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Os ‘hermanos’ têm um certo Leo Messi. Precisa mais?

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de maio de 2014 | 18h53

Edu: O brasileiro parece ter se acostumado de tal forma com a decantada rivalidade com os hermanos que hoje se tornou um enfrentamento natural, quase só baseado nas gozações mútuas. Há tempos não se vê, exceto em jogos da Libertadores, alguma tensão especial nas partidas entre brasileiros e argentinos, até porque quase todos os jogadores convivem pacificamente por seus clubes europeus. Mas teremos uma Copa do Mundo e aí a coisa pega. Aqui como aí, não há quem não inclua Leo Messi e companhia entre os quatro favoritos, certo?

Carles: E para alguns, o principal favorito. Exagero? Talvez, mas por várias razões a Argentina pode ter todo esse favoritismo justificado porque é um time com alguns jogadores brilhantes do meio para a frente, uma geração que ganhou quase tudo nas categorias de base, joga pertinho de casa e enfrenta um grupo relativamente fácil, talvez o mais fácil de todos e, portanto, pode chegar mais descansada às fases decisivas. Mas todos sabemos que isso tudo é um monte de teoria que, na prática, poucas vezes se confirma. Principalmente em Copa do Mundo.

Edu: Grupos fáceis em Copa do Mundo podem ser armadilhas. E esse time argentino, que possui o quarteto mais reluzente do Mundial – Di Maria, Higuain, Agüero e Messi -, tem a defesa que é, de longe, a maior incógnita, com jogadores inconstantes, como Garay e Otamendi, e outros que nunca foram bem em grandes confrontos. Sem falar no goleiro que deve ser o titular, Sergio Romero, do Monaco. Uma injustiça com o grande Willy Caballero, do Málaga, um veterano de extrema confiança mas que foi preterido por Alessandro Sabella, que também não gosta de Carlitos Tevez.

Carles: Não é fácil ter Carlitos num grupo, todo mundo sabe. Mas também é fato que ele costuma compensar em campo. Acho que valeria a pena poder contar com uma alternativa como ele. Caballero está em todas as primeiras páginas esportivas de hoje, por ter impedido que a liga espanhola terminasse ontem com uma defesaça no último segundo do jogo contra o Atlético de Madrid. Particularmente não gosto do estilo dele, mas não tenho dúvida de que é um digno representante da estirpe dos Carrizzo, Fillol, Cejas ou Gatti, grandes especialistas do “um contra um” e da boa colocação. Nem Romero nem Orion fazem jus. O terceiro goleiro, Andújar, não vi jogar o suficiente para fazer um julgamento. A zona defensiva que poucas vezes na história da alviceleste demonstrou amor à bola, mas que sempre se caracterizou pela contundência e picardia, nesta ocasião, nem isso. E justo quando acabamos de assistir à emocionante despedida do mais longevo dos jogadores argentinos, Zanetti.

Edu: De todo jeito, o ataque tem compensado essas carências, inclusive do meio de campo, onde Mascherano fica correndo de um lado para o outro para segurar os contra-ataques (que sina essa do jefecito!). Mas é um time que tem Messi, e aí meu amigo os outros é que têm que perder o sono. Messi ainda está em dívida com a Seleção Principal, o que explica a preguiça dele nesses últimos tempos de Barça, para evitar as lesões. Mas até o venerável Julio Grondona andou cobrando desempenho mais digno do melhor do mundo com a camisa da seleção. Grondona é bem o retrato acabado do dirigente sul-americano – 35 anos no poder, eminência parda da Fifa no continente, um histórico de controvérsias, enfrentamentos com jogadores e escândalos na federação. Mas segue firme como uma rocha. Nem Dona Cristina tem tanto lastro.

Carles: Grondona e até a filha de Sabella, todo mundo se vê no direito de puxar a orelha de Leo. Não me estranha que às vezes ele resolva se isolar do mundo. Parece que o futebol continua demasiado tolerante com sujeitos como Grondona, processado por agressão, injúria, discriminação, acusado de estar por trás de demissões de jornalistas incômodos e outra série de maravilhosas obras em prol da humanidade. Há quem diga que o núcleo de poder de Grondona se apoia nos clubes da capital em detrimento dos provincianos, aliás uma centralização que não é privilégio do futebol argentino. Os bonaerenses se gabam de morar na cidade mais europeia do cone sul, enquanto algumas regiões do país seguem abandonadas à própria sorte, desenhando um cenário de evidente desigualdade e estratificação social. É uma das queixas mais frequentes quanto à presidente consorte que faz questão de sair na foto ao lado dos líderes esquerdistas do continente, algo com que nem todo mundo está de acordo.

Edu: A grande mídia, principalmente, alvo de uma batalha federal contra a viúva Kirchner, que se mostrou nessa questão de enfrentar os monopólios muito mais contundente do que o maridão. Cristina também já teve uma ou outra rusga com Grondona, mas por enquanto não cornetou Messi, pelo menos.

Carles: Justiça seja feita, foi ela que peitou a poderosa multinacional espanhola do petróleo e reverteu a tentativa de um monopólio pelo capital estrangeiro em um setor estratégico. Só isso já justifica que ela saia na foto que quiser e com quem quiser.

Edu: Não sei se ela virá à Copa, mas muitos hermanos já fizeram suas reservas por aqui, a maioria na grande Belo Horizonte, em Vespasiano, onde o time vai ficar concentrado, treinando no excelente complexo do Atlético Mineiro. Por ali Messi poderá vomitar à vontade, antes, durante e depois dos jogos.

Carles: Como sétima no ranking FIFA, a seleção argentina viaja comodamente ao Rio para a estreia contra a Bósnia, 25ª no ranking no domingão, dia 15, em pleno Maracanã. Volta para o QG em Belô e por lá mesmo enfrenta o Irã, 37ª. Por último, vai a Porto Alegre para jogar contra a Nigéria, 44ª… nem que fossem os donos da casa.

Edu: E mesmo na segunda fase ainda não terão grandes dificuldades, no máximo uma França. Vamos ver quando julho chegar.

 

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