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Oscar ameaçado e o exemplo de ‘La Rojita’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de junho de 2013 | 19h56

Edu: Este momento do futebol internacional é bem peculiar quanto à valorização dos jovens, como já comentamos algumas vezes aqui. O Brasil, que sempre foi celeiro, já cuidou bem melhor de seus garotos. Para não ir muito longe, o intratável Dunga perdeu a chance de levar para a África do Sul dois meninos que, se tivessem tido aquela experiência de Copa do Mundo, mesmo como reservas, hoje estariam alguns passos adiante. Um deles até que vingou, Neymar, mais por suas virtudes pessoais. Mas o outro afundou, Paulo Henrique Ganso. Foi uma demonstração, dentro da categoria máxima do futebol brasileiro, da falta projetos para os jovens, coisa que, para pegar o exemplo extremo oposto, a Espanha tem de sobra hoje em dia.

Carles: Existe, sim, uma geração brilhante de jovens esportistas que basicamente é consequência de um projeto implantado desde os anos 80, com investimento em infraestruturas, como já dissemos algumas vezes aqui. ‘La Rojita’, a seleção sub-21 da Espanha acabou de revalidar seu título europeu em Israel, com um time que na minha opinião pode ser melhor que o atual e provavelmente com alguns jogadores que já podem estar na Copa do Mundo se a Espanha conseguir confirmar sua classificação. Muitos deles substituirão alguns dos reservas da equipe principal que hoje marcaram um histórico 10 a 0 na seleção de Taiti. Histórico pelo resultado numérico, claro, e pelo cenário, mítico para os espanhóis.

Edu: Essas coisas não acontecem à toa, embora por aqui a quantidade sempre garantisse a qualidade, muito mais do que por projetos mirabolantes na estrutura dos clubes. Os talentos hoje são muito mais precoces em todos os esportes, pela evolução nos modelos de formação, pelo aperfeiçoamento da preparação física e psicológica e também por necessidades financeiras em muitos países. Muito jogadores daqui saíram muito cedo, para sorte deles. Hulk é praticamente um desconhecido no Brasil. Dante, também. E estamos falando de caras que estão na elite. O diferencial em relação à Espanha é que, além do projeto, fica evidente, vendo o time sub-21, a influência da equipe adulta campeã mundial e bi europeia no estilo da moçada, na postura e na personalidade. Coisa que poderíamos estar colhendo das gerações que se seguiram ao grupo que tinha os Ronaldos, Roberto Carlos, Kaká, etc. Mas alguma coisa aconteceu no meio do caminho e a profusão de talentos que o Brasil revelava deu uma encolhida brava, preocupante.

Carles: Eu diria que por trás das seleções espanholas, seja a principal ou as seguintes na linha sucessória, existe um modelo, uma filosofia de trabalho, consideradas as particularidades de cada uma. Nessa seleção sub-21, aliás, existem dois exemplos desse êxodo prematuro do material humano brasileiro. Rodrigo e Thiago Alcântara, jogadores de origem brasileira. Também é verdade que no caso de Thiago existem outras circunstâncias, tais como a carreira do pai, Mazinho, na Europa que o transformaram num híbrido, mais espanhol do que brasileiro. Porém sua presença na seleção espanhola pode também ser sintomática, já que ele fez uma escolha, possivelmente em função das condições que lhe ofereciam numa e noutra federação.

Edu: Esse é o ponto em que eu queria chegar – o tratamento dado ao jovem. Aqui, esses garotos no limiar dos 20 anos ficam à mercê do técnico, do chefe de plantão, quase nunca da estrutura do clube. E já sabemos como funciona, na média, a cabeça dos treinadores. Alguns precipitam o lançamento dos garotos, que acabam se perdendo nessa histeria de profissionalização. Outros privilegiam o emprego a qualquer custo e não arriscam promover ninguém. Falta antes de tudo sensibilidade com os jovens. Temos agora um exemplo gritante na Seleção. Oscar tem 21 anos, foi para o Chelsea como uma promessa e teve uma temporada de estreia muito eficiente. Mas, claro, não é um jogador pronto tecnicamente. Como Neymar também não, apesar de bem mais genial. E certamente sabem disso no Barça e no Chelsea. Ocorre que Oscar está arriscado a ser condenado pelo esquema da Seleção, justo ele que vinha sendo o grande destaque. Não se trata de uma raposa velha que saberia se impor na adversidade. É um garotão ainda, de temperamento cordato, tímido. Precisaria de compreensão, no mínimo. Te garanto que Thiago Alcântara chegaria bem mais pronto ao time principal da Espanha porque sempre encontrou essa compreensão dos treinadores. E seguiria o tal modelo de jogo.

Carles: Posso estar enganado, mas nos casos de Oscar e Neymar, pelo menos, se o talento é algo de geração espontânea mais do que um trabalho de base, existe uma grande vantagem. Ambos me parecem ter uma disposição para aprender, mesmo tendo emigrado como estrelas. Essa propensão já ficou demonstrada na rápida evolução de Oscar, com uma capacidade de adaptação importante, além de uma crescente aprendizado táctico. É um jogador moderno e pode ser o modelo para futuras gerações de futebolistas brasileiros. Mas, como você disse, esse extremo profissionalismo e capacidade de obediência, natural pela sua juventude, pode resultar num desempenho comprometido por um esquema tático medíocre e mal resolvido. Prefiro ser otimista e pensar que o talento vai resistir a essa série de circunstâncias desafortunadas. Por outro lado, é evidente que essa molecada sente a insegurança de uma retaguarda feita de improvisações e disputas políticas ou, pior, puramente de egos.

Edu: É difícil prever até que ponto esse tipo de obstáculo pode influenciar na carreira do jogador jovem. Temos uma Copa do Mundo vindo aí, Oscar certamente tem essa perspectiva e deve estar tranquilamente entre os convocados se repetir a temporada que fez. Mas é impossível que não bata essa insegurança quando o tipo de jogo do sujeito não é muito valorizado numa Seleção. Será muito mais um caso de força mental – um teste de fogo para um garoto – do que de qualidade técnica. O que não deixa de ser bastante injusto.

Carles: Outro ponto na formação é esse misto entre política extremadamente paternalista, do “agradinho” e de excessiva tutela que acaba permitindo menos margem de decisão do próprio interessado, e as estruturas mais profissionalizadas, em que o merecimento é o que conta. No caso de Thiago, sobretudo pela influência do pai, sempre se está à espera de um trato especial pelo talento que demonstra e isso, apesar de evidente, sempre é um juízo de valor, subjetivo. Cristiano Ronaldo também já manifestou isso algumas vezes, ‘quero estar onde me sinto querido’, quando a exigência deveria ser a de respeito. Thiago fez uma final sensacional contra a Itália, três golaços e saiu valorizado. Está com o ego massageado e Mazinho declara sempre que não sente o carinho do Barça, que pelo seu lado alega que está preparando o garoto cuidadosamente para ser o substituto de Xavi. A saída para o Manchester pode ser uma solução momentânea, mas à mínima sensação de falta de carinho no futuro, o problema certamente voltará. Isso significa que muitas vezes não seria suficiente preparar os garotos, mas a equipe que os cerca.

Edu: Sinceramente, quando se trata de ‘jovencitos’, acho que carinho funciona, significa ter sensibilidade para cuidar de cabecinhas que ainda não estão prontas. A falta disso pode sufocar o talento. Claro que não é o caso de Cristiano Ronaldo, faça-me um favor.

Carles: Eu sigo preferindo a palavra respeito, sob o risco de, no futuro, eles esperarem algo que um clube ou um patrão realmente não pode dar.

 

 

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