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Pressing, ou como fugir da mesmice

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de fevereiro de 2014 | 20h56

Carles: Desconfio que o marasmo tático do futebol brasileiro está chegando ao seu fim. A enganação dos senhores que se dizem preparadores técnicos não pode nem deve durar muito mais. E falo baseado no jogo Palmeiras-Corinthians que assisti neste final de semana e em que os dois times mostraram noções nulas de posicionamento e sistema de pressão sobre o adversário. Ficou mais evidente quando não tinham a posse de bola e os jogadores ofereciam uma participação tática rudimentar e inútil.

Edu: Você sabe que existe uma deficiência crônica de criatividade/qualificação que assola a maioria dos treinadores brasileiros. É quase uma doença social que aliada ao medo de perder o emprego vira uma epidemia. Os técnicos deste país, mesmo com jogadores tão excepcionais, têm pavor da palavra pressing, da noção de pressing. Pressing é um conceito que exige ousadia, correr riscos e muito trabalho. Desses três quesitos, os técnicos brasileiros preenchem apenas um, justiça seja feita: trabalham bastante, só que trabalham errado. Pressionar é o mesmo que atacar sem a bola, qualquer garoto que aprende a jogar futebol no interior da Noruega ou no Cantão chinês sabe disso. E o pior é que, no caso dos técnicos brasileiros, nem os grandes exemplos de sucesso da história do pressing  são capazes de convencer a classe. Esse jogo de domingo entre dois dos maiores times do país ilustra com perfeição essa ideia.

Carles: A gente já falou disso aqui outras vezes. O mais curioso é que eu já vi treinadores de escolinhas de garotos no Brasil utilizando métodos de pressão associada, com combinações alternadas de todos os jogadores, com deslocamento contínuo para formar as engrenagens variáveis, essenciais para não deixar o adversário cômodo em nenhum momento do jogo. Alguns meninos até entendiam, inclusive porque é nessa idade que se pode começar incutir a ideia de mecanização de movimentos, mas imagino que seja demasiada humilhação para um craque, ter que trabalhar sem bola. Ou até quem pense que seja uma perda de tempo.

Edu: Não vejo que o problema esteja nos jogadores, sinceramente. É uma cultura mal arranjada e os jogadores entram nessa, porque aprendem assim, aprendem errado. Já vimos aqui modelos de jogo muito semelhantes ao pressing europeu, com as devidas ressalvas, o último foi o do Corinthians nos bons tempos de Tite (só nos bons tempos). Era trabalhoso, exigia muito do time, mas funcionava. Era tão trabalhoso que os jogadores ficaram esgotados e o esquema fez água depois de um certo momento. Por isso que a maioria opta pela preguiça e pelo medo. Você tentar recuperar a bola no momento em que perde a posse é um massacre físico e tanto, exige além de tudo trabalho em grupo, porque ninguém pode romper a corda, é uma pressão psicológica também. Mas funciona, todo mundo sabe disso, só que prefere correr para o campo de defesa assim que a bola passa para os pés do adversário. Troca a pressão por passividade.

Carles: Em campo, a diferença está justamente entre o combate passivo e o ativo. Mas a grande diferença, você tem razão, é o trabalho que dá para preparar os times, com os titulares, e com cada peça eventual. Daí acostumar cada um a realizar movimentos combinados cada vez com diferentes parceiros para a pressão, a recuperação e ataque da forma mais rápida possível. Foi essa proposta que elevou Guardiola à condição de divindade no Can Barça, mas, há quem diga, também foi o que começou a fazer romper sua ligação com o clube, pois algumas estrelas se cansaram de tanto trabalho sem bola. É o que se ouve pelos corredores. Melhor para ele que juntou a fome e a vontade de comer em Munique.

Edu: Como herdeiro do ideário de Cruyff, que esteve no modelo de pressing mais badalado da história, o da Laranja Mecânica, Pep é sempre o primeiro que vem na lembrança e com todos os méritos. O Barça faz isso ainda hoje, mesmo com outro esquema tático, porque seus jogadores estão de tal forma condicionados desde os tempos do Pep que pressionam com naturalidade. Mas há muitos modelos de sucesso. A Hungria de 1954 foi fonte de inspiração para Rinus Michels na própria Laranja Mecânica e Arrigo Sacchi fez algo muito parecido no Milan do final da década de 1980. Marcelo Bielsa é outro que é adepto. E há times pequenos que também fazem sucesso quando se aventuram por essa trilha. Vi o jogo do fim de semana em que o Espanyol quebrou a invencibilidade do Athletic Bilbao em seu campo, na Liga, e fique impressionado com o ritmo alucinante de pressão do time catalão. Não é a primeira vez que o mexicano Javier Aguirre faz isso com as equipes que dirige.

Carles: É sempre mais complicado para um time pequeno manter esse ambicioso mas essencial sistema de combate ao adversário. Porque se, a primeira vista, o mais importante é o sistema de pressão sem bola, de nada vale o desgaste de não deixar o adversário respirar, se não se lhe soma uma grande e rápida capacidade de alimentar o ataque e encontrar com rapidez os companheiro em condições de reverter a ameaça. E, para isso, são necessários jogadores de qualidade. Não que os times menores não possam ter esse talento, o mais complicado é mantê-los no final da temporada ou mesmo no mercado da metade do curso. Também é muito complicado para o treinador desses times convencer os seus jogadores a tamanho sacrifício para acabar numa zona intermediária da classificação. Outro célebre exemplo de um time não tão pequeno, mas vendedor compulsivo das estrelas é o Dortmund que chegou a todas as finais na temporada passada, dirigido por Jürgen Klopp, que segundo alguns, representa a essência do gegenpressing, versão alemã do counter-pressing.

Edu: Mesmo assim denota um traço de cultura e é a isso que me refiro. É oxigenante ver um time pequeno partir para esse tipo de surpresa. Acontece só eventualmente por aqui, é mosca branca. E para provar que jogador brasileiro sabe fazer isso, aí estão Dani Alves, Paulinho, Luis Gustavo, Ramires e, ultimamente, até Neymar. Se Felipão teve algum mérito até agora foi o fato de introjetar um pouco que seja dessa proposta na Seleção. Falta muita ousadia ainda, porque a opção é por marcar sempre atrás da linha da bola, não se caracteriza exatamente um pressing. Mas é um começo e a Espanha sentiu na pele naquele episódio do Maracanã.

Carles: Inevitável pensar em autogestão naquele jogo. E pelo significado que teve é provável que possa vir a ser o ponto de inflexão do futebol brasileiro na questão tática. Só não entendo por que os clubes demoram tanto para acordar, muitos deles vivem momentos melancólicos e não teriam muito a perder com uma pequena revolução. Digamos que o sistema de marcação por trás da linha da bola é o primo pobre do pressing – sem mudanças drásticas na forma de associação com e sem bola, procurando abrir o campo ou juntar as linhas respectivamente, sem descanso -. Inclusive, com o pressing não vale a desculpa de que determinado jogador não sabe marcar, porque o que conta são as formas de associação, o automatismo para recuperar a posição de forma que o adversário que tem a bola não disponha de tempo nem de espaço para sair de um sem receber a imediata pressão de seguinte. Neymar por exemplo, parece estar aprendendo e vimos como ele, no Barça, cometia algumas faltas absurdas ao tentar participar do pressing.

Edu: Em junho – acho que concordamos nisso – veremos alguns bons exemplos aqui. Voltaremos certamente ao tema.

 

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