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Ponto para o Bom Senso ibérico

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

30 de janeiro de 2014 | 21h11

Edu: O Bom Senso versão ibérica conseguiu uma vitória importante né?

Carles: Bom, na verdade perdeu. O Racing Santander, time de Segunda B de quem já falamos muito e que chegou longe na Copa del Rey sem dinheiro nem para viajar. Os jogadores tinham ameaçado não jogar a partida de volta contra a Real Sociedad se a diretoria não se demitisse. Veja bem que eles não reivindicavam o pagamento dos quatro meses de salário atrasado. Como não foram atendidos, entraram em campo e ficaram todos abraçados no meio de campo até o adversário jogar a bola fora aos 40 segundos de jogo. O árbitro consultou o capitão que não quis bater o lateral e o jogo foi suspenso, enquanto a torcida vibrava e aplaudia em massa. Comemorando a derrota, porque o Racing acaba de ser eliminado da competição.

Edu: Mas é uma vitória, claríssima. Pelo que andei vendo, conseguiram apoios importantes, mesmo da torcida e da comunidade de Santander. Outros clubes se manifestaram, jogadores se solidarizaram. Essa sim é uma vitória moral incontestável. E afronta o que há de pior no futebol espanhol hoje, os modelos de gestão. Não é isso?

Carles: É uma forma emergente de desobediência civil, essa do futebol, privilegiada vitrine. O pior que a sociedade espanhola tem afrontado são justamente os resultados de gestões desastrosas, de oportunistas despreparados que respondiam pelo nome de empresários e não só no futebol, mas em vários setores, sobretudo nos que permitem a especulação. A vitória de uma associação entre trabalhadores e opinião pública, como no caso do Santander, não é só do futebol. É mais um exemplo entre vários outros, como a dos médicos de Madrid que com suas manifestações e desobediência, seguiram atendendo bem a população e conseguiram frear pelo menos temporariamente, a privatização da saúde pública.

Edu: O método foi o mais oportuno possível, pelo que parece. Os caras ampliaram sua visão crítica para além dos salários atrasados, algo que o pessoal daqui vem tentando no Bom Senso. Às vezes, as lutas meramente salariais se tornam enganosas, porque com algumas migalhas tem gente que se contenta. A maior virtude é justamente mexer com uma doença social que incomoda qualquer setor, daí talvez essa solidariedade de vários segmentos. Ou estou sonhando de novo?

Carles: Não mesmo. Ou talvez sim, mas do que a gente vai viver então? É essa justamente a grande sacada do pessoal do Racing, talvez por ter muito pouco que perder, rebaixado duas vezes e completamente arruinado, depois de ter trocado de presidente como quem troca de treinador. Na verdade, ao se rebelar, a massa de Santander demonstra e deixa patente o que é realmente importante num clube de futebol, seus jogadores e a torcida. E não são só palavras vazias porque, acabe como acabar essa história, esse pessoal já experimentou e comprovou a própria força e certamente não será o último caso nesse estilo.

Edu: Você acha mesmo, pela repercussão que teve o movimento por aí, que pode haver alguma consequência no curto prazo? Ou o futebol midiático da Liga de Las Estrellas vai retomar sua rotina festiva como se nada tivesse acontecido?

Carles: Um  risco muito provável. Os mesmos repórteres que hoje narravam emocionados os 40 segundos de jogo, provavelmente voltarão imediatamente a glorificar os semideuses vestidos de branco ou de azul e grená. Ou todos tentaremos nos convencer que a solução seja a venda do clube a um milionário de algum lugar distante. Com todas essas possibilidades pouco esperançadoras, mesmo assim, nada tira essa do pessoal do Racing, como se diz por aqui “que nos quiten lo bailao”.

Edu: No mínimo, escreveram uma jurisprudência. Isso sempre fica para a história.

 

 

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