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O ‘pega-pênaltis’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de julho de 2013 | 06h36

Carles: Empate nos 90 minutos, prorrogação sem vencedor e então é quando o narrador, seja qual for a sua nacionalidade ou o veículo de mídia, solta aquela frase que dói lá no fundo da alma…

Edu: “… Vamos para a loteria dos pênaltis!!!”

Carles: É mais fácil prever que o cara vai dizer isso do que o goleiro “adivinhar” o canto onde irá a bola.

Edu: O sujeito só pode dizer isso no automático, sem pensar. Não é possível tanta criatividade…

Carles: Pois é, inclusive porque existe uma série de estudos que garantem que de loteria, nada. É tudo técnica, aptidão, preparação psicológica, tudo melhorável, tanto para o batedor como para o goleiro. E não por acaso existem verdadeiros especialistas de um e de outro lado.

Edu: Na influência da pressão sobre o batedor, na postura autoconfiante do goleiro, no esgotamento físico que prejudica o chute, nisso tudo eu acredito. E, claro, nos estudos, principalmente. Acho que se o cara analisa de verdade melhora tudo nessas horas, inclusive a autoconfiança e capacidade de absorver a pressão.

Carles: Goleiro pressionado psicologicamente tem menos chance de defender. Um desses estudos diz que durante as Copas do Mundo são convertidas 70% das penalidades e que os goleiros sob a pressão de um empate ou de uma derrota parcial na disputa de pênaltis, acaba defendendo só em 8% das ocasiões. Claro que um especialista não só se destaca na hora de menor pressão, com o seu time na frente, mas principalmente, nas piores situações. Autocontrole eu diria.

Edu: Não fosse autocontrole e autoconfiança, dificilmente o Atlético Mineiro estaria comemorando a Libertadores. Victor se transformou em um monstro para cobradores depois de ter pegado um pênalti no último minuto do jogo contra o Tijuana, ainda nas quartas de final. E encarou o resto como senhor da pequena área. E, não fosse as decisões por pênaltis, Sergio Goycochea, o argentino da Copa de 90, não teria sido rigorosamente nada no futebol, sequer apresentador de televisão depois, talvez. Era um goleiro medíocre, mas pegava pênaltis e ganhava jogos.

Carles: Goyco é um bom exemplo. Existem algumas aptidões como capacidade de reação, elasticidade e paciência que obviamente influenciam. Em algum caso a inconsciência pode ser uma vantagem. Um grande goleiro que pense demasiado nas consequências de um eventual fracasso pode ser mais afetado pela pressão do momento e portanto ser mais condicionado a confirmar os dados estatísticos. O tal estudo, realizado pela Universidade de Amsterdã, garante que quando o goleiro deixa-se levar pelo instinto, sem racionalizar, tende a atirar-se para o seu lado direito, seja destro ou canhoto. Do contrário, dizem as mesmas estatísticas, a coisa funciona na base do 50-50, metade das vezes os guarda-metas se atiram à direita e a outra metade para a esquerda. É só uma média que marca uma tendência, não vá me culpar se você perder um pênalti decisivo na próxima pelada com os amigos.

Edu: Tranquilo, nesse caso bato com cavadinha, ‘a lo Panenka’ como vocês dizem, se bem que Djalminha fez muito disso por aqui sem ter ideia de quem foi Panenka… Bodo Illgner, o alemão que andou pelo Real Madrid e que chamou mais a atenção pelas brigas da mulher Bianca com a imprensa espanhola, dizia ter uma técnica que o ajudou a derrubar a Inglaterra na decisão por pênaltis da semifinal da mesma Copa de 1990, na Itália. Ele considerava, de tanto estudar, que o cobrador ‘relaxava’ um pouco na terceira ou quarta cobrança, principalmente na quarta cobrança quando não era a decisiva. Era quando ele entrava em cena, pegou muitos pênaltis assim. Pelo jeito deu certo e não deixa de ter algo de científico. Até o momento em que ele contou para todo mundo. Aí acabou a graça.

Carles: Lembro bem que Bianca não suportava as relações sociais impostas pelo Madrid aos seus jogadores e parceiras e isso precipitou a saída do marido do clube para voltar para casa. Hoje, como metade dos alemães aposentados, eles moram em Alicante. Um célebre patrício de Bodo, Oliver Khan, costumava dizer que numa disputa de pênaltis só os batedores têm alguma coisa que perder, ao contrário dos goleiros. Coisa que as estatísticas confirmam só quando o resultado favorece o time do goleiro. Do contrário, as estatísticas indicam que o goleiro deixa de utilizar seus métodos científicos, tal e como o bom do Bodo, e se atira sem considerar outros fatores, 71% à direita e 29% à esquerda. Como os batedores seguem chutando de forma aleatória para um e para outro lado, então, a quantidade de pênaltis defendidos cai assustadoramente. E assim foi no pênalti que levou a Espanha à final da Eurocopa de 2008, com Fàbregas diante de Buffon. Goleiro para a direita, bola na esquerda.

Edu: Ou seja, no fundo você está dizendo que estudar não garante nada. O que vale é o instinto, o feeling do momento? Como, aliás, fazia Dida (ainda faz), que até Champions ganhou pelo Milan com essa sua habilidade. Se bem que um cara de 1m97 na hora do pênalti intimida até o batedor oficial dos Transformers.

Carles: Acho que você não lembra do glorioso Jairo, 1m94. Era só bater embaixo. Os estudos servem sim, para estabelecer pautas de treinamento, justificar conselhos. Mas, na hora, é o goleiro que tem que decidir e em alguns segundos. Goleiro treinado tem muito mais possibilidades é óbvio, não só porque tudo é aperfeiçoável, mas porque um arqueiro que conhece suas possibilidades ganha em confiança e tem mais chances de entrar para o clube dos reconhecidos como “pega-pênaltis”. Como Diego Alves que tem um índice de penaltis defendidos maior que o de convertidos, na Liga Espanhola.

Edu: Então, concluímos que um bom ‘pega-pênaltis’ deve estudar, deve se especializar sempre, deve conhecer os cobradores adversários e precisa ter também os componentes sensoriais todos – a antevisão do Illgner, a sorte do Goyco e o feeling do Dida, a personalidade do Victor. Isso sim é um goleiraço.

Carles: Não deixa de ser uma ideia, formar goleiros especialistas em disputa de pênaltis e no último minuto da prorrogação, substituir o goleiro titular. Até parece coisa de futebol americano em que o sujeito entra só para chutar o “field goal”. Nada disso, prefiro o cara versátil, com médias razoáveis em quase tudo. Sempre melhor do que um especialista.

 

 

 

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