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Procura-se um Plano B para Fred

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de janeiro de 2014 | 21h32

Edu: O técnico da Seleção Brasileira, como você sabe, tem fixação em volantes, mas também não abre mão de um centroavante daqueles tradicionais. Fred veio a calhar na Confecup porque tem experiência, boa movimentação e faz outras coisas como atacante com certa fluência, além de ter o apoio incondicional de Parreira e de ter virado uma espécie de tiozão para garotos como Neymar e Oscar. Só que Fred não joga desde o final de agosto e não teve nenhum rompimento de menisco ou lesão de ligamento. Arrasta uns problemas musculares que na temporada retrasada já o tiraram do time do Fluminense por meses. A questão é: como estará Fred, que não é nenhum garoto, na Copa? Enquanto ninguém tem condição de responder, o negócio é procurar por uma alternativa, já que Felipão perdeu Diego Costa definitivamente e Jô, para ser sincero, não joga há tanto tempo quanto Fred, só que não teve contusão nenhuma.

Carles: O Jô não jogou de fato, você quer dizer? Porque entrar em campo, ele entrou… Curioso que, faz uns meses, apostávamos por que fosse “La Roja” a time que fosse abrir mão do tradicional centroavante de referência, pela falta de opções fiáveis para Del Bosque. Agora, Diego Costa e Negredo, ambos em grande fase, disputam a posição, e devem ser acompanhados talvez por Villa, que também é mais homem de área do que meia ou ponta. Enquanto isso, o soco na mesa de Felipão – a falta da mão esquerda, como se diz por aqui – na luta por Costa, somado à fidelidade ao sistema da família Scolari, pode fazer com que seja a seleção brasileira a que tenha que resolver seus problemas de ataque com Neymar, Robinho, apoiados por Bernard, Oscar, Ramires e Paulinho. Sem um 9 autêntico. Ou existe algum nome emergente que possa fazer a torcida esquecer do Fred, caso não dê para ele mesmo?

Edu: Ninguém emergente, só antigas esperanças de renascimento, como Pato e Damião. E põe esperança nisso. Jogar sem um 9 autêntico com Scolari? Pode esquecer. Nem que ele tenha que reabrir a briga com a Espanha por Diego Costa ou tirar algum atacante da manga, como o flamenguista Hernane, motivo de um lobby gigantesco dos cariocas para ter uma chance na Seleção.

Carles: Olha, apesar da pressão sobre o Diego Costa por parte de algumas torcidas adversárias do Atlético de Madrid que passam os jogos gritando que ele não é espanhol, só vejo a possibilidade de reconsiderar se for vendido para algum clube fora da Espanha. Propostas não faltam. Times grandes de mais de meia Europa querem o lagartense. Foi o próprio Diego quem com toda tranquilidade, melhor definiu essa situação garantindo que os que hoje xingam, serão os primeiros a vibrar e aplaudir os seus gols com a camiseta nacional. Portanto, é mais provável um Plano B mesmo, as ressurreições de Damião ou Pato, este tampouco um centroavante típico, mas que poderia fazer as funções de Fred, ora pivoteando, ora finalizando. O problema é que não acredito que essa fênix possa ressurgir. Mais alguém além do Hernane ou o centroavante é uma espécie em extinção também nos clubes brasileiros?

Edu: Centroavante todo mundo tem, mas diferenciado não existe nenhum. Tanto que a sensação do Brasileiro, mais até do que Hernane, foi Ederson, do Atlético Paranaense, que fechou o ano como artilheiro. Ele andou perambulando por times como Ceará e ABC de Natal até fazer essa temporada especial. Se você imaginar que um centroavante dos novos tempos precisa sempre de algo mais estimulante do que ser um finalizador tradicional, então, aí fica ainda mais difícil. Essa talvez seja a explicação para tanta esperança que foi depositada em Alexandre Pato, que um dia pareceu ter todos os atributos, mas ficou só na aparência. Hoje, acho que Felipão acredita mais em Leandro Damião, que pode até dar uma revigorada agora que foi contratado pelo Santos. Quanto ao Diego, esquece. Aqui ninguém mais tem ilusão sobre ele, é um espanholito mais e ponto final.

Carles: Inclusive Costa parece empenhado em melhorar o seu castelhano, outro sintoma. Pois é, parece que o futebol já não tem lugar para aquele cara que ficava a maioria do jogo inativo, esperando sobrar uma chance. E Pato, em tese, dispõe das condições ideais para ser esse jogador completo, que ocupe a posição de máximo avançado. Nem acho que o problema dele seja futebol, mas que já faz tempo, deixou de ser jogador para virar uma marca. E o maior convencido disso foi ele mesmo. Aí fica difícil. Uma ideia para o Felipão resolver o problema ao mesmo tempo que pode se vingar: oferecer a nacionalidade para o Jesé ou o Morata. Mas falando sério, por que não tentar reavivar aquela dupla que jogava por música na seleção de juniores faz alguns anos atrás: Neymar e Philippe Coutinho que está numa grande fase no Liverpool?

Edu: Fazer um time mais leve do meio para a frente seria mesmo a grande alternativa, com ou sem falso 9. Mas aí esbarramos nas convicções da comissão técnica, na verdade, nas suas limitações. Felipão e Parreira provavelmente não encontrariam uma fórmula para a leveza de Oscar, Ney, Philippe Coutinho, William, Bernard e outros. São dois técnicos que chegaram até aqui com um repertório de explorar bolas levantadas em escanteios, cobranças de falta das laterais, jogadas de linha de fundo. Com os habilidosos na frente, essa proposta sobrecarregaria os zagueiros e o pobre do Paulinho, que já anda sacrificado demais. Tenho certeza de que uma fórmula mais leve inclusive surpreenderia a maioria dos adversários europeus, mas essa á uma ilusão que já perdi.

Carles: Pelo que eu entendi, no caso dessa comissão técnica, a lousa não é um instrumento de apoio, mas o mundo real. Olha, como adversário, eu ia ficar bem preocupado de enfrentar um time com essas feras.

Edu: Daria gosto, não tenho dúvida. Mas, por enquanto, a única ‘novidade’ dessa história veio do próprio Fred. Com muitos quilos a mais, ele garante que, enfim, se recuperou totalmente e que em dois meses estará tinindo como nunca. Só pagando para ver.

Carles: Seria uma dor de cabeça a menos para a dupla dinâmica.

Edu: Seria?

 

 

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