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Padecer faz parte do show

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de julho de 2013 | 10h02

Carles: Em um texto muito emotivo, publicado na revista ‘Panenka’,  o jornalista Axel Torres fala das sensações de ser um menino de dez anos e ver o seu time ser rebaixado. Nesse caso, duplamente, uma no campo e outra como penalização por dívidas com os jogadores. Isso foi em 1993 e, sem internet ainda, ele passou de poder ver o time dele nos resumos do domingo na TV a ter que vasculhar nos meios informativos para saber os resultados do Sabadell. Segundo ele, naquele ano viveu a mais intensa das temporadas esportivas de que recorda. Pensando bem, não é nenhum absurdo, considerando que essas caídas costumam suscitar o brio, dar uma chacoalhada nas emoções e permite emergir essa sensação ambígua de começar tudo do zero.

Edu: É a história clássica no futebol de que o padecimento reforça as ligações afetivas com o clube, o compromisso, a paixão e a fidelidade. Não acontece só com os times menores. E quase sempre não são resultado apenas de um momento técnico ruim, envolvem crises econômicas e institucionais.

Carles: Mas a questão é se essa aparente situação desfavorável é mesmo capaz de dar essa força adicional que dizem ou é só uma espécie de consolo “pra boi dormir”. De como foram as experiência de Corinthians ou Fluminense? De como está sendo no caso do Palmeiras? Aqui grandes clubes passaram por esse tipo de experiência, como o Atlético de Madrid que, na volta, pareceu muito mais carregado de energia. Simbólico para expressar esse estado do espírito foi o célebre comercial da sua volta à Primeira Divisão, protagonizada pelo então goleiro do ‘Atleti’, o argentino e clone de roqueiro “Mono” Burgos, hoje auxiliar do técnico Simeone:

Edu: Não tenho dúvida de que a energia é renovada nessas situações. Não importa se é um consolo, o fato é que o time renasce, é uma demonstração inequívoca de força, sair do nada, refazer o caminho e voltar com tudo. Não só Corinthians, Flu, Palmeiras (agora pela segunda vez), mas também Botafogo, Grêmio, Atlético Mineiro, foram muitos que passaram por isso. E para o torcedor tem o argumento adicional de não ter mais nada a perder. Só que, voltando ao nosso fã do Sabadell, é preciso levar em conta os seguidores de times modestos, que vivem nessa corda bamba o tempo todo, entrando e saindo do abismo. Esse sim é submetido a uma provação atrás da outra.

Carles: A experiência do então garoto Axel talvez requeira um esforço adicional do leitor brasileiro para entender o vínculo afetivo dos torcedores daqui com seus clubes locais. Quem torce pelo Sabadell é porque normalmente é originário dessa cidade catalã, e com muita frequência não é do Barça. Ao contrário. Inclusive, Torres faz questão de ressaltar no artigo os momentos difíceis no colégio, quando encontrava os amigos que eram torcedores dos clubes maiores. Recentemente, descreve, voltou a experimentar uma sensação semelhante, com o Wigan inglês, agora rebaixado, clube que durante alguns anos foi dirigido pelo espanhol Roberto Martinez, atual treinador do Everton. As obrigações jornalísticas acabaram criando um vínculo especial com o clube inglês, inclusive porque envolvia pessoas que considera como amigos. A questão da corda no pescoço já não é um privilégio dos modestos e ameaça a quase todos, quem sabe com exceção dos dois grandes – é bom lembrar que só três clubes espanhóis nunca deixaram a primeira divisão: Real Madrid, Barcelona e Athletic Bilbao. Muitos clubes tradicionais passam o primeiro turno tentando alcançar o número mínimo de pontos estimados para evitar o rebaixamento e quando chegam a esse número acabam relaxados, a ponto inclusive de perder partidas não previstas. O medo ao rebaixamento cumulativo para nunca mais voltar, como aconteceu com clubes como Salamanca ou Oviedo, sempre paira sobre esses clubes, enquanto aos mais poderosos parece sempre mais fácil retomar o caminho de volta.

Edu: Há, normalmente, a certeza de que o time grande sairá dos subterrâneos, como fez Burgos nesse comercial do Atlético de Madrid. Alias, o sofrimento do torcedor desses clubes mais poderosos é em parte amenizado pela temporada tranquila que normalmente passam entre os menores. Vão ganhando por goleada, lotando estádios e é só uma questão de tempo para comemorar a volta. Por outro lado, entre os modestos, há sempre um medo maior, latente. O time tanto pode reagir, como pode estar daqui a dois anos na Quarta Divisão. Sem contar a possibilidade de simplesmente desaparecer. Mas o torcedor verdadeiro sabe que vive numa montanha russa e até sente um certo prazer mórbido de conviver com o sofrimento. Faz parte do show.

Carles: É provável mesmo, esse efeito analgésico do ano sabático numa divisão inferior. Mas o pânico parece que aflora quando a volta não se conquista na primeira temporada, principalmente na faixa de clubes intermediários, como ocorreu com a Portuguesa aí, que pelo visto já se acostumou ao limbo, ou o caso mais dramático por aqui, do Deportivo La Coruña, que já experimentou a sensação de ser campeão da Liga Espanhola, de jogar e ser sério candidato à Champions, e que voltou a cair para a Segunda Divisão de onde já teve dificuldades de sair da última vez. A impressão é que o torcedor coruñes não conhece mais o chão onde vai pisar, com a remota esperança de voltar a encontrar os degraus para a Primeira Divisão, mas com a permanente sensação que pode se deparar, a qualquer momento nesse caminho, com um buraco do qual desconhece a profundidade.

Edu: Então é uma história parecida com a do Guarani, outro que já foi até campeão brasileiro e está descendo a ladeira há anos, não é sequer uma sombra mal definida daquilo que foi um dia. No fim, vamos cair na velha ladainha das pressões econômicas que dividem o panorama do futebol entre o pântano e o éden. Sempre dá nisso. E o único que permanece firme em qualquer situação é o torcedor.

Carles: Você lembrou algo que costuma ser decisivo nessa história. Torres finaliza o artigo defendendo a ‘desdramatização’ do rebaixamento, dizendo que com isso o mundo não acaba, talvez porque o que ele viveu quando tinha 10 anos tem uma certa fantasia romântica pelo menos na lembrança de garoto. Muito longe dos dramas de hoje, muito menos desportivos e mais de ordem econômica. Naquele ano, o Sabadell recuperou-se jogando com juvenis, sem gastar dinheiro, realizando goleadas históricas em casa e sofrendo muito fora. Agora, mesmo para jogar numa Terceira Divisão, a questão orçamentária pesa muito.

 

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