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Persistência a qualquer preço

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

15 de abril de 2014 | 19h10

Carles: Ainda com relação à questão que discutíamos ontem sobre a melhor fórmula para a gestão de um clube esportivo, acho que estamos de acordo em que a solução seria um modelo que respeitasse a realidade e o perfil social-cultural local, mas que principalmente sobrevivesse à alternância das políticas do poder. Pode me chamar de pessimista, mas me parece uma enorme quimera, diante da convicção cada vez mais alastrada de que o clube é uma marca e não um patrimônio cultural com compromissos sociais com a comunidade. Você não acha que perdido esse vínculo já não existe nada que possa fazer perdurar um projeto que busque equilibrar as contas e o desenvolvimento esportivo?

Edu: Vou insistir no problema dos recursos humanos – acima do sistema – para concordar quase 100% com você. Enquanto existir tanta gente despreparada e oportunista nesse meio que não tem nada de transparente, não haverá o tal equilíbrio, quando mais algo duradouro. O dirigente padrão, supostamente profissional, como de resto grande parte do empresariado tradicional, não tem preocupação com  vínculos, não tem, aliás, nenhuma intenção de tratar o bem que está em suas mãos – o futebol – como um bem social. É um princípio solenemente ignorado, salvo as exceções de sempre. É preciso cuidar das contas, ok. Mas há outras três variáveis, digamos, obrigatórias no sistema: a convivência civilizada com o regulamento, ou seja, as leis do jogo e das instituições; a manutenção de valores lúdicos sem os quais qualquer jogo perde a função básica; e, por fim, uma vertente de ética social que não está formalizada na legislação mas que é o pilar central de tudo, a cidadania. Não haverá equilíbrio se a gestão do futebol ignorar essas três variáveis humanas para priorizar o caixa. Acho até que certos dirigentes entram pensando em buscar o equilíbrio, mas logo são engolidos pela engrenagem. Aí, vira um círculo vicioso cruel que começa sacrificando justamente a molecada que precisa desses valores.

Carles: A questão das contas foi uma concessão que eu fiz ao mundo neoliberal que nos assola. Insisto em partir de uma situação quanto mais real possível. Setores como a saúde, o transporte, a educação e a cultura não deveriam estar sujeitos a estruturas empresarias em nenhum caso, mas estão e tem um montão de gente que conheço que acha isso normal. Portanto, é inevitável partir dessa realidade. Resta a esperança da sociedade suficientemente vigilante para não permitir que se corrompam as bases dessa ética social. “Isso só é possível no primeiro mundo!”, também é a opinião de muita gente que conheço. Pois então, considerando que Valencia estivesse nesse grupo, parece uma contradição que neste momento a maioria de torcedores e jornalistas locais esteja convencida (porque esse convencimento fez parte do processo) que o melhor para o clube local seja a sua venda para um dos cinco misteriosos grupos financeiros que se propõem à compra do clube endividado, ainda que tenha recebido várias injeções de dinheiro do governo da Comunitat Valenciana, ou seja, do povo valenciano. Isso apesar das experiências recentes de, por exemplo, Racing de Santander ou Málaga. Ao mesmo tempo, o Valencia tem-se destacado pelos êxitos das suas divisões de base, que mantêm convênio com vários clubes de bairro e pequenos municípios para rastrear o talento local. O time de cima vive de altos e baixos e não aproveita mais do que o irregular Guaita, do bom lateral Bernat e a sensação Paco Alcácer. Mais pela falta de dinheiro e de crédito do que pela vigência de um modelo que unifique todas as divisões. Clubes com maior compromisso com as sociedades em que estão inseridos, como o Barça e principalmente Athletic de Bilbao, não parecem tão sujeitos a essa descaracterização. Já o Real Madrid, apesar da sua fabulosa estrutura de base, praticamente inventou a versão espanhola do futebol de mercado.

Edu: Esse modelo do Valencia só confirma que não basta ter uma estrutura relativamente eficaz de base. Se os clubes, aí como aqui, apenas revelarem para capitalizar a curto prazo, não há saída possível, ficarão sempre dependentes de quem compra e sobrarão migalhas. A Portuguesa, que desde que me conheço por gente revelava grandes jogadores, entrou numa espiral de decadência administrativa há algum tempo que levou o clube a praticamente sumir do mercado, mesmo do mercado de vendas. A política de só revelar para vender pune até mesmo os médios e grandes da Europa – como o próprio Dortmund -, que dirá nossa Lusinha. Por isso que é preciso reafirmar a necessidade de compreender o mercado, já que é inevitável, sem prejuízo aos outros valores. Essa é a equação que o futebol contemporâneo não consegue resolver.

Carles: Não consegue resolver segundo uma perspectiva geral, mas convenhamos virou a galinha dos ovos de ouro para alguns. E nem me refiro aos altos salários de umas poucas estrelas, essa é outra discussão relacionada com a valorização desmesurada (ou não) dos artistas que fica para uma próxima. O esporte profissional não só cria como amplia suas desigualdades, e também vive frustrando as expectativas do torcedor. E nem sempre pela ausência de conquistas esportivas, mas pela falta de respeito à identidade na que um dia esse torcedor se reconheceu. Das tais frustrações é que surgem as verdadeiras crises e não da perda de títulos. A prova está nas festas para celebrar fugir ao rebaixamento ou outras pequenas glórias. Tem também que no futebol, como um bom aprendiz do drama grego, as crises parecem fortalecer os vínculos.

Edu: Suponho que não tenhamos a pretensão de chegar a alguma conclusão com esta tertúlia, mas como praticar é o melhor aprendizado, no mínimo podemos reforçar algumas convicções, como esta de que o futebol, bipolar como é, vive entre dois mundos, o da fartura e o da persistência, mas não perde a pose. Não é exatamente uma novidade, mas tenho ao menos a pretensão de considerar que enquanto houver persistência, tudo tem solução. Não acho que o fato de existir uma elite de clubes ricaços signifique que eles souberam resolver a questão, principalmente equilibrar os valores financeiros e humanos. Talvez estejam só aproveitando enquanto podem, porque sempre as bolhas vão estourando aqui e ali. Veja o pai de todos os modelos, o do United, que encadeou quatro ou cinco anos de prejuízos inclusive técnicos e, por outro lado, o tal de Anzhi que investiu uma barbaridade e virou um timeco em dois anos. Talvez por isso, ainda vejamos o surgimento de um modelo híbrido, entre o glamour do Barça e o empirismo do Ituano. Quem sabe…

Carles: A grande diferença entre o United-Anzhi e Barça-Dortmund (e o Ituano até prova em contrário) é que os primeiros já passaram por um processo de venda. Esse não é o problema em si, mas sim o fato de que o poder de decisão passa a estar na mão de um sujeito que, de repente, pode acabar cansado do brinquedinho novo. Em comum entre todos eles, a sorte de poderem contar com a persistência de uma massa que sempre está disposta a oferece seu entusiasmo. Essa talvez seja a diferença entre o negócio do futebol e outro qualquer.

 

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