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O filósofo Pep e o pênalti que Arjen não bateu

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de outubro de 2013 | 20h06

Carles: A figura elétrica de Pep evoca certa obsessão pela disciplina e por rígidos métodos de trabalho, algo que parece contrastar com suas ideias teoricamente progressistas. Ibrahimovic saiu do Barça pela porta traseira e anunciando que Guardiola era um filósofo. Um comentário que eu receberia de muito bom grado mas que no mundo hooliganista do futebol pode ter uma conotação pouco favorecedora.

Edu: Principalmente vindo de quem veio. Em matéria de ego, Ibra não admite alguém em um patamar superior, portanto resolveu batizar Guardiola de filósofo e dizer ‘otras cositas’ sobre o caráter de seu desafeto, até com alguma razão.  Agora, seu treinador preferido está encontrando com seus semelhantes em Munique e resolveu reforçar sua autoridade arremetendo contra Robben.

Carles: Não devem ter faltado preces para que este momento tardasse, mas era previsível que Guardiola e Robben não acabassem saindo juntos, para jantar em família. Imagino que o holandês estava esperando, desde que perdeu um pênalti na final de Champions de 2010 contra o Chelsea, uma situação cômoda como a do jogo contra o Mainz 05, para voltar a bater uma pena máxima. Desde então não tinha batido nenhum pelo Bayern.

Edu: Mas desta vez, algumas figuras carimbadas do ambiente bávaro andaram espumando contra o catalão.

Carles: Já era esperado esse choque de trens de Pep com os ‘direktoren’ muniquenses. Primeiro foi com Sammer, apressado em ver os resultados da metamorfose Guardiola que não chegavam. Agora foi com o ex-capitão do time e eventual comentarista de TV, Stefan Effenberg, muito crítico com o treinador por não ter deixado Robben bater um pênalti com o time ganhando por 3 a 1.

Edu: Com o temperamento crispado que todos conhecemos de longa data, Robben obviamente jogou para a plateia quando teve aquele ‘piti’. Histriônico e exagerado, fez toda a pantomima para jogar a torcida contra o técnico. Nem sei se isso pode funcionar internamente, mas sempre haverá algum torcedor, ou muitos, que lhe dê razão. E na primeira chance que houver algum problema com Guardiola, vão lembrar disso.

Carles: Pelo visto, é chegada a hora de que cada um marque a sua parcela de terreno. Guardiola não deixou por menos: “Eu queria que o Müller batesse, sou o treinador e isso é tudo”. Effenberg não se conformou e recordou que nos seus tempos como jogador e com Ottmar Hitzfeld como treinador, existia uma hierarquia de batedores de pênaltis, determinada pelos próprios jogadores.

Edu: Effenberg também nunca foi uma figura das mais equilibradas para vir agora pregar coerência em nome do ambiente interno do vestiário. Mas é claro que, como comentarista e figura eminente na história do clube, não iria perder a chance de dar uma patada em Pep. Para te falar a verdade, acho que houve um certo exagero de todos os lados para um jogo que já estava decidido. E Pep, visivelmente, quis dar um murro na mesa porque algo deve estar passando com as estrelas do time.

Carles: Nunca pensei que chegaria o dia em que veria um alemão insinuando o autoritarismo de alguém nascido em território espanhol.

Edu: Você até pode estranhar porque o ‘elogio’ vem dos germânicos, mas Guardiola já deu outras mostras de autoritarismo, me desculpe. No Barça, andou fuçando na vida privada de vários jogadores, com aquela empresa de detetives particulares. E nesta semana mesmo abriu para a imprensa alemã sua frase clássica, para justificar alguns de seus métodos: “Sou muito amigo dos jogadores que concordam com o que eu digo”.

Carles: Isso me lembra a frase de Bush Jr. – “quem não estiver comigo é meu inimigo”. Nunca disse que a tolerância fosse uma qualidade que eu admirasse no treinador de Sampedor. Agora tem uma coisa, inclusive você avisou das poucas chances do Pep sobreviver num mar de cartolas alemães. Ele, pelo visto, também estava de acordo com isso, tanto que decidiu ‘coger el toro por los cuernos’. Foi só o time começar a responder um pouco em campo, para ele mostrar quem manda.

Edu: Não só pelo episódio Ibra, não deve ser um doce de manga conviver com Guardiola. E é bem capaz mesmo que já tenha absorvido algo do entorno, porque estar todos os dias com Matthias Sammer e o simpático Uli Hoennes também não deve ser moleza. Sem contar alguns jogadores daquele time cascudo, além do Robben, como o Mandzukic, um ‘9’ tradicional que já perdeu seu lugar cativo no esquema. E virá mais por aí, porque nem mesmo Götze é titular absoluto e a direção, em função do que pagou pelo garoto, uma hora vai cobrar…

Carles: São os teutônicos ou ele, meu amigo, questão de sobrevivência. Em efeito, não deve ser fácil conviver com ele, mas conviver com Hoennes também não está nos meus planos mais imediatos. Se tem uma coisa é que o Guardiola parece ser um sujeito convincente. Quando Gerardo Tata Martino chegou ao Barça e propôs algumas variações e estas deram algum resultado, alguns jogadores pareciam saídos de um transe, um feitiço que determinava que o método Pep era único e insubstituível. O problema é que, a parte dos portugueses, poucos fizeram uma revolução com flores e mais quando o inimigo dispara com bazuca.

Edu: Revolução? No dia que os alemães se derem conta de que é isso que ele propõe, só vai restar a Pep as ‘litronas’ de cerveja quente da Oktoberfest.

Carles: Até então, Pep seguirá dando a eles um pouco do próprio remédio. Um brinde a isso!

 

 

 

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