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Pelas beiradas, uma válvula de escape

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

21 de fevereiro de 2013 | 21h10

Carles: Ouço e leio os comentários sobre a crise do futebol brasileiro ao mesmo tempo que percebo que vocês (e nós) seguem consagrando os jogadores brasileiros que jogam pelo meio. Os  momentos vitoriosos mais recentes (e alguns não tanto) do futebol brasileiro estão ligadas a esse jeito de “comer pelas beiradas”, ou seja, graças a uma grandíssima e brilhante safra de laterais revelados nas últimas décadas. Não seria a atual carência desses loucos alas, famosos no mundo inteiro, motivo de reflexão sobre a – se é que existe – atual crise?

Edu:  Se formos rigorosos – e somos – não há crise nas laterais, ou crise ‘de’ laterais. E quando há, é produzida pelos próprios treinadores, dos quais voltaremos certamente em breve a falar. Você deve estar se referindo aos laterais brasileiros que estão por aí, teoricamente indiscutíveis nos principais times espanhóis – Dani Alves, Adriano, Marcelo (quando não está linha de tiro do Mourinho, como agora). Já andaram fazendo relativo sucesso Fábio Aurélio, Maxwell, hoje em Paris, Maicon, os irmãos que atuam na Inglaterra, Fábio e Rafael. É uma certa fartura mesmo. Mas como explicar que na Copa de 2010 jogou na lateral-esquerda um ponta improvisado, Michel Bastos?

Carles: Na verdade, os que você citou são todos já consagrados. Estava me referido a novos valores. Eu, desconheço. Mas sem querer você antecipou uma das minhas teorias sobre essa carência, a reconversão. Praticamente nenhum lateral brasileiro que chega à Europa deixa de experimentar, isso quando não muda definitivamente para posições com maior prestigio dentro do time. Quem sabe isso voltou a criar certa rejeição pelas laterais na garotada que começa a jogar.

Edu: Não entendi. Esses que estão aí experimentaram pouco dessa mudança. Daniel andou jogando de ponta com Guardiola, Marcelo fez alguma função eventual de meio-campista mas voltou à lateral, até porque gosta da posição. Quem mais? Quem efetivamente participou dessa reconversão recentemente?

Carles: Durante muito tempo, todos os que chegavam viravam ou ponta ou interior, como se diz por aqui – Mazinho, Leonardo, o próprio Marcelo, Alves naquele Sevilha que conquistou títulos. Mesmo Zé Roberto, hoje no Grêmio.

Edu: Ah sim, a geração anterior foi mais chegada à reconversão.

Carles: Claro que o posicionamento tático preponderante na Europa, com interiores (meias abertos) que bloqueiam a descida dos laterais, inibe justamente a maior qualidade dos laterais brasileiros. Mas foi justamente essa geração a que acabou influenciando para que cada vez menos garotos quisessem jogar de lateral e começar em outras posições. E nem todos tem talento para isso. No fim, nem laterais eficientes, nem meio campistas brilhantes.

Edu: Considero que os laterais funcionam como essencial válvula de escape em esquemas táticos rígidos, mais ainda nos clubes europeus. Um lateral na Inglaterra não funciona como na Espanha ou na Alemanha, mas é sempre uma saída. A vantagem dos que foram depois dessa geração mais talentosa é que se ‘europeizaram’ mais fácil, alguns sem perder as características, como o Marcelo, que vejo ainda como o lateral com mais recursos técnicos do mundo. Mesmo Dani Alves e Adriano, que atuam em um time no qual o jogo nunca é pensado na zona lateral do campo, se enquadraram porque desempenham funções típicas europeias, de complementação, mas com um toque brasileiro. Maicon nos bons tempos da Inter foi a mesma coisa.

Carles: Alves e Adriano sim, funcionam no Barça como válvulas de escape, jogo alternativo. Voltando à minha argumentação do início, talvez, durante muito tempo no futebol brasileiro, os laterais não foram simplesmente uma alternativa, mas a principal fonte de jogo, mesmo como mera ameaça ou isca para que os jogadores do meio acabassem sendo decisivos. Ou seja, virou um vício.

Edu: Vamos a um período anterior ainda. Uma coleção da Editora Contexto, lançada há quatro ou cinco anos, denominada ‘Os 11 Melhores’, traça um perfil dos grandes nomes da cada posição no futebol brasileiro. O volume que aborda os laterais, escrito por um ex-colega e grande amigo, Paulo Guilherme, inclui entre os 11 de todos os tempos alguns que tinham totalmente essa vocação de meias – Júnior, Leandro, o próprio Leonardo, mesmo Branco, que funcionava bem como ala, e Cafu, que era na origem meia direita. Ou seja, dos 11, cinco meias. E outros dois tão inteligentes que, se quisessem, poderiam ter sido meio-campistas sem sustos: Nilton Santos e Carlos Alberto Torres.

Carles: É provável que Nilton Santos e Carlos Alberto sejam historicamente os grandes inspiradores dessa função, mais que posição, mas jogavam em times com um montão de outras alternativas. Por isso, insisto: em que momento a lateral passou a ser a melhor opção e não mais uma para os times brasileiros? E, segundo essa teoria, o passo seguinte teria sido a ‘lateraldependência’ e, ato seguido, uma baixa na produção de material humano. O processo continua evoluindo, em prejuízo de alternativas táticas nos times brasileiros, incluída a Seleção. Mas é só uma teoria pessoal.

Edu: Já houve muito, mas hoje em dia já não vejo mais essa dependência dos laterais nos grandes times brasileiros. Quem sabe seja mesmo por falta de revelações neste momento, até porque um lateral que se destaca aqui tem imediatamente mercado fora. E se manda sem pensar duas vezes. Só tem um lado bom que precisa ser reconhecido: obrigou os técnicos a buscar alternativas, colocar a cabeça para funcionar. Se bem que essa talvez seja a grande crise: técnicos pensando.

Carles: Pois é, por isso eu defini como um vício, não dos jogadores, é obvio, mas de quem orientava e formava. Mas tem outro lado bom, a grande safra de laterais brasileiros chamou a atenção do mundo inteiro para a importância de se usar essa zona de forma estratégica e decisiva. Com inteligência e não só com vigor físico.

Edu: Ou seja, uma eficientíssima válvula de escape. Só para completar, a relação de 11 melhores laterais do livro, além dos sete já citados, tem Vladimir, Nelinho, Roberto Carlos e Djalma Santos.

Carles: Grande seleção!

 

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