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Quando a estupidez pesa mais que os argumentos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

28 de março de 2014 | 19h15

Edu: Como profissional de comunicação, mesmo analisando de longe, você acha que faltou uma estratégia de aproximação com o público brasileiro em torno da Copa? Não com o torcedor comum, que não precisa de adesão, mas com o público em geral?

Carles: Quem você proporia que se encarregasse disso? Quero dizer, de quem é a Copa realmente? E neste caso não me vale que é da Fifa, da CBF, do Planalto, porque é um evento que vai envolver, queiram ou não, a grande parte dos cidadãos. Talvez tenha faltado mesmo, mas antes de te responder teríamos que esclarecer o briefing e o cliente.

Edu: O cliente, todos sabemos, é o brasileiro interessado no evento ou naquilo que o evento pode gerar. Quem não tem interesse nenhum também precisaria ser devidamente esclarecido para poder formar um juízo coerente – e para que a gente não seja obrigado a ouvir as barbaridades que estão por aí. Agora, quem teria que fazer isso são profissionais da área de comunicação, imagino, tanto oficial como da iniciativa privada, com qualificação suficiente e experiência nesse ramo, gente da mídia inclusive. Mas teria obrigatoriamente que trabalhar com um desses agentes aí que você citou – o governo (em todas as esferas), a Fifa, o COL e a CBF. O que pergunto a você é se uma boa estratégia não teria evitado tantos desencontros e tanta desinformação para o cidadão comum. E não falo de publicidade e promoção, mas de gestão correta de informação mesmo.

Carles: Não deixa de ser um trato honesto da questão. Para começar, vou me colocar na pele do governo federal: “A maioria da população me elegeu (não a que mais aparece na mídia) e, em nome dessa maioria, vamos nos candidatar a organizar um evento desse porte. Temos direito a tentar convencer o resto, mas é legítimo que alguns esperneiem porque as suas fontes até agora exclusivas estão secando”. O que eu quero dizer é que não adianta querer informar se os canais estão cortados, bloqueados por interesses que não são os gerais. Isso é um fato, independente da questão de se fazer a Copa ser algo bom ou não. A campanha contra é, sim, algo organizado, à base de jogar sistematicamente excremento no ventilador. Por isso nem sei se adiantaria tentar informar, pelo menos mais do que se está fazendo. Outro problema é a forma como a sociedade brasileira está estruturada, governe quem governar, ainda existe uma distância abismal entre as instituições e a cidadania – desde os tempos do Império itinerante – e isso dificulta toda comunicação.

Edu: Talvez algumas pessoas importantes, e honestas, tenham pensado nessa linha que você sugere: com uma estrutura do contra, baseada em interesses escusos, então não adianta fazer campanha. Eu já acho que é imprescindível fazer. É elementar vir a público e abrir tudo, seja qual for o barão da mídia (e seus indefectíveis vassalos rastejantes), do empresariado ou da classe política que queira estorvar, porque há muitas formas de comunicar. Por que ninguém divulga sistematicamente que a mesma porcentagem de PIB que está sendo aplicada na Copa será recuperada automaticamente – e nem é tão grande assim (0,7%)? Por que deixam alguns babacas dizerem todos os dias que o tal ‘dinheiro público’ é que está financiando tudo, o que é uma cascata federal, além de não ser o principal problema? Por que ninguém divulga que os estádios daqui, em média, custaram menos que os da Alemanha e que os de Japão/Coreia? E tantos outros dados objetivos… Mas não, essa missão fica entregue a alguns poucos batalhadores da verdade, que rapidamente são engolidos pela galera que gosta de uma ressonância cheia de fumaça escura, sem consistência e meramente demagógica, um pessoal que, aliás, nunca deu a menor bola para o ‘dinheiro público’ e sequer sabe explicar o que significa. No fundo, dizem: ‘não gosto e por isso não presta’. E ponto final. Se tivesse que responder à pergunta que fiz no início não teria dúvida: muita aberração teria sido evitada em matéria de desinformação se uma estratégia racional fosse posta em prática desde o princípio.

Carles: Insisto, contra a difamação, os argumentos costumam soar como deculpa, quando não é assim, são fatos e ponto. Como defende o grande sociólogo espanhol Manuel Castells, a era da informação dá muito mais poder ao leitor mas exige mais dele, que tem que aumentar seus critérios de seleção para formar uma opinião, já que as versões vão estar todas aí. A sociedade brasileira amadurece, mas segue acostumada à informação viciada, escassa de pluralidade. Ainda vigoram os canais tradicionais, conservadores que em alguns casos se travestiram de alternativos, mas na verdade seguem sendo ramificações dissimuladas de um mesmo membro. Não é um problema de falta de uma campanha adequada de informação, é um problema das estruturas de comunicação.

Edu: Devo entender, então, que como não conseguiremos resolver nas vésperas da Copa o problema das estruturas da comunicação, vamos cruzar os braços e preparar o espírito para continuar ouvindo e lendo tanta estupidez? Se for isso, prefiro queimar o computador e jogar o insuportável celular na privada.

Carles: Se não conseguir resistir de verdade à tentação, aviso que já saiu um modelinho de celular por 25 dólares, só mesmo para poder ligar para a família. Sinto informar que não, não dá tempo de arrumar tudo até a Copa e provavelmente pouco vai mudar para a Olimpíada. Agora, se você queimar o computador, como vamos seguir informando desde o 500 aC? Afinal juntando os dois somamos mais de um século de anos vividos, grande parte deles a serviço da comunicação ética. Algo de respeito merecem as nossas informações. E, como as nossas, mais uma porção de comunicadores. Sei que é difícil conviver com tanta bobagem, mas é a dor do crescimento, costumava dizer minha mãe.

 

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