável a atuação dos dirigentes, aliás essa é a estratégia em todos os setores e não só no futebol, colocar gente sem o suficiente conhecimento técnico, os tais mandos intermediários que estão aí para cortar cabeças, sem a menor culpa. Não assimilam nenhum tipo de pressão. É sempre mais fácil eliminar a parte mais vulnerável. E que raras vezes é o verdadeiro problema.

Edu: É uma lógica que derruba qualquer tentativa de interpretação com base no bom senso. Há seis meses, o sujeito era uma dos três melhores técnicos do Brasil e agora deixou de ser? Obviamente que a torcida pressiona, provavelmente os cartolas cornetam o tempo todo e até o patrocinador pode boquejar alguma coisa. Mas qual é o sentido de dinamitar dessa forma um trabalho de fundo, criterioso, de um técnico que conhece o clube como poucos? E como já foi escolhido o substituto, só podemos concluir que a cama estava feita há tempos para o Abel. Ainda mais vendo quem acaba de chegar…

Carles: É muito palpite para sentenciar uma só cabeça. No caso da torcida, sabemos que se move por emoções, hoje consagra e amanhã condena. Mas, depois de amanhã, volta a se emocionar. É de se esperar. O que não se pode tolerar é que guerras internas pelo poder acabem sempre arrebentando do mesmo lado. Claro que no caso em questão deve ter sido pela pressão de uma das facções. Se até Guardiola no auge do prestígio, espirrou, que dirá do Abel? E substituído logo por quem. De tanto ver triunfar as nulidades…

Edu: O problema não é só a saída de Abel, que o torcedor de verdade do Fluminense, com um pouco de capacidade de reflexão, deve estar lamentando. O pior é a forma como as coisas acontecem. Se foi assim na Seleção Brasileira, quando Mano Menezes saiu não por causa do seu trabalho mas porque havia preferência por outro que já estava previamente acertado, é óbvio que poderia ser da mesma forma no Fluminense. Abel sai e horas depois chega Luxemburgo, um cara que sempre declarou naquele tom cândido que lhe peculiar que gostaria de trabalhar nas Laranjeiras. Faça-me um favor… E depois os técnicos brasileiros ainda posam de líderes com consciência de classe.

Carles: Mas, claro, a imprensa especializada não demorou em denunciar, imagino… Estão aí para isso, não é?

Edu: Ah, tá bom… em que mundo você pensa que vive?

Carles: Num mundo em que a sociedade é vigilante e os meios estão a serviço da cidadania, que não manipulam nem favorecem qualquer grupúsculo interessado, não?

Edu: Também sonho com isso. E quero ver, aliás, também a posição de outros técnicos, que se omitiram covardemente no episódio da queda do Mano. Há coisas no futebol que parecem não ter solução e uma delas é o desconhecimento mais básico da convivência cidadã. É por isso que o torcedor, por princípio, não tem respeito pelo treinador e é o primeiro a chamá-lo de burro após uma derrota corriqueira. Os técnicos brasileiros não se dão ao respeito, com a conivência na maioria das vezes dos “amiguetes” da mídia. E na hora em que falamos em contratar um estrangeiro para acrescentar outras visões táticas a essa pobreza parnasiana de ideias dos técnicos nacionais, todos se revoltam, posando de classe unida.

Carles: Bom, é possível que eu tenha comido algo que afetou a minha percepção da realidade, mas sigo confiando num mínimo de projetos honestos, de convivência ética e comportamento transparente. Aqui estamos nós, na flor da idade e atirando a primeira pedra (espero que não seja um bumerangue). Agora, da massa não dá para esperar muito mais, ela responde a um tipo de comportamento social que não é privilégio do futebol. Tem vontade de se fazer ouvir, mas, peca por não ler mais além das chamadas dos jornais e, há décadas assiste ao mesmo telejornal. Como se diz por aqui “no pidas peras al olmo”.

Edu: O torcedor não vai mudar de comportamento, nem deve, até porque ele representa o lado o mais crítico da história, o contraponto necessário até mesmo para o técnico mexer com algumas convicções que não estão dando certo. Não tenho nenhuma ilusão quanto aos dirigentes em geral, mas não concebo que não exista alguém dentro dos esquemas de poder dos clubes que, mesmo em silêncio, faça suas reflexões e no fim levante a mão para ponderar. Numa tacada só, o Fluminense, o clube mais tradicional do Rio, símbolo do surgimento do futebol no país, fez duas tremendas asneiras. Que ética que nada, é o tipo de coisa que não passa pela cabeça desses fulanos.

Carles: Um tipo de comportamento que faz escola. Infelizmente.

 

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