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O United se agarra a seus mitos para seguir vivo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

19 de março de 2014 | 20h44

Edu: De Gea salvando a pele de Moyes e o United dando chutões durante a última meia hora, entrincheirado em seu campo. Tudo para manter a hierarquia, porque esse Manchester não engana ninguém.

Carles: Se não tivesse uns poucos jogadores de primeira linha que fazendo muito menos que o resto acabam sendo decisivos, diria que não foi merecido. Que diabos, não foi merecido, o Olympiacos não tem esse tipo de jogador mas deveria estar no sorteio de sexta. Pelo menos nesses dois jogos, Michel demonstrou ser melhor técnico que Moyes.

Edu: Não teve pudor em atacar o tempo todo, ignorando a pressão de Old Trafford. Qualquer outro técnico de primeira linha teria sido cauteloso. Michel arriscou e pagou por isso porque alguns de seus jogadores visivelmente tremeram. Mas mesmo quando estava 0 a 0 não se privou de buscar o jogo. O que fica para a história são os gols de Van Persie e a dedicação de vovô Giggs, mesmo sem ser brilhante, mas sem Rooney como nos bons tempos e principalmente De Gea o United não passaria por esta prova. Serve, ao menos, para colocar oito gigantes no sorteio das quartas de final. Se bem que eu, se sou Guardiola, Tata ou Ancelotti, faria uma reza brava para enfrentar Moyes no próximo mata-mata.

Carles: Arriscaria dizer que Moyes se decidiu Giggs para tentar um efeito Cid el Campeador, não sei se você se lembra desse personagem tão ao feitio dos cristãos ibéricos?

Edu: El Cid, o guerreiro das batalhas entre de mouros e cristãos? Claro que me lembro. Até figurinhas de El Cid saíram por aqui há mais ou menos meio século, além do filme com Charlton Heston de protagonista.

Carles: Pois é, carniceiro mistificado, mais lenda do que realidade, conta-se que, temido pelos mouros, na última batalha e com ele já morto, foi colocado pelos cristãos em cima do cavalo para liderar as tropas e intimidar o inimigo. Que o galês ainda bem vivinho me perdoe, mas o treinador do United com a escalação da velha glória tentou se somar às enormes faixas nas arquibancadas que chamavam o time a realizar o sonho. O sonho de desclassificar o mítico Olympiakos? É essa toda a ambição? A maior evidência de que a velha altivez dos Red Devils da que falávamos ontem parece ter saído de férias, foi a entrada de Fellaini com a clara intenção de tentar segurar a bola perto do escanteio durante grande parte dos 5 minutos de desconto. E em pleno teatro dos sonhos.

Edu: Isso sim é se sustentar em mitos. Tenho a impressão de que, exceto o Chelsea, pela circunstância que pode cercar um clássico local, todos os outros gostariam de ser premiados com o United para garantir uma semifinal de Champions. Bom, talvez o Dortmund também seja um prêmio, porque sem os lesionados İlkay Gündoğan e Marco Reus tem se mostrado um time quase inofensivo, a ponto de tomar sufoco do desfibrado Zenit. E com Klopp em visível inferno astral, somando expulsões, multas, ataques histéricos em série. No primeiro jogo das quartas, o time não terá também os gols de Lewandowski, que tomou o segundo amarelo contra os russos nessa partida que pouca importância tinha.

Carles: Um Borussia impotente diante do desmanche provocado justamente pelo time de amarelo quase perfeito que desfilou na Europa da temporada passada. Era previsível a dificuldade de repor as peças de um esquadrão cheio de talento e vigor, com o único defeito de ser dirigido mais pelo departamento de vendas do que pela secretaria técnica. O forte de Klopp não é o autocontrole, é verdade, mas eu também perderia as estribeiras se visse meu trabalho sendo permanentemente leiloado. Complicado para as quartas sem Subotić, Gündoğan, Reus e agora Lewandowski, praticamente a coluna vertebral da equipe.

Edu: Bom, não foi ele mesmo o maior defensor do projeto? Então, agora, que aguente o tranco. A verdade é que o Dortmund era um time sem banco de reservas, já sabíamos todos, Klopp principalmente, e que não soube agilizar a reposição depois dos milhões que entraram com a venda de Götze. Diante da grandiosidade do rival alemão que ganha tudo nos últimos tempos, voltou a se apequenar depois de ser tratado como xodó naquela fase decisiva da Champions passada. Não tem a menor chance, eu diria. A menos que enfrente justamente o United.

Carles: Um fim de semana intenso e decisivo para Atlético, Real Madrid e Barcelona. Na sexta em Nyon as bolinhas de Bayern, Dortmund, Chelsea, United e PSG decidem os adversários na Liga Européia. E domingo no Bernabéu, pode-se decidir o destino dos três na Liga Espanhola.

Edu: Cada um que desenterre seu próprio El Cid.

 

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