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Protocolo cumprido, tempo perdido

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

14 de agosto de 2013 | 20h42

Edu: A Espanha ao menos cumpriu o protocolo. Pior é terminar com três volantes na Suíça e ainda perder o jogo.

Carles: Eu só não entendo essa mania do Scolari de trocar o volante e, sempre, um par de minutos depois, colocar o Hernanes e tirar o Oscar, ganhando, perdendo ou empatando. Queria saber a intenção. Espécie de simpatia?

Edu: Alguma intenção deve ter, nós é que não alcançamos. Bom, depois da explosão retórica dele, na véspera do jogo, para tentar argumentar que Neymar não está anêmico – retomando aquele discurso de complexo de vira-latas terceiro-mundista -, já não tenho nenhuma vontade de entender o Felipão. Só acho que, para fazer esse papel, é melhor deixar os amistosos de lado. O time serviu um banquete para a Suíça, que poderia ter aproveitado melhor. Quanto desperdício.

Carles: Enquanto esse personagem der algum eco, acho que ele não muda. Teve também a discussão com os jogadores suíços na beira do campo, com direito a carinhas e bocas. Depois da final da Confecup, o time voltou a ser o mesmo, com as linhas absolutamente desconectadas, sem jogo coletivo e com a sensação de que algumas peças quando deixam de ter valor estratégico e muita, mas muita aplicação, sobram, como por exemplo Hulk. Só se o time ficou mal acostumado e sentiu falta da torcida do Maracanã.

Edu: Como sempre, tem a história dos aditivos extracampo – motivação, filminhos emotivos na preleção, torcida, hino. Sem isso, pelo jeito, voltamos à rotina sem graça. O problema é que os jogadores nunca vão reagir aos anabolizantes emocionais, estão dominados, ainda mais depois de um título numa final contra a Espanha. Essa agressividade exagerada é um pouco retrato da situação. Neymar e Marcelo dando pancada, uma estranha tensão generalizada. A filosofia da ‘pegada’ importa mais que o talento.

Carles: Marcelo é um grande jogador com a bola nos pés, mas já percebi que é muito vulnerável à motivação épica. Já aconteceu algo semelhante com ele no Madrid pré-Ancelotti. Às vezes ele parecia transtornado, ao nível de Pepe. Deu no que deu, o mentor de todo aquele histrionismo deixou ele falando sozinho, literalmente.

Edu: O Brasil tem sete amistosos em vista até a Copa. Se existe a intenção de usá-los com um pouco de objetividade, poderia ser traçado um plano de evolução de algumas questões táticas – a partir daquele futebol jogado contra Espanha, claro -, de aperfeiçoamento individual de jogadores importantes, como Oscar e o próprio Marcelo, de avanços do treinamento de fundamentos essenciais, como o passe, e inúmeros outros procedimentos pontuais que ainda apresentam um claríssimo déficit, como as coberturas no meio da defesa e uma saída mais fluente para o ataque. Do contrário, veremos mais jogos assim, nos quais o que menos importa é o crescimento da eficiência do time. Amistosos não podem ser tratados como pequenas batalhas de autoafirmação, mesmo porque serão sempre disputados em datas intermediárias, com os jogadores divididos entre os clubes e a seleção. É impossível manter a alta competitividade dessa forma, não tem nada a ver com uma sequência de jogos. Portanto, a meta deve ser outra que não ganhar a qualquer custo.

Carles: Pois eu acho que esse mesmo time, com todos os possíveis defeitos individuais, mas bem posicionado, pode ser outra história, como demonstrou na final contra a Espanha. Não vou falar do Jefferson porque vai parecer perseguição, já falei do Hulk e continuo achando o Dante um jogador inseguro, propenso à falta de concentração e isso é muito temerário em um zagueiro central. O resto, pelo menos para poder competir, é atitude, e existe vida entre a indolência e a agressividade.

Edu: Justamente por ter encontrado um time – aquele da Confecup – é que a Comissão Técnica deveria trabalhar com critérios mais sensatos a partir de agora e se concentrar nas debilidades. O que parecia mais difícil, que era achar a fórmula, aconteceu. Então resta aperfeiçoar. Mal comparando, a ‘Roja’ fez o que deveria ser feito em Guayaquil. Jogou à meia força e pouco arriscou em um jogo que não acrescentaria nada. Mesmo assim, manteve-se fiel a seu estilo e saiu com a vitória, além de ter experimentado algumas alternativas. Nessas ocasiões é melhor ser mais modesto nas pretensões. Mesmo que o resultado não seja o ideal.

Carles: Tem razão, mas isso só reforça a tese de que a Seleção Brasileira na final a Confecup fez uma grande esforço, nem tanto pelo trabalho físico, mas o sobre-esforço mental para jogar fora do modelo ao que os jogadores foram acostumados, mesmo com a maioria deles estando habituados à maior rigidez dos esquemas táticos dos times europeus. A Espanha não mudou seu modelo, nem na final contra o Brasil, nem na “pachanga” contra o Equador e isso é mais cômodo. A sensação é que muita vezes, em jogos não tão decisivos, o Brasil prefere a comodidade de não ter que se concentrar os 90 minutos em posicionamentos pouco naturais, na certeza que as jogadas individuais e as genialidades acabarão surgindo. Eu arrisquei que a manchete seria algo como “vencer sem convencer”. Só acertei a segunda parte.

Edu: Por enquanto, chega de “pachangas”. Que comecem logo as ligas, porque ninguém merece perder tempo com essas bobagens.

Carles: Pelo menos na outrora “Liga de Las Estrellas”, ou muito me engano ou será todos contra dois.

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