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Os ‘sem noção’ nos tempos do futebol de botão

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

04 de maio de 2013 | 04h45

Carles: Não pude evitar reconhecer a mim mesmo no prólogo que o escritor Javier Marías escreveu para o livro “Cien años azulgranas – Entrevistas a la sombra del Camp Nou”, de Pere Ferrers, em que faz referência a lembranças dos tempos de infância e os campeonatos de futebol de botão que o irmão mais velho organizava no chão da sala. Como ambos eram torcedores do Real Madrid, Javier era obrigado pelo irmão a jogar com o Barça e isso, segundo ele, criou um vínculo especial com o clube blaugrana, diferente à maioria de madridistas que declara ódio eterno ao rival do norte. Fico pensando na sensação de controle total sobre os ídolos que o futebol de botão nos outorgava a algumas gerações e que agora se personaliza através dos videogames. Ainda lembro como eu fazia Dino Sani, Rivelino ou Tales deslizarem pela mesa da cozinha de casa, ao sabor a minha palheta e me pergunto se apertar freneticamente os botõezinhos de um joystick, ou como se chame agora, é capaz de produzir a mesma sinergia das novas gerações com os seus ídolos.

Edu:A proximidade com os ídolos era, provavelmente, mais autêntica, mas em compensação a molecada de hoje acumula muito mais informação técnica, coisa que o próprio game já tem incorporado. Mas como somos dinossauros, fica o consolo de, para jogar botão naqueles tempos, termos que fazer tudo, inclusive o barulho da torcida e a narração. Era um teste diário de criatividade. E um grande prazer, claro.

Carles:Verdade, o barulho da torcida e a narração, verdadeiros clássicos. Qualidades próprias de ventríloquos. Você acabou de chamar a minha atenção talvez para a maior das diferenças, a capacidade de teatralização dos que jogávamos futebol de botão. Algo do que provavelmente os meninos do game estão sendo privados. Fico impressionado com a agilidade, com a habilidade deles em realizar combinações no tecleado para conseguir que os sujeitos da telinha façam jogadas impressionantes. Mas nada que estimule tanto a imaginação como pensarmos que uns discos de plástico achatados eram craques estelares e que estávamos num estádio repleto de torcedores.

Edu:Provavelmente nos chamariam de ‘sem noção’ se vissem como era divertido aquilo. No fundo, éramos mesmo ‘sem noção’: afinal, para que serve a noção? Até porque, descontada a tecnologia, era tudo mais ou menos igual. Havia esquema tático, montava-se times da moda, fazia-se torneios internacionais. A diferença é que sempre o melhor botão era o artilheiro do time, ou o armador, o ‘10’. E as trocas eram concretas, físicas. Muitas vezes era possível trocar um ótimo botão por três não tão bons, ou por um time inteiro meia-boca. O mercado era bem fervido porque, antes dos botões industrializados, jogava-se com tampinhas de relógio. Era uma peregrinação mensal aos relojoeiros do bairro atrás de tampinhas velhas.

Carles:Hummmm, acho que eu sou menos sem noção do que você. Mas, tranquilo, que eu explico devagarzinho. Além dos games de jogos e campeonatos propriamente ditos, existem os que se dedicam à gestão, os Managers, ou seja, em que se finge ser os megamercadores do planeta futebol. Além da possibilidade de intercambiar jogadores, existe a obrigação de manter as finanças do clube saneadas, fazer o time subir de categoria e tudo mais. Quanto aos botões, os industrializados nunca foram capazes de melhorar o desempenho das tampas de relógio. O problema é que os processos industriais mudaram a fabricação das tampas de relógio e em vez da parte de plástico transparente só, passaram a acoplar argolas de metal, lembra? Foi a primeira crise técnica do futebol de botão.

Edu:Pois é, as tampas com argola de metal coincidiram felizmente com a primeira leva de botões industrializados, o que provocou uma migração em massa para eles. O que mudou em relação ao tempos dos ‘sem noção’ foi que não havia mais aquelas tampinhas ‘diferenciadas’, passou a valar a habilidade do jogador em si. Como se todos os carros de Fórmula 1 fossem iguais e o que decidisse fosse a qualidade dos pilotos. Não deixa de ser um avanço técnico. Mas não culpo a industrialização por tudo. Não fosse isso, não existiriam ainda hoje concorridos campeonatos de botões e os muitos craques da mesa, além dos colecionadores, claro, que se gabam de reunir botões e figurinhas antigas. Esse legado os videogames não vão afetar, pode estar certo.

Carles:Se tem uma coisa que os videogames não oferecem é essa possibilidade igualitária. Os times já vêm diferenciados de fábrica, alguns muitos poderosos e outros nem tanto, num ranking baseado no recente desempenho de seus inspiradores, as equipes da vida real. Quem for capaz de ser campeão com um time médio demonstra que é realmente um craque. Quem sabe, num futuro, o videogame vai deixar de ser uma mera reprodução para ser uma competição tão ou mais transcendente que o esporte real. Nesse dia, a única coisa que pode impedir a escalação de Messi será uma distensão num dos dedões da mão.

Edu:E tem o problema da identificação, da química entre os times, do sentido de rivalidade, como ressaltou Javier Marías em seu idílio forçado com o Barça. Talvez esses ingredientes fiquem cada vez mais em segundo plano para a molecada com seus games impessoais. Menos para os dinossauros e seus botões. Alguma vantagem teríamos que ter.

Carles: Sem dúvida. Quando o jogo acabava, guardávamos todos os craques numa caixa e eles estavam ali sempre, presentes “fisicamente” à espera de novos campeonatos.

 

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