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Procura-se um goleiro que não cometa disparates

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de janeiro de 2014 | 10h29

Edu: Não são bons tempos para uma posição que você conhece bem, a de goleiro. Tanto é que grandes seleções ainda vivem de veteranos, como o imortal Buffon e também Casillas, que nem titular no time dele é. Há alguns outros que se destacam – Neuer, Valdés, Lloris e os holandeses, mas nada do outro mundo. Só que uma das favoritas para a Copa está numa situação que eu diria dramática. Sabe quem né?

Carles: Imagino, mas também é certo que vocês já foram campeões tendo lá trás gente bem medíocre. Suponho que Felipão, Parreira & Cia. já contam com isso. É só não convocar o Felipe Melo. Aí sim seria uma combinação perigosa.

Edu: É o tipo da estatística factóide que o mundo do futebol sempre aprecia: se aconteceu uma vez ou outra, então pode acontecer de novo, tenha ou não um mínimo de lógica. Todo mundo vai lembrar dos mesmos – Félix, Taffarel, Marcão (que só tinha mesmo a confiança da torcida do Palmeiras). E ninguém mais recorda dos milagres que Leão fez em 1974 e 1978, nem da grande atuação de Dida na Alemanha/2006. Mas, particularmente, poucos momentos foram tão ruins para os goleiros brasileiros quanto este. Não é que não existam bons goleiros. Não existem, hoje, goleiros minimamente confiáveis. Basta ver quem é, até segunda ordem, o titular do Felipão.

Carles: Acho que vai ser o Julio César mesmo, não acredito numa reviravolta, a não ser que já exista uma perspectiva, uma grande revelação, ou, melhor ainda, algum nome que a grande imprensa já tenha escolhido como favorito da corte. Existe esse nome? Quero dizer, vocês não gostam da escolha do Felipão, mas têm alguma proposta alternativa de garantias mínimas?

Edu: Sabe quantas partidas Júlio disputou nos últimos sete meses? Três. Dois amistosos completos pela Seleção e um jogo oficial pelo Queens Park Rangers (tomou de 4 a 0), na Segundona inglesa. Menos jogos que Casillas, que é reserva. Será que Felipão e Parreira vão bancar esse risco numa Copa disputada em casa, com obrigação de vitória? Quando era um dos melhores goleiros do mundo, campeão italiano e europeu, Júlio aprontou aquilo na Copa da África. Não, não vejo condição de os dois técnicos manterem essa aposta. Seria uma roleta russa. Mas também não existem outras alternativas, você tem razão. É só você fazer uma pequena pesquisa aí na Espanha, perguntando que goleiros brasileiros são minimamente candidatos a uma vaga na Seleção. Além do Júlio, certamente serão citados o seu vizinho Diego Alves e, quem sabe, Hélton, do Porto. E olhe lá.

Carles: Acho que se eu fizer essa pergunta por aqui, o pessoal vai responder, ‘ah, mas tinha alguém no gol do Brasil na final da Confecup? Não era o David Luiz?’ Foi ele quem defendeu a único tiro perigoso da La Roja, de Pedro. Qualquer adversário do Brasil só pensa no Neymar, no Paulinho, no Fred, no Oscar, no Hulk. Com tamanha preocupação, quem pensa no goleiro? Afinal, o maior massacrado da história do futebol brasileiro, Barbosa, era um goleiro de garantias e acabou crucificado. Além do mais, perece-me que o Julio César é a essência da família Scolari, lembro bem das fotos dele recebendo a Copa das Confederações, acompanhado dos filhos. O maior problema, me parece, é que ele não está na melhor forma física. Li que ele arrasta uma contusão crônica nas costas e, daí sim, a obrigação de pensar num substituto.

Edu: Ele nem foi tão mal na Confecup e fez duas ótimas defesas naquele jogo contra a Espanha em chutes de Villa e Pedro no segundo tempo (não me estranha que você não se lembre dos detalhes daquele dia). Mas vinha de uma temporada como titular do QPR na Premier League. Nem sei se esse problema nas costas ainda existe, só que, no atual momento, a menos que vá para um time de ponta na janela de transferências, é praticamente um aposentado que pratica com os amigos de vez em quando. Seria de uma teimosia patológica manter o sujeito como titular na Seleção anfitriã da Copa. Família tem limites.

Carles: Verdade, fiz questão de esquecer daquele jogo. Mas, falando sério, mais do que uma questão de teimosia do chefe do clã, detecto um problema de formação mesmo. Se vivemos a era das escolinhas, dos estratosféricos centros de treinamento e das grandes oportunidades de mercado, como se explica que não tenha surgido ainda um gênio que tenha detectado a chance de cobrir esse buraco negro, garimpando garotos com potencial e dedicando especial atenção à formação de profissionais competentes para a única posição que se transformou no faz-me-rir do futebol brasileiro? Definitivamente é um problema de base, mesmo que agora, a urgência seja de craques feitos, com certa experiência e segurança. Mas uma hora ou outra, há de se começar a pensar mais do que no presente, no futuro de uma posição historicamente desprezada no Brasil. Concorda que é esse o verdadeiro problema?

Edu: Claro que é, evidente que está na base o segredo de tudo. Ainda mais num país que sobrevaloriza os atacantes, o que não deixa de ser um traço agradável. Os goleiros que temos hoje nos grandes times são a prova viva disso, porque fazem grandes campeonatos, ganham jogos com milagres em sequência (veja Victor, Jefferson, Cavalieri, Cássio), mas são principalmente irregulares, ciclotímicos, algo que pode ser até aceitável em um volante ou um lateral, mas nunca num goleiro. Só pode ser uma questão de formação mesmo, o que se agrava se ressaltarmos as crueldades próprias dessa posição.

Carles: Estamos de acordo, a regularidade é imprescindível, mas em qualquer posição, em qualquer profissão, aliás. E a regularidade não se consegue só com talento puro, mas com a preparação, com aperfeiçoamento e trabalho de melhora dos pontos fracos. Isso só acentua que o problema é de falta de planejamento, de previsão a médio e longo prazo. Na verdade, não é só um problema dos goleiros, mas, acho, segue sendo o grande problema do futebol brasileiro que, como você diz, vive do talento natural dos atacantes e da memória esportiva que releva as falhas diante de umas quantas jogadas geniais. A prova está justamente em jogadores como Oscar, que conseguiu ampliar o seu repertório depois de deixar o país. Um talento indiscutível, mas que está a ponto de se converter num jogador completo, graças a uma preparação que, ou muito me engano, não teria recebido no seu país.

Edu: O certo é que, por aqui, o problema dos goleiros é bem mais grave do que de outras posições que dependem de uma boa base. E como não vamos resolver o problema da base em seis meses, o negócio é confiar nos zagueiros para a Copa. E procurar um goleiro que, ao menos, não cometa nenhum disparate. Não sei se é pedir demais.

Carles: Vai me deixar curioso de quem é o seu favorito ou acha que esse é um problema do Felipão?

Edu: Não tenho favorito, essa é a verdade. E claro que o problema é do Felipão, ele que se vire.

 

 

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