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Poucos favoritos, ‘nonsense’ e uma Copa no meio

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de abril de 2014 | 20h44

Carles: Começa o Brasileirão 2014, parte 1. Já adianto que o que nos interessa mesmo é saber quais as chances do Atlético Paranaense e seu flamante treinador espanhol. Começou bem, jogando em casa, bom, perto… considerando que o adversário era gaúcho e o jogo foi em Santa Catarina, tecnicamente quem é que jogou em casa? E o outro time paranaense também foi jogar por lá, não? É para economizar a Arena da Baixada para La Roja? Ou não ficou pronta?

Edu: Pronta, mas nem tanto. Como já fizeram o tal do evento teste exigido pela Fifa, agora estão nos últimos acabamentos e preferem preservar para Iniesta. Miguel Ángel Portugal começou batendo um sério candidato a fiasco no Brasileirão, o Grêmio. Se bem que num campeonato tão longo, se as providências forem tomadas agora de repente os gaúchos renascem até a reta de chegada. Será um Brasileiro estranho, mais do que em outros anos de Copa, quanto também há paralisação depois de algumas rodadas. Mas, neste caso, o efeito do Mundial em casa pode ser devastador – uma imensa ressaca seja qual for o resultado. De todo jeito, os 12 estádios reformados ou inaugurados são atrações à parte. Mesmo nos estados que não têm times na Série A haverá jogos do Brasileiro, como a estreia do Flamengo, em Brasília.

Carles: O bom do Portugal começou com mão dura, castigando 13 jogadores por indisciplina. Vamos ver quanto demora para fazerem a cama dele. Voltando ao tema das viagens tanto de mandantes como de visitantes, isso sim é vocação globetrotter (ou mambembe). E a torcida, vai junto ou assiste pela tevê? Estrada de terra na boleia de caminhão ou voos low cost? Depois de tanta viagem, até é compreensível que Corinthians e Galo tenham feito um jogo modorrento. Aliás, dois times dos que se esperava algo mais, não? Mano teve tempo para preparar o time ao seu feitio e Ronaldinho de sacudir a poeira por não estar na Copa. E Anelka? Foi um delírio do Kalil?

Edu: Entre um e outro, que versão você compraria? O Atlético tem a desculpa de estar em plena Libertadores, mas não passa de uma desculpa, porque nada justifica a falta de imaginação. E o Corinthians terá que explicar o que treinou neste mês de férias, quais jogadas mirabolantes foram elaboradas. Nada que surpreenda. Não vejo nos dois nenhum favoritismo para o Brasileirão, a não ser que a Copa provoque um tsunami. E essa opção de jogar em outras praças tem lá suas vantagens – para os clubes – na hora do aperto, levam as crises para longe das torcidas, mas não deve ser uma regra. Um jogo em Cuiabá, outro em Manaus, atividades para manter os estádios acesos, mas que não deixam de ser uma atração para o público local. Convenhamos, o Campeonato Brasileiro é um nonsense completo, o que também tem sua graça.

Carles: O venerável dirigente não tive o prazer mas quanto ao Nicolas, nem pensar. Essa aparente desordem tem a sua graça sim, já diria algum general franchute do passado. Falando sério, quais são os favoritos? Só faltava o biônico Fluminense ser o campeão.

Edu: Há dois favoritos óbvios porque vêm da campanhas vitoriosas nos estaduais – Internacional e Cruzeiro. Mas os títulos em si dizem pouco, o que pesa é que foram times que se produziram, o Cruzeiro aperfeiçoando o que deu certo no ano passado e o Inter purgando  umas aberrações dos tempos de Dunga, graças ao prestígio e competência de Abel Braga, que conhece muito bem os bastidores do clube. Não sei se é possível jogar alguma ficha nos paulistas depois do que vimos aqui nos últimos meses – eu não jogaria um centavo. Talvez o São Paulo faça algo, é mais competitivo pelo menos. E o Flu, mesmo capenga e disputando a Série A às custas da pobre Lusinha, ainda tem uma certa consistência e bons jogadores. É o único dos cariocas que pode assustar. Mas insisto: um torneio tão longo e com mais de 40 dias de interrupção, que vai permitir uma intertemporada para tirar coisas a limpo, pode resultar numa imensa loteria. Mesmo os bons times podem sentir negativamente a paralisação e o Cruzeiro, por exemplo, ainda terá que administrar a Libertadores, que também será um coito interrompido.

Carles: Aliás um Inter liderado por – quem diria? – Andrés D’Alessandro! Qual o segredo do Abel? Interpretar uma sinfonia e duas suítes no piano para o argentino entrar calminho em campo? Por certo, contei um total de 47 estrangeiros: 18 argentinos, 9 uruguaios, 8 paraguaios, 3 chilenos, 2 colombianos, 2 peruanos, 2 bolivianos, 1 equatoriano, 1 angolano e 1 espanhol, de quem aliás não temos notícias. A família pede que ele escreva ou telefone.

Edu: Fran Mérida, você diz? Ainda tem vínculo, por um esforço pessoal de Miguel Ángel, mas parece que não é um tipo fácil. Fez uma dúzia de jogos pelo Atlético-PR. A fartura de gringos, principalmente vizinhos do Cone Sul, também tem tudo a ver com a Copa. Teria sido esse o apelo para o Galo tentar convencer Anelka – que, no fim, mostrou que não estava nem aí. Mas, fora o Mundial, o mercado brasileiro para a vizinhança já se consolidou há mais de uma década, essa é a verdade. E D’Alessandro virou uma espécie de símbolo do novo Inter, assimilou um estratégia de marketing para conquistar a torcida e hoje é o queridinho do novo Beira-Rio. Abel, sempre ligado, percebeu o potencial dessa identificação com a torcida e turbinou o futebol do antes intratável Andrés. A sagração de D’Alessandro é um sinal dos tempos. Certamente será um dos nomes de um Brasileirão com poucos grandes ídolos domésticos – basta ver, quantos estão no time do Felipão.

Carles: Turbinou o futebol do D’Alessandro ou o comportamento? Craque ele sempre foi, faltava algo de juízo que, parece, Abel e os anos trouxeram. Já era hora, 33 aninhos. Mas foi uma boa encontrar o Inter pelo caminho. Em Porto Alegre não tem os mimos dos conterrâneos, mas está perto de casa. Sempre temi que a carreira dele acabaria como a de outro temperamental ‘paisano’, o ‘Muñeco’ Gallardo, mas celebro o reconhecimento dessa canhotinha que gostava de ver por aqui nos tempos de Zaragoza. Tem razão, só Fred e Jô jogam a Copa em casa!!! Eles, o Valdívia, o Lodeiro, o Cáceres e algum mais. É o mundo de ponta cabeça!

Edu: Tem também os goleiros reservas do Júlio César, mas aí quase não conta. Serão nove rodadas até a Copa – depois disso, nem Deus sabe.

Carles: Ele joga onde mesmo?

 

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