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Os intolerantes e covardes de sempre

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de agosto de 2013 | 06h51

Carles: Sintomática a nota oficial do Corinthians sobre a briga entre torcidas no jogo contra o Vasco, em Brasília. Percebe-se inclusive uma certa pressa na redação para desmarcar-se o mais rápido possível dos violentos.

Edu: O Corinthians, que foi por muito tempo refém dos grupos organizados, virou gato escaldado depois do episódio de Oruro. Essa preocupação agora nem é só moral, é uma questão de marketing, talvez o único lado positivo de toda a perversa relação dos clubes com algumas facções. Todo mundo, de alguma forma, está buscando um jeito de se livrar desse peso, mas há ainda muito chão pela frente. O pessoal tem poder de pressão e os dirigentes, na maioria, são bastante covardes.

Carles:  Em algum momento da sua gestão, a maioria de dirigentes abriram as portas do clube para esse tipo de organizações. Inclusive, pelo que eu sei, esta semana mesmo o próprio Corinthians permitiu que os Gaviões da Fiel, justo o grupo que integra o reincidente de Oruro e Brasília, entrassem no seu centro de treinamento para tirar satisfação com Sheik pelo tal episódio do selinho. O certo é que, por incapacidade, covardia ou conveniência, os mesmos que facilitam a formação dessa força paralela dentro do clube acabam à mercê deles. E isso é assim aí e aqui. Alguns cartolas, como o ex do Barça, Joan Laporta, ou o presidente do Sevilla, José María del Nido, romperam relações com os grupos de torcedores “ultras” e, por isso, tiveram que suportar muita pressão, incluindo ameaças de morte grafitadas no muro das suas casas e dos estádios.

Edu: É uma relação promíscua e, de fato, comum no mundo todo. Se você pensar que no auge da crise recente do São Paulo o presidente Juvenal Juvêncio armou um churrasco com uma torcida organizada com o objetivo de ‘descontrair o ambiente’, dá para se ter uma ideia de como os cartolas são incapazes de administrar essa questão e do pavor que têm desses grupos. Alguns fazem até uma espécie de acordo informal com as torcidas: continuam financiando as viagens e fornecendo ingressos, mas desde que, oficialmente, as relações estejam rompidas. Para todos os efeitos, a própria Torcida Organizada arca com esses custos.

Carles: Pois é, a torcida do Atlético de Madrid é considerada um das mais alegres e das que mais apoia o seu time, mas também prima por ter uma ala radical, a “Frente Atlético”, das mais violentas, e não é raro que seus integrantes sejam relacionados com a ultra direita. Eles mantêm uma particular disputa com os times bascos e são acusados do assassinato do torcedor Aitor Zabaleta, da Real Sociedad. Mesmo assim, seguem com os cânticos intolerantes e ameaçadores ali por onde vão. Sua relação com a diretoria do clube é tortuosa e ambígua, inclusive em alguma ocasião do passado chegaram a invadir o gramado, durante o treinamento  para, encapuzados, fazerem ameaças aos jogadores, frente a frente. Certamente alguém do clube abriu as portas para eles.

Edu: Fica sempre a certeza de que é uma ação consentida. Muitas vezes, a direção do clube apoia tacitamente esse tipo de pressão quando algum jogador não rende ou quando o time fica duas ou três rodadas sem vencer. É a mais nociva inversão de valores do futebol. O dirigente, em vez de ele mesmo punir ou fazer valer as relações trabalhistas, exigindo de seus jogadores o cumprimento das obrigações contratuais, aposta na pressão da torcida. Muito cartola por aí vibra quando os torcedores xingam determinados jogadores de mercenários e baladeiros.

Carles: Em todos os casos é um ato de covardia. As torcidas organizadas estão investidas de poder na arquibancada. Decidem se é hora ou lugar de festa e cantoria, componente fundamental para transformar o futebol no espetáculo que é. Mas também decidem quem é bem vindo ou não. Por aqui não é habitual a violência durante o jogo, mas sim nas proximidades dos estádios. Eles atuam tanto contra quem não é favorável ao seu time como contra quem não compartilha suas ideias normalmente nacionalistas ou não é parte do seu grupo étnico. Lembro que uma vez no Pacaembu, num dia de sol, um desses líderes, um verdadeiro armário, desceu vários degraus da arquibancada para “sugerir” que um moleque dez vezes menor, acompanhado pelo pai e irmãos, tirasse o boné promocional que, por coincidência era da cor do rival, mas não adversário nesse dia. Com esse tipo de atitude fica cada vez mais longe o dia em que veremos famílias inteiras frequentando os estádios. E isso parece essencial para a nova realidade dos estádios multiuso, não?

Edu: É um assunto que muitas vezes desgasta e cansa, pra te falar a verdade, porque envolve prepotência, intolerância política e decadência de valores de cidadania. Considero que as torcidas organizadas poderiam funcionar bem, fazer um grande bem, se quisessem. O futebol tem uma multidão espontânea que quer aproveitar e, de alguma forma, passar horas intensas dentro dos estádios. Esses grupos organizados poderiam ser – alguns até são – um espetáculo paralelo, motivo de orgulho para os clubes e para os jogadores. Mas a opção pela intolerância é própria de uma boa parcela dos seres humanos (?), ainda mais quando agem em turba. O que fica evidente é que, de um lado, o poder público tem que ser rigoroso com esses tipos e montar esquemas de prevenção e punição, algo que, aliás, não houve no jogo de Brasília. Por outro lado, os clubes nos devem a obrigação de sair fora desse modelo de usos e costumes sem nenhum sentido. O pior é que, do jeito que as coisas vão, nossos netos estarão lamentando pelas mesmas aberrações daqui a algumas décadas.

Carles: Provavelmente porque as ações violentas estão enraizadas e passaram a fazer parte da tradição desse esporte, já que se repetem por quase todas as latitudes. Sempre considerei a normalização social como o sistema mais eficaz para a retomada de zonas ocupadas por grupos indesejados. Em vez de repressão, criar atividades e habilitar os espaços para motivar que a cidadania frequente e volte a ocupar esses espaços. Isso costuma funcionar melhor que ações meramente policiais, em praças dominadas pelo pequeno tráfico de drogas e marginais de pouca monta, por exemplo. Com certas garantias e fazendo uso do direito de ir e vir, pode-se fomentar o aumento gradativo do número de assistentes dispostos a desfrutar só do espetáculo ou de tardes de convivência social. Ou seja, é justamente o processo inverso que começa com a reativação da vida comunitária e este, por sua vez, acaba inibindo a presença de grupos indesejados. Se queremos as famílias de volta ao estádio,  nada melhor que o ambiente familiar como antídoto contra as ações dos violentos.

 

 

 

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