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Por uns quilinhos a mais

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

07 de agosto de 2013 | 06h32

Carles: Aproveitando as notícias de que Neymar, já de início, está passando por uns leves problemas de saúde – perdeu sete quilos, obrigado pela alimentação e pela operação de amígdalas, além de ter sido detectada uma anemia – qual você acha que é a maior dificuldade de adaptação para um jovem, com uma educação simples e obrigado a emigrar por contingências trabalhistas, como é o caso da maioria dos jogadores brasileiros contratados por clubes europeus?

Edu: Certamente não será a alimentação o maior problema. Neymar e Barça terão preocupações maiores, como a adaptação à cultura interna do clube, por exemplo, e nos primeiros meses com a adequação a um ritmo de vida com diferenças sensíveis, principalmente quanto a comportamento. Mas Neymar é um garoto bem safo, vivido demais para a idade que tem. Em algumas coisas, como os compromissos fora de campo, acho até que tem mais desenvoltura que o próprio Messi, além de ser um profissional que se ajusta à instituição. Fez isso muito bem carregando o Santos nas costas por três anos. Só espero que ele não pague o mico do seu amigo Viola, aquele que, na terra da paella, disse que detestava a gastronomia local e por isso só comia ‘galletas’.

Carles: Pois é, não é só uma questão de cometer uma gafe ou aparentar que gosta da cultura local para parecer simpático à torcida. É realmente poder levar uma vida saudável, que inclui uma alimentação equilibrada. Ninguém está obrigado a gostar da paella ou da dieta mediterrânea, mas é recomendável ter ou dispor de informação suficiente para não sofrer além da conta com o exílio. Afinal, são atletas e dependem do desempenho físico. Viola não só carecia de um paladar educado, mas provavelmente não tinha ninguém para lhe dizer que os legumes e as frutas por aqui são sensacionais e que podem se encontrar no mercado, todas as variedades de feijões, é só fuçar um pouco. Talvez a carne bovina deixe a desejar, mas imagino que para um nativo praiano como Neymar isso não vai ser um problema, já que existe todo tipo de iguarias baseadas em frutos do mar.

Edu: Hoje em dia, convenhamos, o sujeito come o que quer em qualquer grande cidade do mundo e Neymar, além de tudo, está bem aconselhado por um baiano da gema, Dani Alves, e por um curitibano que vive há tanto tempo aí que até perdeu aquele sotaque de ‘coxa’, Adriano. E obviamente que o Barça vai cercar o garoto de todas as guloseimas, incluindo a inigualável ‘crema catalana’, se for mesmo o caso de ganhar uns quilinhos. Lembro de Paulinho contando como foi sua primeira experiência na Europa, ainda muito jovem, jogando em Lodz, na Polônia. Esse sim teve problemas com a gastronomia local.

Carles: Menos para os muito fechados culturalmente, o tempo cura tudo isso. Mas o impacto inicial é sempre muito importante para o resto da estadia. Certamente, no caso de Neymar, além da viagem, deve ter sido decisiva a absurda pré-temporada “vende camisetas”, da que o até o recém-chegado Tata Martino já se queixou em off. Muitos atos promocionais, muitas horas de voo e pouco treino. Agora eles estão na Tailândia.  É muito susto para um pobre relógio biológico, mudanças do tipo de alimento e até da água. Eu não descartaria a possibilidade de desarranjos intestinais, perdas de líquido…

Edu: Acho até que o Barça teve a ‘sorte’ de ter o Neymar como uma espécie de bode expiatório neste momento, porque provavelmente todo mundo na delegação está mal de alimentação com esse périplo pela Ásia. Você percebe pela fisionomia dos jogadores que, de pré-temporada, essa viagem não tem nada. Ainda sobre a adaptação cultural do Neymar, que é o mais importante nos primeiros seis meses, acho que ele tem a vantagem extra de estar se preparando para isso há tempos e ainda tem os exemplos dos caras que estão aí e também os exemplos não bem sucedidos, como a última etapa do Gaúcho. Nesse ponto, a carreira dele é bem planejada. No fim, talvez as dificuldades fiquem mesmo para a adaptação física e técnica dele ao time, coisa que, para um craque, não têm tanto segredo, desde que haja boa vontade dos colegas e paciência do comando técnico e da direção.

Carles: Em todos os casos anteriores a Neymar, a robustez era mais acentuada. Ele tem esse tipo franzino, no limite da fragilidade, mas que provavelmente está relacionado com o seu jogo brilhante. Essa é outra encruzilhada, a de decidir entre conservar o biótipo e, portanto, garantir a manutenção do seu jogo, e a necessidade, já uma decisão do clube, de que, para sobreviver no futebol europeu, ele precisa encorpar. Provavelmente o estado anêmico, se bem que responde a uma situação pontual, fala muito das carências de ferro na alimentação de Neymar durante toda a vida. Se não chega a ser um problema, pode ser uma preocupação e evidentemente ele tem algumas. Por exemplo, sem chegar a falar explicitamente, ele estava algo estressado com a questão da moradia, de não chegar tarde ao treino, aos compromissos do clube. E celebrou o fato de poder morar perto do Camp Nou, feito um jovem estudante. Mostrou grande satisfação ao dizer que era fácil chegar ao trabalho e que não iria se perder.

Edu: É uma visão estritamente prática e mostra também boa vontade em aprender devagar, analisar com cuidado o terreno onde está chegando. De fato, essa história de ‘encorpar’ dá arrepios por aqui. Sim, ele precisa de mais força, um tanto mais de potência muscular, mas qualquer excesso pode mexer com sua mais brilhante virtude, que é a agilidade no drible e o poder de movimentação. Se ele cair nas mãos de algum gênio da musculação pode complicar e muito.

Carles: Verdade, essa preocupação em não falhar ou decepcionar só fala a favor da responsabilidade dele, mas não deixa de demonstrar um excesso de zelo. E ele deve chegar com toda a segurança possível. Hoje não parava de circular por internet um vídeo amador com uma escorregada literal dele durante uma demonstração promocional. A pressão é evidente e não teria sido uma má ideia ele ficar em Barcelona se recuperando como Simeone decidiu fazer com Villa, no Atlético de Madrid. Agora, pergunte se os patrocinadores iriam deixar, mesmo sendo óbvio que uns dias de descanso beneficiariam todas as partes.

Edu: E uns quilinhos mais.

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