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Portugal é quase só Cristiano. Precisa mais?

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de março de 2014 | 20h44

Carles: É uma sorte para o Real Madrid que o seu craque (e alguns coadjuvantes) disputem a próxima Copa por Portugal? Não que não se trate de uma das grandes, mas me custa imaginar o Paulo Bento pedindo para Cristiano, Pepe e Coentrão jogarem com o freio de mão puxado. Aliás, é evidente que não.

Edu: Com Cristiano certamente essa conversa não cola, talvez com Pepe também não. Quem manda mais no time da Terrinha: Cristiano ou Paulo Bento? Nem no último amistoso – que os patrícios chamam adequadamente de ‘amigável’ – ele se poupou, não faz parte do universo dele. Aliás, apanhou um pouco dos zagueiros de Camarões, mas deixou seus golzinhos de sempre. Se a Copa fosse hoje, Cristiano seria, disparado, o craque mais em forma e mais motivado entre os badalados, talvez ao lado de Hazard, com vantagem para o temperamento latino.

Carles: Apanhar? Já vi o gajo tomar trombada e o agressor ter que sair de maca. Aliás, não falta vigor físico nessa seleção, principalmente graças aos dois madridistas (que pelo menos tratam a bola com mais carinho) e a outro touro da equipa lusitana, Bruno Alves. Isso sem contar o valencianista Ricardo Costa que também não amacia. Falta só um pouco de cabeça para que a seleção portuguesa possa, se não chegar ao título, pelo menos fazer jus à sua quarta posição no Ranking Fifa. Este ano com uma motivação extra, homenagear a memória de Eusébio que muito bem poderia ter conseguido o título em 1966, com méritos e sob o comando do brasileiro Oto Glória, que depois veio treinar o Atlético de Madrid.

Edu: Eusébio primeiro e, logo em seguida, Mário Coluna, os dois que formavam a o núcleo pensante daquela célebre seleção. Quanto aos delicados zagueiros atuais, Pepe ao menos tem recursos técnicos que o transformaram em líder da defesa, mas esse Bruno é um perigo. Pessoalmente prefiro mesmo o Ricardo Costa ou o Rolando, da Inter de Milão. A defesa é um problema no mano a mano contra jogadores habilidosos e os laterais são fracos. Mas o meio de campo também é desigual. João Moutinho dá conta, mas Raul Meirelles e Miguel Veloso são irregulares e às vezes intempestivos, cometem faltas demais. Andaram falando em nacionalizar o brasileiro Fernando, volante do Porto, mas acho que agora é tarde demais. E há o eterno vazio no centro do ataque, Ronaldo está longe de ter um parceiro à altura.

Carles: As possibilidades de que os portugueses do Fenerbahçe, Bruno e Meirelles tenham sua titularidade questionada é praticamente nula. Como você mesmo disse, não parece que Bento tenha a última palavra nesse grupo. Para o futuro da zaga, o Valencia acaba de contratar um prometedor garoto, Rubén Vezo, da seleção lusa sub-19 que dizem, pode ser o novo Varane. Agora, o centro do ataque é um problema crônico da equipa, que ainda hoje tem saudades de Pauleta. Aliás, máximo goleador de todos os tempos até o amistoso contra Camarões, quando foi superado, adivinha por quem?

Edu: Vezo está no mesmo plano de outro garoto, Bruma, do Galatasaray. Esse já fez sua estreia na Seleção Principal, mas seria um risco transformá-lo em centroavante titular na Copa. Por enquanto, talvez eles se virem com Cristiano improvisado no meio e Nani encostando o quanto pode. Mas se precisarem de um centroavante mesmo, espero que o venerável Helder Postiga seja coisa do passado. Hugo Almeida, ao menos, aproveita as bolas altas. Mas ainda acho que Paulo Bento vai privilegiar o meio de campo e colocar cinco jogadores por ali, com Cristiano por sua conta e rico lá na frente, o que não é pouco. Principalmente no jogo de estreia, contra a Alemanha, o técnico deve congestionar a região em que ele atuava como jogador, um volante dos mais tradicionais por sinal.

Carles: Numa segundona, 16 de junho, Portugal entra em campo, bem pertinho de onde os patrícios chegaram pela primeira vez, faz 514 anos. Se não é uma piada do destino, prefiro acreditar na versão do grande ilusionista Jérôme Valcke e suas bolinhas que aparecem e desaparecem diante dos olhos. Quer uma piada mesmo? O jogo de estreia contra a Alemanha de Özil e Khedira está marcado para a 1 da tarde! É isso? Vai um acarajezinho antes?

Edu: Uma da tarde, na Fonte Nova, sob as bênçãos dos orixás. Não sei com que os alemães terão que se preocupar mais, porque, além de tudo, haverá um fortíssimo apoio da galera aos portugueses. Há uma colônia bastante grande no Nordeste, a região é reduto turístico dos mais procurados pelos lusitanos e, lógico, existe uma identificação com o povo baiano que está nas próprias raízes, da culinária à mistura de ritmos, passando pela diversidade racial retratada por Jorge Amado. Joachim Löw vai repartir seus pesadelos pré-jogo entre os estragos que Cristiano pode fazer naquela zaga lenta e a batida renitente e eletrizante de um dos símbolos máximos do lugar, o Olodum. Não descarto uma surpresa logo na estreia, com ou sem acarajé.

Carles: Não me importaria estar na bancada, esse jogo promete. E não só no gramado. No sábado seguinte, mais uma dose de imperialismo, USA em Manaus. Quem mandou colonizar um país-continente? Agora aguenta o tour.

Edu: E para fechar a primeira fase, Gana, na sede do Governo, também à uma hora da tarde. Não é um grupo fácil para os patrícios, mas terão um impulso extra do país-continente, esteja certo.

Carles: Sorte aos vizinhos, pois. E que não tenham que voltar a maldizer a falta dela ou a “injustiça”, como pudemos ler nos lábios de Cristiano na última Eurocopa quando foram desclassificados pela Roja na disputa de pênaltis.

Edu: Um chororô bem ao estilo do gajo da Madeira.

Carles: Consciente do close da TV, diga-se de passagem.

 

 

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