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O primeiro em tudo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de julho de 2013 | 03h19

Carles: Ontem, ao constatar o feriado no calendário paulista, não pude deixar de me lembrar da história que ouvi tantas vezes do corintianíssimo ‘seo’ Antonio Carvalho, orgulhoso de ter defendido as forças paulistas em 1932 e de ter conhecido então um famoso mulato de olhos verdes, apelidado Fried, que entrou para a história como a primeira das grandes estrelas do futebol brasileiro, reconhecido no Brasil e na Europa. Lembra dessa história?

Edu: Essa história passeou algumas dezenas de vezes pela minha vida… Friedenreich foi mesmo o primeiro grande craque do futebol brasileiro e, já veterano, pendurou temporariamente as chuteiras para mobilizar a classe esportiva e combater a ditadura do poder central naquele movimento constitucionalista de 1932. Consta que Fried comandou um grupo formado por 800 atletas de vários esportes, com o apoio de clubes (Corinthians, Sírio, Ypiranga), que colocaram suas dependências à disposição da tropa, para apoio logístico. Então, rumou para o Interior, para o front da divisa de Minas Gerais, com seu batalhão. Foi como sargento e voltou com a patente de segundo tenente. Mas nunca ficaram muito claras suas convicções políticas, porque, nessas ocasiões difusas, alinham-se sob algumas ideias gerais várias correntes – progressistas, conservadores, direita e esquerda, aproveitadores em geral. Aliás, como está de alguma forma ocorrendo agora mesmo no Brasil.

Carles: Coisas de um histórico oportunismo político. Uma das tantas proezas de Friedenreich teria sido a de superar Pelé no total de número de gols marcados, claro consideranda a precariedade estatística da época. Pelo jeito, o menino Arthur teve que romper umas quantas barreiras sociais, num esporte ainda bastante elitista e preconceituoso, algo que provavelmente fortaleceu a sua personalidade. Ele nasceu quatro anos depois da assinatura de Lei da Abolição dos escravos no Brasil, se bem que o processo de liberação tenha sido gradativo. Era filho de uma lavadeira (como Johan Cruyff!!!) negra e de um emigrante alemão. Uma estrela do futebol que decidiu combater voluntariamente. Uma enorme diferença com a atualidade.

Edu: De alguma forma ele foi o primeiro paradigma de ascensão social no futebol em uma época na qual a transição para o profissionalismo ainda era um terreno minado, ainda mais para um mulato. E seu comportamento no momento político crucial também virou referência. Vendeu muitos de seus troféus para fazer doações à campanha constitucionalista e assumiu pessoalmente a responsabilidade de mobilizar sua classe. Não vejo a menor linha de comparação com o comportamento dos grandes jogadores de hoje, se bem que os cenários são infinitamente diferentes. Vocês tiveram e têm na Catalunha alguns poucos exemplares de jogadores com alguma consciência, mas fica difícil saber se eles têm noção da importância que pode ter uma tomada de posição semelhante àquela de ‘El Tigre’.

Carles:  O paralelo daquele São Paulo com a Catalunha realmente não chega a ser um total disparate. Existem alguns registros históricos de que em 1925, participando de uma turnê pela Europa com o seu clube, o Paulistano, já teria sido chamado de “O rei do futebol” ou “O rei dos reis”. Está certo que isso é como a hsitória do jogo do século ou a luta do século, todo ano tem um. Mas sem dúvida aquele foi o primeiro brasileiro com a bola no pé que fascinou os europeus. E segundo consta, já que não existem registros em vídeo muito esclarecedores, era ambidestro, tinha classe no manejo da bola e potência no chute.

Edu: Em todos os levantamentos, a história de que fez mais de mil gols, ou seja, de que teria marcado o milésimo gol antes de Pelé, nunca foi fundamentada por documentos. O que é efetivamente real é sua média de quase um gol por jogo em eventos oficiais, definitivamente superior à de Pelé. Foi um gênio do seu tempo e referência de comportamento também. Mas é preciso ressaltar que não teve as mesmas dificuldades que outros jogadores negros ou mulatos, por causa de sua origem. Afinal das contas, falava alemão, jogava no Germânia, tinha suas benesses sociais.

Carles: Defendeu também o Mackenzie College, onde pode ter estudado. Sem dúvida, além da discriminação mais subjetiva pela cor da pele, não deve ter enfrentado a segregação social que, como comentamos ontem, é a mais manifesta no Brasil. Mesmo assim, é digno de registro que ele aproveitou essa chance da melhor forma possível, mostrando-se ativo social e esportivamente, esticando a carreira, claro, com uma menor exigência fisica que hoje, até os 43 anos. Consta que também era muito vaidoso.

Edu: E jogava com uma touca para disfarçar o cabelo crespo. Mais tarde, passou a utilizar a velha e boa brilhantina para segurar as melenas, o gel de hoje em dia. Se bem que, nesse tempo, brilhantina nos jogadores de futebol era de fato questão de vaidade – algo que seu amigo Cristiano Ronaldo vem perpetuando. Depois da Revolução, o que se contava – e a fonte também era o velho ‘seo’ Antonio -, era que a imagem dos jogadores de futebol melhorou demais em função da ação do ‘Batalhão dos Esportistas’. Antes tratados com desdém por parte da sociedade, eles adquiriram um novo status, um diploma de cidadania.

Carles: Provavelmente, Fried não só pode ser considerado o pioneiro de um futebol brasileiro vitorioso mas também a sua síntese, o mais digno e original representante desse exitoso coquetel entre o continente inventor do futebol e o país que refundou o esporte. Provavelmente, foi uma perfeita mistura dos dois estilos.


Documentario alemão sobre Friedenreich


Imagens da partida Paulistano 7 x 2 França, com três gols de Friedenreich, durante a turnê européia de 1952

 

 

 

 

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