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O futuro tem cara de velho conhecido

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

22 de abril de 2013 | 19h59

Edu: A “nova-velha” fase Felipão na Seleção Brasileira e a decantada entressafra de jogadores de primeira linha reabriram uma discussão que nunca terá fim por aqui: este é o momento de engavetar temporariamente o jogo bonito e assumir que o que importa são os resultados?

Carles: Advogo pelo não. Viva o jogo bonito e que se danem os resultados. Bom, estou exagerando. Ganhar e, em cima, jogar bem é satisfação em dobro, como defendia na semana passada Xavi Hernández em entrevista concedida a UEFA.com , em que as principais ausentes foram as frases feitas: “Estou convencido de que no futebol o resultado é um impostor, porque pode-se fazer tudo muito, muito bem, e assim mesmo não ganhar. Por isso, existe algo mais importante do que o resultado, algo mais duradouro: o legado”. Por outro lado, no caso do Brasil, o tempo passa, aproximam-se as Copas Confederações e Mundial… as urgências nunca foram boas conselheiras.

Edu: Pois é, é o que os advogados do apocalipse estão pregando neste momento. Lógico: com Felipão por aí, não há hipótese de lucidez a vista, nem outro jeito de jogar bola. Mas o futebol de resultados é algo que conquistou uma grande legião de defensores por estes lados nos últimos 20 anos, uma praga que é abraçada por muitos treinadores. E quem é contra é chamado de poeta…

Carles: Ibrahimović, ao bater de frente com Guardiola e sua forma de pensar, chamou o técnico catalão de filósofo, como forma de criticá-lo na sua busca obsessiva do jogo perfeito, estético e eficaz.

Edu: Pois é, usam poeta como sinônimo de ingênuo, sonhador, naif, sei lá mais o quê…

Carles: Sim, entendi. Acho que a habilidade está na essência desse esporte tão particular, mesmo que às vezes prevaleça o físico. Sinceramente, acho que o Brasil está na contramão. O futebol na Alemanha está empenhado em imitar a Espanha. E eles não estão preocupados em dissimular. A ida de Pep para Munique faz parte do plano. E tem ainda Joachim Löw e Jürgen Klopp, filhos de um novo tempo que busca reciclar-se, refinar um futebol normalmente de resultados. Sinal de humildade e de inteligência. Não é difícil prever que os alemães serão capazes de copiar, aperfeiçoar e adaptar os modelos Barça e “La Roja”.

Edu: Em princípio, é o que todos queremos, ou quase todos.  Mas tem um pedaço importante dessa história que não podemos ignorar, que é o papel protagonista do torcedor. Há o torcedor de clube, que se transforma quando é torcedor da Seleção. No clube, vale tudo por um título inédito, por uma decisão contra o grande rival, por um conquista internacional etc. Esse torcedor é compreensivo com o jogo feio, mas eficiente. Ele quer ser campeão. Claro, se ganhar e jogar bem, tanto melhor. Mas na Seleção, o torcedor não costuma perdoar jogo feio, ainda que eficiente. Seja porque a ligação afetiva é diferente, seja porque fica mais fácil racionalizar: em princípios estão ali os melhores, então, que joguem bem, bonito e ganhem.

Carles: O problema é que a adoção do jogo feio pode muito bem não trazer as vitórias. As probabilidades de isso acontecer são bem maiores do que jogar bonito e perder, pode estar certo. Quanto à mudança de critério, não esqueçamos que o universo do torcedor de seleção é mais abrangente e entra na categoria de leigo. Reconhecer algo bonito não exige conhecimento técnico, é só uma questão de bom gosto. O torcedor habitual, o do clube, aquele que segue o time toda semana e todos os meses do ano, contempla o rendimento a longo e médio prazo. Portanto, é capaz de tolerar um jogo não tão bonito em favor da eficácia e dos resultados. É só uma possível explicação, não uma justificativa.

Edu: Entenda bem, Carlão, você não precisa me convencer disso. Abomino, como você, o jogo feio, não vou ao campo assistir jogos dos times do Felipão, mudo de canal, fico longe desse tipo de futebol. Mas, no caso do meu time, já vibrei muito por vitórias e até longas campanhas com futebol pragmático. Só ressalto que é o ponto de vista do torcedor de fato, o seguidor, ligado ao clube pó rum montão de outras coisas que não apenas o prazer estético. O que está acontecendo agora é um processo de tentativa de convencimento, de forma um tanto sutil, promovida por Felipão, Parreira e seus muitos seguidores, de que é hora de ganhar a Confederações e o Mundial – e basta. E que o torcedor seja capaz de concordar com isso. No fundo, estão com medo de uma sistemática vaia nos próximos jogos, o que se transformaria numa pressão insuportável. Particularmente, acho que o torcedor não engole essa baboseira…

Carles: Se eu não estou enganado, o próximo passo é o do bode expiatório. Certeza que vem por aí um sacrifício aos deuses. Quem tem mais chances? Felipão? Parreira? Marin? Mesmo porque, com semelhante pressão, a Copa Confederações parece a anos luz, não?

Edu: Tudo depende exatamente dessa Copa das Confederações. De repente o time faz alguma coisa boa, vira um grupo de brigadores, raçudos, e conquista o torcedor. Sei lá, pode ser. Tem muita gente que pode preferir mais suor e menos inspiração. Nesse caso, teríamos um cenário bem mais claro de tolerância, um torcedor mais fechado com o time, como aconteceu na Copa de 1994, quando o que interessava era sair da fila de 24 anos. Só que todos sabemos que é pouco provável que aconteça. Sendo assim, só uma ruptura mesmo – a saída do Marin por exemplo – poderia mudar alguma coisa.

Carles: É o principal candidato a ser o boi de piranha, então? Não será uma pena.

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