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Os loucos pensadores do futebol, derrubando estigmas

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de março de 2014 | 22h02

Edu: Tenho visto uns poucos técnicos e estudiosos de treinamento especializado dizerem que um dos segredos do futebol no atual estágio é quebrar as linhas de passe. Talvez nem seja um ovo de Colombo, porque os treinadores retranqueiros costumavam colocar três volantes com essa intenção. Mas nas leituras mais modernas que se fazem do futebol essa função não é para volantes e sim para todos que jogam do meio de campo para frente, independente se for um craque ou um colaborador. É fácil descobrir quem joga dessa forma?

Carles: Acho que é fácil identificar sim, já falamos aqui disso, mesmo que sob diferentes perspectivas, aliás eu diria que é um dos cavalos de batalha do 500aC, o “futebol pensado”. Certeza que a linha divisória entre o catenaccio e o futebol total está justamente no nível de planejamento da abordagem e principalmente no que fazer com a bola depois de interromper o jogo do adversário. A grande diferença entre simplesmente colocar barreiras, como a típica linha de três volantes ou trabalhar intensamente a associação das ações que buscam dificultar o passe adversário, induzi-lo ao erro, roubar a posse e articular o próprio jogo. De tempos em tempos aparecem loucos dispostos a colocar isso em prática e quase sempre obtendo resultados positivos. Se é assim, porque será que a grande maioria parece preferir transformar esses sujeitos em hits na história do esporte e retornar à banalidade?

Edu: É o lado menos perverso da banalidade. Não fossem os banais talvez não valorizássemos tanto caras como Rinus Michels, que provavelmente foi o primeiro a fazer essa quebra de passe com o material humano que tinha no time holandês de 1974, jogadores dotados de rara inteligência. Neeskens e mesmo Cruyff voltavam até o centro do campo e eram eles os ladrões de bola, o efeito surpresa. Deixaram lições aproveitadas por gente como Sacchi e Guardiola, que tentaram chegar perto da Laranja Mecânica. Mas acho que Jupp Heynckes conseguiu algo parecido no Bayern de 2013 e fez do Barça sua maior vítima. Criou mesmo uma cultura no time de Munique que agora é aperfeiçoada por Guardiola. Mandzukic e Ribery fazem hoje o que Neeskens fazia em 74.

Carles: Parte importante do trabalho desses marcianos dispostos a mudar a forma de ler o futebol, pelo menos por algum tempo, é convencer os maiores interessados, os jogadores, a aplicar essa teoria toda no campo. Isso requer muito treino, muita coordenação e, no jogo, muito trabalho. Ultimamente, pudemos ver um pouco do próprio remédio sendo aplicado contra seus proponentes. Refiro-me a jogos que vimos em 2013, o da Seleção Brasileira contra a Espanhola na final da Confecup e os dois jogos que você citou, do Bayern contra o Barça na semifinal da Champions. Nem acho que era o jogo natural de brasileiros e alemães, mas acabaram sendo o antídoto perfeito. Os resultados magníficos obtidos em ambos casos é o melhor dos argumentos para convencer até o mais preguiçoso dos craques a percorrer muitos mais quilômetros durante uma partida e até a fazer parte do trabalho sujo, ajudando inclusive a bloquear os cabeças de bagre. Só não sei durante quanto tempo uma ‘diva’ está disposta a fazer esse trabalho.

Edu: De alguma forma esses pensadores do futebol ajudam a desmistificar a marcação. Nós mesmos temos essa ideia de que o marcador por natureza está mais próximo do cabeça de bagre, porque, já que não sabe criar, o negócio é se esmerar na marcação. É claro que não é bem assim, embora também seja verdade que existam marcadores que só sabem fazer isso, nasceram para destruir. O problema é encontrar o meio termo. Concordo que a Seleção Brasileira quebrou as linhas de passe da Espanha naquele jogo, mas não vejo nenhuma proposta científica nisso. Foi uma questão de empenho dos próprios jogadores que entenderam alguma mensagem meio subliminar da Comissão Técnica. Também não acho que seja uma proposta científica de Mourinho fazer os habilidosos do Chelsea subirem para roubar a bola – Hazard, Oscar, Willian. Mas é louvável que o próprio jogador de hoje sinta essa necessidade e saiba que é possível fazer uma marcação dinâmica, voltada para construir, não só destruir.

Carles: Talvez não se possa considerar uma proposta científica em si mesma, mas responde a uma racionalização do que durante muito tempo não foi mais do que uma prática espontânea ou no máximo, intuitiva. Não que a intuição não tenha nada de científico, ao contrário, a mecanização de ações e movimentos individuais e coletivos parte de bases científicas de retroalimentação pelo uso repetitivo. O que parece é que os grandes compromissos assumidos pelo futebol profissional vão fazendo com que cada vez haja mais interessados em beber dessa ciência que parece minimizar o riscos do erro. Os estudiosos sempre estiveram aí, mas poucos eram os clubes dispostos a comprar essa briga. A contrapartida está em treinadores pouco dispostos a usar métodos científicos, mas que aproveitam parte desse aprendizado para construir fórmulas simplificadas mas eficientes como o próprio Mourinho, cujo modelo depende de um método de motivação e liderança tão particular e muito bem assimilado pelas instituições anglo-saxãs.

Edu: O próximo passo, então, dever ser mesmo o de fazer um trabalho psicológico com as ‘divas’ a que você se referiu, que precisam aprender que não é vergonhoso sujar o calção para recuperar uma bola. Acho que, para nosso regozijo, veremos muitos desses jogadores aqui na Copa, desses que sabem que é preciso dar um carrinho no meio de campo para logo em seguida decidir lá na frente com um lance genial. Podemos qualquer hora reunir aqui os muitos que se propõem a ser ‘jogadores totais’. Só nessa conversa já citamos ao menos uma meia dúzia.

Carles: É possível que esteja nascendo mesmo um novo protótipo de futebolista e isso sem dúvida merece mais algum post. Se bem que desconfio que ainda sejam bem poucos os que reúnem talento de verdade e a disposição para colaborar com o jogo coletivo. Mais uma razão para acreditar que a Copa 2014 possa se transformar no grande indicador do futebol que vai se praticar nas próximas décadas.

 

 

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