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‘Prazer, eu sou o Neymar’

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

26 de outubro de 2013 | 18h00

Edu: Se havia alguma dúvida, agora estamos conversados. No grande clássico, máxima expectativa e maior teste de competência, o garoto se apresentou: ‘Prazer, eu sou o Neymar’.

Carles: Estava mais do que apresentado, mas nada como um Barça-Madrid para a consagração. Saiu ovacionado, fez um gol, deu a assistência do outro e obrigou a que Ancelotti tivesse que substituir o “limpador de para-brisas” Ramos, se bem que isso acabou melhorando a fluência de jogo do Real Madrid.

Edu: Das sandices de Ancelotti, falo daqui a pouco. Primeiro, vamos deixar claro que Neymar foi excessivo, jogou muito (Iniesta também), no dia em que Messi nada fez. Poucas vezes o argentino esteve tão ausente, o que ressalta ainda mais o partidaço de Ney. É algo que prevíamos há alguns meses quando ainda não estava fechada a transferência para o Barça. Neymar conseguiu, com seu rapidíssimo encontro com o espírito desse time, revalorizar outros eixos de jogo. Não se trata mais de fechar o meio de campo e neutralizar Messi para tentar parar o Barça. Agora, é preciso olhar para aquele lado esquerdo com atenção redobrada. Ali está o inferno das defesas.

Carles: É, mas em favor do argentino é bom ressaltar uma maior generosidade do que de costume, se não com a bola, nas atitudes. Esteve mais integrado com a equipe, talvez porque sinta uma certa carência física. O posicionamento de Neymar, além da própria ameaça, significa repartir a atenção, sem dúvida. Foi o clássico de estreia e provavelmente vai ser lembrado como o clássico de Neymar, um argumento forte demais para tentar contestar com Bale. Pobre galês, podia até ser uma boa contratação, mas Florentino se empenhou em fazer fracassar.

Edu: Bale foi só um dos equívocos, mas nem foi o principal. Ancelotti me lembrou aqueles técnicos desesperados para mostrar serviço que resolvem experimentar um esquema inusitado, mas não se dão conta de que é o dia da decisão do título. Sérgio Ramos de volante, Di Maria revezando como centroavante com o galês… e outras bobagens do Professor Pardal. Só acertou com Carvajal, porque com Arbeloa o desastre talvez fosse pior. Se bem que, para Neymar, se não tem Arbeloa, vai com Carvajal mesmo. Ainda assim, vi um imenso esforço desse time do Real Madrid para equilibrar, buscar a reação. Como o grupo fica meio sem pai em campo, o esforço é redobrado, tudo é muito mais difícil e nada sai naturalmente. Mas mesmo assim o time se superou e ameaçou muito. E, claro, ficou sem um pênalti que o juizão ignorou…

Carles: Prefiro não discutir o pênalti, se não deixaremos de falar de outras coisas. Só digo que Cristiano é um craque, para tudo. Depois assista com calma e em câmera lenta o movimento do braço, e depois o da perna de Mascherano. E se você se refere à possível mão de Adriano depois da defesa de Valdés, essa nem vou levar em conta. A ideia do italiano era que Ramos cuidasse só de interromper as famosas tramas entrelinhas, tanto que ele justificou a escalação com a palavra “equilíbrio”. Equilíbrio defensivo é um termo absolutamente vazio de significado que se usa na primeira semana do curso de treinadores. Mais do que volante, Ramos entrou numa linha extra entre os zagueiros e os volantes. Foi uma concessão para poder escalar justamente Carvajal e tentar liberar o Marcelo que tanto ele vem tentando segurar. A demonstração é uma jogada no inicio do segundo tempo em que Cristiano procura o lateral com um passe de calcanhar e, estranhamente, o brasileiro não tinha seguido a jogada. Com tantos ‘blancos’ no meio campo, Modric, o menos burocrático, acabou fazendo uma grande partida, o melhor do Madrid.

Edu: O pênalti em questão, o de Mascherano, de fato não admite discussão, foi um empurrão ruidoso pelas costas em Cristiano, visto e revisto em meia dúzia de câmeras. Nós sabemos, depois de tanto tempo aprendendo com o futebol, que isso nem significa que o jogo seria outro, que seria a remontada do Madrid. Até acho que não. Mas ali Cristiano não tinha como simular porque estava de costas para o marcador e foi surpreendido pelo empurrão. Quanto a Modric, sem a menor dúvida, foi um monstro, por ele, por Khedira e pelo pobre Ramos, perdidinho naquela posição. E Marcelo, se a questão é estar preso por ordem do treinador, então chegou a hora da autogestão, de se soltar por conta própria. Ele só precisa ser um pouco mais transgressor, como Dani Alves, porque sua técnica é muito superior. Dani, aliás, fez um bom jogo também.

Carles: Os grandes jogadores, quando percebem que perderam o ângulo e sentem o menor contato, imaginam que não é a mãe trazendo um chocolate quente… Marcelo é um grande jogador, espontâneo, mas não é, nem de longe, uma sumidade para assimilar instruções. Tomou tanta dura para não avançar e de repente vem o homem e libera? Ele está até agora tentando entender. E já que estamos repartindo méritos, Busquets foi, mais uma vez, a eminência parda do jogo, formando uma linha consistente com Xavi e Iniesta. Sérgio recuperou um milhão de bolas e em seguida tinha um dos dois ali pertinho, para iniciar a jogada. E tem ainda a grande jogada de Tata. Um passarinho me contou que Cesc ia entrar de falso centroavante, mas quando soube que o Madrid ia sair com três centrais, tirou Fàbregas de lá. Para que mais gente atrapalhando? Além disso, acabou dando mais mobilidade ao Barça e confundindo um sistema de marcação tão estático como o montado por Carlo.

Edu: Continuo achando que Cesc atrapalha também a fluência ali no meio, mas dá para entender a solução do Tata. Independente do que houve em campo, um jogo elétrico e com todos os ingredientes esperados, uma pergunta vai seguir pairando durante os próximos dias, algo com que mesmo a imprensa de Madrid está encafifada pelo que andei lendo depois da partida: quem escalou Bale?

Carles: Boa pergunta

 

 

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