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Os dribles de Neymar e a Lei de Cruyff

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de setembro de 2013 | 10h25

Carles: Não sei se o Tata Martino, com seu jeito argentino de ser, conseguiu convencer da transparência e eficiência dos seus métodos de gestão. A mim, sim. A impressão que eu tenho é de que ele sim foi capaz de ler tudo o que acontece à sua volta e, pouco a pouco, vai transformando o vulcão que era o seu posto de trabalho numa tranquila pradaria. Também não sei se isso vai ser suficiente para o Barça alcançar os resultados esperados mas, pelo visto,  são as condições necessárias para impor as suas decisões, sem melindrar ninguém. Inclusive ontem conseguiu dividir o tempo em partes iguais e deu metade a Neymar e metade a Messi. Para ninguém reclamar.

Edu: Ao dizer que o estilo de Neymar ‘convida’ os zagueiros a dar pancadas ele não estava falando só dos portugueses no jogo de Boston, acho que já previa algo contra o Sevilla e para o resto da temporada. Não foi muito bem compreendido na sua manifestação, me parece. Mas o certo é que Neymar destroçou aquele lado da defesa andaluza, infernizou o lateral e todas as coberturas que iam chegando, carregou os caras de cartões amarelos e em boa parte do jogo deixou Messi em segundo plano.

Carles: O primeiro tempo foi absolutamente de Neymar, quiçá não suficientemente vigiado pela proposta de marcação de Unai Emery ou até favorecido pela amplitude do gramado do Camp Nou. O fato é que fez de tudo e foi várias vezes reconhecido pelos aplausos da torcida ‘culé’. Aí, aconteceu o que no papel se prevê quando se tem dois caras geniais lá na frente, o adversário reforça a marcação num deles e surge o outro, com maior liberdade para ser decisivo. É aquela história de cobrir a cabeça e descobrir os pés. Só faltou um golzinho para o Neymar, que fez uma partida sensacional. Como o conseguido por Alves que, fora o tento, teve uma noite para esquecer. Quanto ao comentário do Tata, logicamente que foi mal interpretado, ou por má vontade ou, mesmo, porque nunca mais o castelhano e o argentino foram o mesmo idioma. O termo “invitar” de Martino não equivale a incitar ou induzir, mas a que a pancada é o único recurso de um zagueiro exposto à habilidade e rapidez de um jogador como Neymar. Só que alguns jornalistas entenderam o que convinha ao sensacionalismo das suas manchetes, imagino.

Edu: Não sei se o comentário foi espontâneo ou servia como um aviso ao Neymar. Espero mesmo que seja só uma forma de definir o sujeito que dribla muito e, por isso, de certa foram desperta a ira dos marcadores que não têm recursos e saem humilhados de cada lance. O certo é que Neymar sabe o que espera por ele porque sempre levou pancada, sempre teve esse drible natural. Tanto que nem precisaria simular faltas, na verdade, elas vêm como consequência. E os zagueiros se escoram na fama de cai-cai para bater mais e ainda reclamar do juiz. Ontem, ao menos dois caras que já estavam amarelados deveriam ser expulsos, mas pressionaram o árbitro e se safaram. Fosse o Messi, certamente levariam o segundo amarelo, principalmente aquele M’Bia, que bateu uma barbaridade no garoto.

Carles: M’Bia entrou em campo nervosíssimo, consciente do que esperava por ele. Para variar, a arbitragem de Muñiz Fernández foi um desastre, caseiro, podemos dizer que influiu no resultado final, anulando um gol legítimo do Sevilha, mas como é habitual nele, deixando descontentes a gregos e troianos. Tanto tempo na elite do futebol só pode ser pela simpatia dos chefes. As palavras do Tata também podem ter tido a intenção de proteger Neymar, de chamar a atenção para a questão. Não acho que ele deva mudar o estilo de jogo, mas, se dosificar o “um contra um”, não só vai proteger a sua integridade física, como também garante o fator surpresa. Até aqui ele mostrou muita inteligência e tem soltado muitas bolas de primeira, ao primeiro toque.

Edu: Mesmo assim, tenho um crônico receio dessa implicância que o europeu tem com o drible, por mais que vocês venham com essa história de se proteger. Ontem deu certo, ele jogou bem, aí todo mundo aplaude. Mas certamente na primeira partida ruim que Neymar fizer já virão com a lenga-lenga do excesso de drible. Vira e mexe estão lembrando por aí daquela famosa ‘Lei de Cruyff’, algo como “jogou com um toque é gênio, com dois é bom, com três é burro”. É de dar calafrios. Por esses caras, o drible não existiria.

Carles: Existe como recurso, repito, como surpresa, como alternativa, se não vira espetáculo de malabarismo e não competição na qual ganha quem coloca mais vezes a bola no fundo do gol. Abusar dos três toques é burrice, sim. Fazer uma jogada genial dando até 20 toques na bola respeitando o jogo coletivo durante 80% do tempo é entender a essência e tirar o maior partido possível do jogo de equipe. Genial ter um time tremendamente articulado para a troca de passes e poder contar com dois dribladores como Messi e Neymar para abrir um jogo “atascado”. E ainda tem o híbrido entre o “aburrido” jogo europeu e a “genialidade” sul-americana, o Iniesta, que ontem, quando Neymar lhe emprestou por uns minutos a ala esquerda, jogou bem até tomar uma bordoada e sair contundido.

Edu: Essa cultura de almanaque pregada pelo iconoclasta Cruyff está falando de quem? Do craque ou do tosco? Por favor… É óbvio que o tosco não pode dar mais do que dois toques na bola, nem quer pagar esse mico porque simplesmente não sabe driblar, aliás, nasceu para evitar ser driblado. Mas obrigar Neymar ou similares a jogar sempre no toque, aí sim é burrice. E os diferentes sabem quando dosar, como Neymar fez em alguns momentos ontem e fará sempre. Entendo, é cultural, só que o outro lado tem que entender também. Não gosto de axé music, mas temos uma convivência até que civilizada.

Carles: Permita-me usar suas próprias palavras: é preciso entender a outra parte e não necessariamente como uma limitação. Os alegres sul-americamos driblam frivolamente porque nasceram para dar alegria ao povo e os tristes e toscos europeus pregam a racionalidade porque não são capazes de repetir a mesma habilidade?  Faça-me o favor, Zé, sei que você não pensa assim de plano. Quem é que não está fazendo um esforço para entender o outro lado agora? Quem é que se recusa à empatia de tenta resumir uma amplidão de características, concepções e razões culturais dentro de um simplório estereótipo? Isso sem falar que mesmo dentro da Europa existe uma diversidade cultural. Impossível de reunir num único ponto de vista.

Edu: Há décadas os jogadores brasileiros têm se esmerado nesse esforço, Carlão, basta dar uma folheada na história. Vemos jogadores mudarem totalmente suas características quando passam mais de dois anos na Europa, seja um mediano, seja um craque, jogue na Itália, na Ucrânia ou no Camp Nou. Mas aí, quando a Seleção muda o estilo e começa a dar pancada e menosprezar o drible, todo mundo, inclusive você, diz que o Brasil está perdendo a essência. Se é uma questão de essência, então que cada um fique com a sua. Eu prefiro o ‘desperdício’ do Neymar do que a ‘objetividade’ do Dunga e a sabedoria do Cruyff, que como jogador era um poeta…

Carles: A objetividade de Dunga é um equívoco frequente entre aqueles que preferem desenhar um quadro cheio de matizes culturais à base de umas poucas e grosseiras pinceladas. Essa não é a proposta dos seguidores de Cruyff, todos apreciadores do bom tratamento à bola, da fluída troca de passes entre um grupo associado e o mais que desejável recurso de aplicar uma finta decisiva e necessária. Desculpe mas, pelo que vejo, na tentativa de se defender posturas teoricamente preconceituosas, muitas vezes, acaba se respondendo com uma carga de multiplicado preconceito.

Edu: Então, já que você levou para esse lado, me faz uma concessão logo que acabarmos a conversa: leia de novo e veja onde há sintomas de preconceito.

Carles: Como vejo que com argumentos não vou convencer ninguém de nada, faça-me um favor, depois desta conversa, reveja o lance daquele drible genial de Neymar no Camp Nou no minuto 30’36”. Mas reveja com o som ambiente e preste atenção na reação de todo o estádio e diga-me se desagradou a alguém.

 

 

 

 

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