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¿POR QUÉ NO TE CALLAS?

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de outubro de 2013 | 21h45

Carles: Até entendo que as duas seleções queiram contar com Diego Costa, se bem que eu me permito desconfiar do real interesse da CBF nele. Entendo que as duas federações utilizem e esgotem os recursos para pelo menos evitar que o adversário se reforce. Também entendo que Felipão utilize os microfones para fazer sua particular pressão ou até seu showzinho. Só não entendo a aparente indignação por ter sido preterido. Como se Diego Costa estivesse tomando uma atitude absurda ou traindo a pátria.

Edu: Como sempre nesse tipo de atitude, o que parece ser está longe de ser o que é de verdade. O estopim para Felipão começar essa ridícula cruzada para reconverter Diego Costa foi o interesse da Espanha, isso está claríssimo, apesar de ele ter sido convocado há alguns meses. Acontece que o técnico da Seleção Brasileira vive de dar justificativas e, pelo sim pelo não, voltou falar publicamente sobre Diego Costa quando a corda já estava no pescoço. Perdeu o trem da história, porque poderia discretamente ter conversado com o atacante antes e não fez isso. Preferiu, depois do estrago feito, usar suas frases grosseiras para ameaçar o jogador publicamente, jogar a torcida contra ele e menosprezar inclusive a postura de Del Bosque, que sempre foi muito comedido ao falar do atacante brasileiro. Era uma encenação, sim. E até a declaração final estava pronta há tempos, com essa manifestação patriótica de repúdio à decisão do rapaz.

Carles: Inclusive, Del Bosque fez questão de dizer pessoalmente ao Diego que ele tivesse toda a tranquilidade para decidir, enquanto o próprio Felipão reconheceu que não falou com o jogador, que mandou recado através do onipresente Jorge Mendes. Arrisco a dizer que essa grande diferença na postura de um e de outro pode ter ajudado na decisão. Aliás, nem é tão preocupante que Felipão esperneie publicamente, algo que é bastante adequado ao seu personagem. O pior é a repercussão disso e a tensão que pode criar. Mais além da prepotência quase messiânica com que Felipão fala dos jogadores nascidos em território nacional, como se fossem o seu particular rebanho, ele parece ter outorgado a si mesmo o direito de falar em nome de uma nação.

Edu: Mas pelo que tenho sentido nas manifestações por aqui, esse papinho já não tem tanto impacto. Nas enquetes que os portais esportivos estão fazendo e nas manifestações públicas de jogadores e treinadores, a grande maioria considera que Diego fez a escolha certa e que o interesse demonstrado pela Seleção Brasileira chegou atrasado. Não descarto que, durante a Copa, uma ou outra hostilidade ocorra porque sempre há alguns imbecis em todas as partes, mas em geral existe uma razoável compreensão e uma postura bastante madura em relação à atitude de Diego. Felipão não surpreende, mas causou um certo mal-estar a manifestação de Parreira, dizendo que a CBF tem que parar de lutar por Diego, uma conversa com uma ponta de cinismo para quem já disputou copas por vários países.

Carles: Confiemos na sensatez ao menos dos torcedores, muitos deles confessando não saber muito bem quem é Diego Costa, pese a globalização do futebol. E se ele é um desconhecido para o futebol brasileiro, a recíproca é verdadeira. O mesmo não se pode dizer do futebol espanhol, que Costa conhece muito bem. Só isso já justificaria a escolha dele. Assim mesmo, imagino que ele vai ter que provar que tem o dobro dessa personalidade que já demonstrou para poder suportar a pressão dos ignóbeis daí e dos daqui, que na primeiro deslize vão sair dizendo que é porque ele não sente as cores e coisas do gênero. Seres pífios reproduzem-se por todas as partes, aqui, aí e  na Suíça, inclusive.  E alguns deles chegam a ocupar os mais altos cargos dentro do esporte. O que será que essa gente anda bebendo?

Edu: Ao Blatter provavelmente o que faz falta é justamente tomar umas e outras, porque é sempre sóbrio que ele diz as maiores bobagens. Essa de execrar o Cristiano publicamente é o que há de mais repugnante em um sujeito com cargo de comando nesse nível. Uma covardia e uma injustiça, além de tudo, porque o português pode ser um tanto antipático até, mas sempre foi extremamente ético. Além de um tremendo craque. E não se esqueça que na tal lista da Fifa para os melhores do ano está o Felipão. Eles se merecem.

Carles: Ah, Zé, esse cara não estava sóbrio… você viu as imagens? Nem o maior perna de pau merece tamanho desrespeito. Pensando bem acho que é tudo jogo de cena, também. Os premiados já estão decididos e, tanto o futebolista como o treinador eleitos têm casa lá na Bavária e ganharam todos os títulos que disputaram na temporada passada. Até Zidane, o amigo do Franck, já sabe.

Edu: É, ninguém tira essa de Jupp Heynckes e Ribéry. Mas diante de tanta incontinência verbal, temos a obrigação de fazer a Felipão e a Blatter a clássica pergunta dessas ocasiões. Deixo essa honra a você. Com maiúsculas, por favor…

Carles: ¿POR QUÉ NO TE CALLAS?

 

 

 

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