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Proibido para cardíacos

REVIRAVOLTAS E DRAMATICIDADE NO MATA-MATA

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

29 de junho de 2014 | 22h28

Edu: Especulou, dançou. Eu daria esse título para a aventura mexicana no Mundial, uma seleção que vinha muito bem até os últimos 30 minutos contra a Holanda. ‘Piojo’ Herrera tinha o jogo na mão, mas afinou e pôs o time todo atrás. Deu nisso. No fim, mostrou sua versão Felipão e saiu disparando contra o árbitro. Mais um final de partida de deixar os cabelos em pé, como foi, aliás, o jogo seguinte, com Los Ticos, exaustos e com um a menos, buscando a vaga histórica nos pênaltis com a estrela do goleiraço Keylor Navas. É uma Copa, definitivamente, proibida para cardíacos.

Carles: Basicamente, a diferença entre México e Costa Rica, que tomaram gol no último minuto, foi que os mexicanos tinham os onze em campo e adotaram o “amarrategui” por opção, faltando mais de meia hora de jogo e dando asas logo para quem… estava escrito, só não achei que os orange fossem resolver pela via rápida. Está claro que no fundo, o ‘Piojo’ e o Felipão seguem a mesma escola. O último jogo da noite não teve muito futebol, considerando a definição original do termo. Por outro lado, a forma como gregos e costarriquenhos bateram seus pênaltis é digna de um vídeo para que o Felipão e o Sampaoli possam mostrar várias vezes aos respectivos times. Falando em futebol, jogada já a metade das oitavas, por enquanto só uma das seleções mostrou algum… será o nervosismo? o calor? o nível de comoção do adversário?

Edu: Essa uma que mostrou futebol é a Colômbia, imagino. No caso da Holanda, talvez seja mesmo pelo clima. General Van Gaal foi obrigado a mudar três vezes o sistema de jogo para superar a agonia, o que dá uma certa inveja: eles têm três sistemas que podem usar em um jogo só, enquanto a Família Scolari não emplaca um sequer. Mas, a rigor, entre os favoritos, só o Brasil foi mal, porque o Uruguai já vinha capengando, mais ainda sem Luisito, e os outros (Chile, México, Grécia, Costa Rica) eram visíveis franco atiradores. E jogo ruim mesmo foi só esse último, em Recife, ruim mas eletrizante.

Carles: Pois é, teve uma hora que o glorioso Fernando Santos, treinador português da Grécia (não é um karma, é uma condição mesmo), começou a tirar meio-campistas, colocar atacantes e designou o voluntarioso Samaras para armar. Um desastre! Só que, a essa altura, Costa Rica já tinha abdicado do jogo na medular. E no ataque também, deixando um extenuado Campbell literalmente incomunicável e se batendo sozinho contra Sokratis, Manolas e a troika europeia.

Edu: O que parece cada vez mais claro é que esta Copa não é para os fracos. Por pouco, pouquíssimo, esse time grego limitado ao extremo não chega às quartas de final com as únicas armas que têm, coração e força física. Nesse ponto, o clima é determinante, mas há também uma jurisprudência cósmica no Mundial que vem afetando os minutos finais, quando saem os gols que provocam reviravoltas. É uma festa para os jornalistas-estatísticos, que costumam transformar superstição em planilha de cálculos para suas análises iluminadas.

Carles: Costumo dizer que sempre tem uma estatística sob medida para justificar uma hipótese ou alimentar uma esperança. Um exemplo: “Das últimas 7 vezes que um jogador africano ambidestro escreveu uma carta para uma prima antes de um jogo contra um time asiático, a nossa seleção (pode ser qualquer uma) chegou à final”. Às vezes também as estatísticas confirmam a realidade, como o merecido êxito desse goleiro com jeito de tudo menos de futebolista que fez uma temporada espetacular pelo nanico Levante, tem ofertas de meio mundo e hoje recebeu toda a confiança dos companheiros antes da disputa por pênaltis. Foi lá e justificou. Imagino que vai fazer sombra ao glorioso JC nas manchetes. Enquanto isso, do outro lado, Fernando Santos, já oficialmente expulso pelo árbitro, em pleno exercício de desobediência civil, pululava entre os seus perguntando: “- Quer bater? Quer bater?” ao que Samaras e Lazaros respondiam dando de ombros. Você consegue imaginar o general Van Gaal escolhendo os cobradores da Holanda desse jeito, sem o apoio de centenas de anotações, estatísticas e pelo menos dois assessores?

Edu: Os batedores de pênalti de Van Gaal devem estar definidos há seis meses, nem os próprios jogadores sabem, mas não importa. E sobre os luminares das estatísticas, ouvi algum dizendo sobre o Alemanha-Argélia de amanhã algo como ‘se os africanos venceram a Alemanha em 1982, nem preciso dizer o que pode acontecer agora’, para justificar uma possível zebra. Me desculpem se desprezo um resultado de 32 anos atrás (!!!), mas não tenho dúvida de que amanhã é feriado na Copa. Alemanha e França provavelmente vão treinar, ou pouco mais, contra argelinos e nigerianos, e mesmo o imponderável dos últimos minutos terá um merecido descanso. É mais uma rodada de espera pela terça-feira do que outra coisa.

Carles: É até compreensível que a mais mínima possibilidade de qualquer outro resultado que não seja a vitória de alemães e franceses, excite a horda de informadores. Daí a importância dos farejadores de hemeroteca, sempre em busca desse tipo de precedente que, na falta de notícia, vira atualidade. É bom lembrar que naquele time jogava um tal Madjer, considerado o mais célebre futebolista argelino de todos os tempos e companheiro dos brasileiros Juari e Casagrande no Porto campeão de Europa. Em cima de quem? Dos alemães do Bayern. Viu como fica legal?

Edu: Brilhante!

 

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