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O novo Paulistão, com corpinho de Terceira Idade

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de janeiro de 2014 | 20h28

Carles: Fantástico! Começam os meus queridíssimos campeonatos regionais. Ouvi quem achasse que foram racionalizados e também quem preferiu pensar que foram só encurtados. O motivo, sem dúvida, é o ano de Copa. Aqui no 500 aC vivemos pedindo inteligência aos gestores do futebol brasileiros, mas sem que ninguém nos ouça, desta vez sou eu que confesso a minha ignorância. Acredite ou não, tive que cursar uma pós-graduação strictu sensu em confecção de tabelas para entender só um pouquinho a do Campeonato Paulista. Deve ser porque sou um “simplão”.

Edu: Talvez a ideia seja essa mesmo, uma velha fórmula nova. Mas o que foi exatamente o que você não entendeu? A forma de disputa? O fato de os times de um grupo só poderem enfrentar adversários de outros grupos? Posso garantir a você que não tem a menor importância entender ou deixar de entender. Porque como sempre o que vale são as semifinais e finais. O resto é treinamento de luxo. Mesmo assim, mais uma vez a gente percebe como o torcedor é um abnegado, ele que certamente vai voltar aos estádios por uma razão simples: saudade do futebol. Acho que todos somos uns “simplões”.

Carles: Continuo achando sacanagem essa desconsideração com a primeira fase. Ninguém me convence da pouca importância dos pequenos. O problema é que o número de seguidores dos times do interior deixou de ser proporcional à sua grandeza, já faz tempo. As cotas que sempre foram menores, agora ficaram ridículas. Como muita gente prefere seguir os grandes, aí dá traço mesmo na audiência e isso multiplica o desinteresse. Parece que ganha força a fórmula do clubes-empresa com nome de marca, ganham cada vez mais força e num futuro próximo, serão os grandes de agora que acabarão passando o pires. Quanto ao Paulistão, não é que seja uma novidade que os times se enfrentem aos dos outros grupos, mas um pouco estranho que os cruzamentos não sejam, por exemplo, entre as equipes do A e do B; e do C com o D. Aliás, sempre achei que, no campo, o futebol brasileiro não deixa nada a dever a qualquer outra liga, o problema chega na hora de seguir os torneios, de tentar fazer previsões ou calcular as possibilidades dos times. Se o torcedor não consegue, acaba simplesmente repetindo o que ouve na TV.

Edu: Podemos dizer que existem dois campeonatos paulistas, um para os grandes e outro para os pequenos. Essa é a sacanagem de quem manda, inclusive os times grandes: a insistência em tentar aumentar o abismo entre um lado e outro. Mas, como já te disse algumas vezes aqui, o torcedor é refratário a muitas dessas sacanagens, principalmente o do Interior que já é gato escaldado. Todos os anos surge alguma novidade boa, no ano passado foi o XV de Piracicaba, no ano anterior foi o Bragantino e mais alguém. O celeiro continua funcionando, esse é o lado bom. E quanto mais inflacionado fica o mundo dos grandes, mais eles precisam dos pequenos – não, não é sonho, é a pura verdade. Veja a dificuldade que os times tiveram para se reforçar neste momento. A saída foi buscar reforços nos pequenos. E sempre surge gente boa nesse interiorzão. Claro, é uma maneira de deixar menos dura a realidade que você pintou, porque volta atrás não tem mesmo. É o jeito de ir levando.

Carles: Concordo que o melhor negócio ainda continua sendo contratar revelações dos times pequenos. Mais um motivo para valorizar os torneios regionais já desde o primeiro jogo, por ser essa fantástica vitrine de novos talentos. Os bons e baratos. Claro que o chamariz continuam sendo os repatriados, que não deixa de ser uma eficaz estratégia promocional, como as manchetes sobre a chegada do uruguaio Álvaro Pereira ao São Paulo ou, pelo que li, a possibilidade de que o velho e bom Rivaldo estivesse em algum desses campeonatos regionais.

Edu: Acho que não teremos Rivaldo desta vez, não porque ele não queira, mas por falta de interessados. Essa contratação do São Paulo, de última hora, é um consolo para a torcida porque aquilo estava um marasmo. Tal qual o Corinthians, que trouxe uma lateral da Ponte Preta, Uendel, e negocia com outros nomes sem expressão. Por enquanto, o que Mano Menezes fez foi promover a titular o meia Rodriguinho, que veio do América Mineiro ainda na época do Tite. Só mesmo Palmeiras e Santos se reforçaram, mas nestes tempos de pré-temporada curtíssima, ter um time com muitos reforços pode ser um problemão, porque o entrosamento só virá lá pela metade do campeonato. No Rio, o Botafogo está querendo compensar a perda de Seedorf trazendo Forlan, mas a grana pedida pelo uruguaio foi proibitiva. No Sul, onde o regional também começa amanhã, igualmente não há grandes contratações. Ou seja, é tempo de cada um se virar com o que tem, o que pode ser bom negócio se colocarem a imaginação para funcionar.

Carles: Falando em Sul, o novo treinador do Valencia, Pizzi pediu a contratação do chileno Eduardo Vargas atualmente no Napoli e ex-jogador do Grêmio, que também pretendido pelo Santos, não?

Edu: O aumento da concorrência por Vargas complicou a história tanto para o Santos quanto para o Grêmio, onde ele não ficaria mesmo, e há por aqui uma  sensação de que o chileno não fica no Brasil. O Santos, aliás, ainda nem conseguiu pagar a primeira parcela de Leandro Damião para o Inter, ou seja, não é boa hora para falar em reforços na Vila.

Carles: E a grana do Neymar? Não sobrou nada no clube?

Edu: Imagino que continue pingando alguma coisa desse negócio meio nebuloso, tanto que o clube fez a maior contratação da temporada, essa do Damião. Mas pelo jeito as dívidas eram polpudas também. Aliás, os campeonatos regionais começam sob o espectro ameaçador das dívidas – essa é a palavra-chave para o momento dos clubes no futebol brasileiro. O Bom Senso que o diga.

Carles: Para finalizar, diga-me lá, qual o jogo desta primeira rodada que você me recomenda.

Edu: Pela história, pelos bons momentos e também pelo coração – Portuguesa e Corinthians, domingo, no simpático Canindé.

Carles: Não perco.

 

 

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