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Primeiro título de Neymar e Tata, com Messi ausente

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de agosto de 2013 | 06h25

Carles: Satisfeito? Neymar titular e campeão da Supercopa. Só espero que agora as queixas não venham de Fuentealbilla.

Edu: Iniesta no banco. Continuo sem entender Tata Martino, aliás, ainda não consegui ver a mão dele no time. Ninguém jogou bem no Barça e o Atlético fez o serviço direitinho.

Carles: Como ninguém jogou bem no Barça? Víctor Valdés, um gigante!!!! Iker ameaçado também no seu posto na Roja. Muito bem armado o time do Cholo, sim, compacto, fechado e muito combativo, saindo rápido quando ganhava a bola, e não foram poucas vezes. Segue sendo um sério candidato ao título de Liga.

Edu: Verdade, Valdés foi o cara do jogo. E Neymar não foi essa decepção toda, não, acho até que no primeiro tempo foi o único que tentou algo diferente. Só que jogou muito longe de Messi, que mais uma vez esteve ausente e não só pelo pênalti perdido.

Carles: Messi esteve longe de tudo e de todos, do gol, da torcida, do seu habitual futebol e até dos companheiros e não só durante o jogo, antes já, na apresentação com os dois times enfileirados, cabisbaixo e ostensivamente distanciado do Dani que, este sim, estava encostadinho no Neymar. Durante o primeiro tempo, o brasileiro foi o melhor atacante do Barça o que, convenhamos também não era difícil diante das apresentações lamentáveis de Messi e Alexis. O problema dele segue sendo o cai-cai, só que hoje, a dificuldade foi com o gramado. É bom ele saber que o Barça sempre manda regar o campo antes do jogo e no intervalo, inclusive consegue que façam isso em alguns dos campos que visita. Um inconveniente tendo em conta as jogadas de Neymar baseadas na variação de velocidade, nas paradas repentinas e mudanças de direção…

Edu: Há algum tempo era uma impressão, hoje é uma certeza: algo há com Lionel Messi e nada tem a ver com Neymar. É com ele mesmo, seu relacionamento com os colegas, seu estado físico, sua motivação. E esse isolamento é concreto. Nestes dias, espalharam por aqui uma reportagem de um jornal digital, El Confidencial, com sede em Madrid, que eu desconhecia a existência e nem sei se é sério. Na matéria, Messi era acusado de tratar de forma impiedosa os novatos do Barça e humilhar Alexis. Não sei se há algum interesse em minar o ambiente do Barça, principalmente com algo vindo de Madrid, mas quando essas coisas começam a se repetir e o time não responde em campo, fica claro que pode haver problemas sérios no vestiário.

Carles: A intenção de minar sempre existe, mas também desconheço a veracidade dos fatos revelados nessa reportagem. Víctor Valdés, está confirmado, rompeu com a diretoria. Quanto a Messi, se tivesse que opinar, diria que ele nunca foi um modelo de sociabilidade, mas agora existem indícios de seu definitivo isolamento. Aparentemente o único amigo dele no vestiário é o goleiro reserva, Pinto. Nem Cesc parece tão próximo como no início das férias. Detectam-se problemas de relacionamento e o argentino parece permanentemente mal humorado, frustrado com o próprio desempenho. Durante a temporada passada, todos os jogadores do plantel ‘culé’, sem exceção, em alguma entrevista disseram que ele era o grande responsável pelas conquistas do Barça, que era único, o melhor jogador do planeta. Intencionalmente ou não isso acabou criando uma enorme responsabilidade que ultimamente o argentino parece ter dificuldade para suportar. Tem-se mostrado incapaz de responder a todas as pompas, seja no campo ou nas relações interpessoais. E não necessariamente nessa ordem.

Edu: Além da questão do desempenho pessoal do próprio Messi, que parece abatido até mesmo com a história do fisco, temos aí dois dilemas imediatos: como Neymar vai conseguir se manter longe da turbulência neste  momento inicial e de que forma o Barça precisa jogar para aliviar a pressão sobre Messi. No caso de Neymar, deu algumas impressões de que vai tentar se impor, assumir seu jogo mesmo que cometa erros durante a adaptação. É um ótimo sinal. Mas, quanto ao time, não vejo nada muito claro. A falta de imaginação do fim da temporada passada é a mesma de agora e aquela fluidez das jogadas pelos lados ou mesmo as tabelas centralizadas são cada vez mais escassas. Ainda mais contra adversários que fazem bloqueios tão inteligentes como este mostrado pelo Atlético.

Carles: É mais do que provável que o Barça de Tata não tenha muito a ver com o Barça de Pep (nem o Bayern de Pep terá, pelo jeito). Mas ou ele é um grande ator ou realmente já tem tudo planejado e o mínimo que podemos oferecer é a nossa confiança além de algo de tempo (já que a pré-temporada foi um desperdício) para que possa armar o seu time, com a sua identidade. Provavelmente sem a mesma fluidez do Barça que cativou todo mundo, mas, em compensação, com uma maior variação de jogo. O problema disso é que, provavelmente, o Barça de Martino será mais banal, mais terrenal se parecerá menos a aquela verdadeira orquestra dos tempos de Guardiola. Melhor para os grandes solistas, como Neymar.

Edu: Se você está dizendo, eu acredito. Mas até agora não consegui identificar nada desse padrão, nem mesmo de um jogo banal. O time começou a temporada igualzinho como acabou a anterior, no aspecto tático. E individualmente está longe do ideal, daí o fato de ser inexplicável deixar Iniesta no banco em um jogo que vale troféu. Que técnico do mundo deixaria Iniesta fora numa situação destas?

Carles: Olha, eu vou ser o primeiro a pedir uma camisa de força para o simpático Tata se ele deixar de fora os jogadores importantes nos encontros decisivos. Por enquanto, ele pode se dar ao luxo de ir alternando esses valores, principalmente porque não tem porquê ter nenhuma dúvida sobre a qualidade individual deles. Sua prioridade é procurar padrões tático e de jogo. Para isso, é mais interessante escalar especialistas nas posições do que escolher os 11 melhores e depois distribuir as camisas titulares. Num elenco de craques isso pode ser feito tranquilamente, mas o que Tata quer agora não é escolher titulares, mas encontrar um sistema onde, no futuro, possa posicionar os seus escolhidos e então sim, começar a variar sobre uma base estabelecida. Pelo que eu ouvi, ele é um pouco doente sim, mas a doença dele é a metodologia obsessiva.

Edu: Podemos até estabelecer um pequeno prazo: mais quatro jogos da Liga e a estreia na  Champions, o que dá pouco mais de um mês. Se até lá não conseguirmos perceber um pouco que seja do ‘Padrão Tata’, já prevejo movimentos sísmicos no Camp Nou.

Carles: Eu tenho uma contraproposta, já que o seu indicador é a satisfação na morada blaugrana. O prazo pode até ser um pouquinho maior, se os resultados, mesmo acanhados, não fizerem o time despencar na tabela de classificação. Caso contrário, sem jogo bonito e sem pontos, aí a casa cai.

Edu: Fechado.

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