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O olheiro da Seleção na Basileia

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de agosto de 2013 | 06h12

Edu: Prevejo alguns obstáculos nada confortáveis para a Seleção Brasileira na Basileia. A ‘Roja’ sabe bem disso…

Carles: Um amistoso entre os únicos adversários que ganharam da ‘Roja’ em partidas oficiais, desde o início da fase vencedora. Suíça 1 a 0 naquela estreia do Mundial de 2010 e, depois disso, a derrota para o Brasil na final da Copa das Confederações.

Edu: É um time bastante encardido e, hoje, lidera com folga seu grupo nas Eliminatórias.

Carles: Não só é líder do seu grupo e está prestes a garantir a ida para a Copa, como tem a melhor defesa entre todos os participantes.

Edu: Não chega a ser uma novidade o fato de não tomar gols. Mas, convenhamos, joga numa chave que tem Albânia, Islândia, Noruega, Eslovênia e Chipre. A gloriosa Ponte Preta faria um estrago nesse grupo.

Carles: É verdade, digamos que é o grupo baba.

Edu: Mesmo assim, a Suíça de hoje merece mais respeito. Deixou de ser aquele saco de pancadas no contexto europeu e conseguiu formar um time encorpado, com vários jogadores espalhados pelos principais campeonatos do continente.

Carles: Como o Equador por aí…

Edu: Algo assim e detém a marca mais curiosa de um time em uma Copa do Mundo: em 2006, saiu invicta do Mundial e sem tomar nenhum gol, caiu nas oitavas-de-final contra a Ucrânia na decisão por pênaltis, depois de ser a primeira de seu grupo na fase inicial, que tinha a França como principal adversário.

Carles: A França é especialista nesse tipo de surpresinhas. Depois desse título moral, surgiu a atual Suíça, com a marca germanizada ao velho estilo de Ottmar Hitzfeld. Aliás, Ottmar pode ser considerado o remanescente da outra fase vencedora alemã. Ele tem muito experiência tanto no futebol alemão como no helvético. Durante toda a sua vida profissional, como jogador e como treinador, esteve entre um e outro país, com um saldo considerável de vitórias e títulos. Esse conhecimento e a empatia devem ter sido importantes para a evolução do atual combinado suíço.

Edu: E, neste momento, o alemão pode contar com nomes importantes, alguns dos quais vieram daquela seleção sub-17 que foi a surpreendente campeã do mundo em 2009.

Carles: Uma geração liderada pela jovem estrela Xherdan Shaqiri, o Messi de Kosovo como é chamado, pelo futebol rápido e nervoso e pela sua origem albanesa da região kosovar. Outra coincidência: agora ele está sob as ordens de Pep Guardiola, no Bayern. Aliás, a Bundesliga é maioria nesse time, um total de oito entre os convocados.

Edu:  Há também vários ‘italianos’. E um ou outro vocês veem de perto na Liga Espanhola também?

Carles: Vemos sim. Além do veterano zagueiro Philippe Senderos, que nunca jogou por aqui mas sua família tem origem espanhola, temos o recém chegado à Real Sociedad,  Seferović, este de ascendência bósnia, que já andou marcando seus golzinhos durante a pré-temporada.

Edu: Apesar de o ciclo de Senderos estar terminando na seleção, parece que Hitzfeld teve o cuidado de manter jogadores mais experientes no meio de campo, para dar sustentação à garotada.

Carles: A dupla Gelson Fernandes, nascido em Cabo Verde, e Gökhan Inler, descendente de turcos, forma a zona de trabalho do meio suíço. Um pouco mais veterano, o tandem já vinha formado da fase de Köbi Kuhn, antecessor de Hitzfeld.

Edu: É da articulação no meio de campo, um setor que os suíços gostam de ver congestionado, que participam alguns exilados no ‘calcio’, além de Inler?

Carles: Atualmente no Napoli, Inler tem futuro incerto no clube com a chegada de Benitez. Valon Behrami e Blerim Dzemaili, ambos de origem albanesa e também meio campistas do Napoli, dão pistas das intenções de Hitzfeld nessa zona.

Edu: E ainda há o energético Stephan Lichtsteiner, da Juve, uma locomotiva pelo lado direito, carinhosamente apelidado de ‘Forrest Gump’, provavelmente o marcador de Neymar nesse jogo. Dá a impressão de que a Suíça assumiu de uma vez que precisa ser fiel a seu jogo de marcação e disciplina tática – talvez a única tradição verdadeiramente helvética no mundo do futebol. Mas, ainda assim, é preciso reconhecer que a cada vez mais acentuada circulação de jogadores pelas principais ligas europeias foi a principal razão do salto de qualidade do time nos últimos anos.

Carles: A multinacionalização sempre foi o sustentáculo do futebol suíço, só que a tendência não só se acentuou como se diversificou ainda mais. É, sem dúvida, um dos fatores essenciais para a evolução do time.

Edu: Com tudo isso em jogo, é bom o Brasil abrir o olho. Tem a maioria dos jogadores em clima de pré-temporada, Neymar um tanto debilitado e os zagueiros – Thiago Silva e David Luís – visivelmente fora de forma. Se  Felipão entrar muito animadinho, ainda no clima da conquista da Confecup, está arriscado a voltar com o rabo entre as pernas. Mesmo assim, acho que, desta vez, o amistoso é interessante como laboratório, por permitir o confronto com um estilo de jogo contra o qual o Brasil raramente se dá bem.

Carles: Um tipo de adversário que faz a torcida se irritar com o jogo, mas que normalmente a Seleção Brasileira acaba ganhando com dois golzinhos.  Avise para os seus amigos criativos irem preparando o clichê: “Brasil vence mas não convence.” Sim, já sei que é tudo digital, mas você me entendeu, né?

Edu: Mejor me callo.

 

 

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