As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quando o mundo do futebol virou o futebol do mundo

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de março de 2014 | 18h19

Carles: Lembra que o outro dia comentei que estava vendo um jogo do Paulistão ao vivo? Pois é, depois de meses tendo que assistir a alguns jogos daí ao sabor dos solavancos da internet corsária, sentei diante do televisor para ver o “glorioso clássico” Ponte Preta e Rio Claro.

Edu: Não sei por que foram esses times os escolhidos, talvez como um exotismo tropical para apreciação da finesse cultural europeia. Mas, para quem conheceu de perto esses confrontos daqui, imagino que não deixou de despertar alguma curiosidade em você.

Carles: Em outros tempos talvez, quando mesmo com a ingenuidade tática típica de um derbi desses, não faltavem jovens talentos e algum desses jogadores veteranos que ajudam a dar liga e sentido de equipe. Mas não. Foi um jogo cheio de erros de ambos os lados até o ponto de que, numa das falhas da defesa campineira, o atacante adversário ficou frente a frente com o goleiro e encheu o pé… na direção do rosto do guarda redes que instintivamente colocou as mãos na frente. E o locutor histriônico: Paradón!

Edu:  Já que compraram o jogo ou o campeonato, provavelmente a um preço ridículo, o negócio é tentar valorizar com a cosmética. Se bem que o público do futebol não é estúpido como muita gente pensa.

Carles: Os tubarões, donos dos meios de comunicação, tentam nos convencer de que é melhor ter a oferta de jogos de um mesmo torneio repartidos por diversos horários e dias, do que a velha rodada do carrossel de resultados. É a estratégia do industrial que prefere que os produtos de uma mesma marca não estejam juntos na prateleira, concorrendo entre eles. Não conformes com isso, formam e deformam jornalistas para serem promotores de venda em lugar de relatores dos fatos.

Edu: É mais ou menos o que acontece com a Fórmula 1 por aqui. Desde que o Brasil deixou de ter pilotos disputando títulos, a transmissão para o país é uma peça de ficção para tentar turbinar o interesse. Locutores e comentaristas falando de um mundo de fantasia, com maravilhosas atrações e grandes sacadas tecnológicas, enquanto o que o público assiste na telinha é de uma rotina irritante e sem graça. É como se o narrador de Ponte e Rio Claro quisesse fazer vocês acreditarem que se trata de um Barça-City.

Carles: Então, o jogo Barça-City da Champions vocês aí puderam ver ao vivo e em canal aberto e nós tivemos que assistir em homeopáticos pixels na rede. Provavelmente porque uma vênus platinada desluzida pagou a peso de ouro para garantir a simpatia cada vez mais minguante dos seu súditos.

Edu: Às vezes a Globo faz isso, até porque neste caso tem o efeito Neymar em ano de Copa. Mas raramente vemos a vênus transmitir futebol europeu. De quando em quando, como você sabe, são capazes de comprar o evento para que a concorrência não transmita. Ou seja, o telespectador fica entregue também aos pixels ou paga um canal a cabo.

Carles: A agridoce ilusão do pay-per-view faz a alegria de uns poucos e priva o torcedor comum de poder assistir ao seu time que às vezes é o seu vizinho de toda a vida. Não me diga que é um esporte popular. Pode até ser nas origens mas já não está ao alcance da velha e boa turma da arquibancada.

Edu: Aí não concordo, porque o sujeito que gosta arruma uma forma de assistir, mesmo que seja no ‘modo corsário’. Além disso, assistir ao vivo deixou de ser há algum tempo a única forma de acompanhar o futebol. Cinco minutos depois do jogo está tudo no YouTube. A velha turma da arquibancada está sempre presente, esteja certo.

Carles: Você tem que me passar esses links onde eu possa assistir o jogo na íntegra no YouTube. Até aceito os 5 minutos de delay. Mas falando sério, como disse no começo da nossa conversa, atualmente a oferta dos jogos da Liga Espanhola estão distribuídos semanalmente em horários absurdos, de forma arbitrária e que vulneram os costumes locais. Por exemplo, os milhares de torcedores que estão habituados a ir aos jogos no domingo à tarde com os filhos, que são sócios, como foram o pai, o avô…. Se o seu time agora desperta um menor interesse nacional e internacional, é provável que tenha lugar cativo nas sextas-feiras à noite, quando nosso herói torcedor chega arrebentado depois de 10 horas de trabalho numa fábrica.

Edu: Nesse caso, a responsabilidade é exclusiva das redes que se julgam donas absolutas do evento. E posso te assegurar que é um quesito que vocês dominam há mais tempo do que o pessoal daqui. Ainda não chegamos ao ponto de marcar um jogo às 10 da noite segunda-feira com oito graus de temperatura.

Carles: Bom mas tem jogo às quatro da tarde com quase quarenta… o que eu quero dizer é que, muitas vezes, esse torcedor – ele que sempre foi tão fiel ao seu time – nem fica sabendo que o time dele joga num desses horários esdrúxulos. Mas isso já parece menos importante do que vender o produto em pacotes para gente que nunca chegou perto do estádio, mas que tem cacife para bancar e que em qualquer momento, pode fazer zapping e esquecer-se totalmente das cores das camisas.

Edu: Gostaria de ter mais dados sobre isso para uma análise mais precisa, mas impressão que dá é que é uma experimentação, uma aventura de tentativa e erro. Porque, definitivamente, não significa que eles conseguem vender o produto. Querem ‘formar’ um costume, construir um hábito. Mas não conseguem porque o torcedor rejeita. Aí, na temporada seguinte, tentam outra bobagem qualquer, mas o torcedor continua fazendo do seu jeito.

Carles: A minha tese é justamente a inversa, querem repartir a oferta, experimentar sim, mas averiguar quais são os produtos vendáveis e aí sim, forçar a formação de um hábito. Não deixa de ser um método empírico, mas sem nenhuma ética. É bom lembrar a máxima dos marqueteiros pós modernos: os produtos tem o seu ciclo de vida: lançamento, crescimento, maturidade e declínio. E se não tiver suficiente demanda, não tem outra saída que ser descontinuado. Vem aí a superliga mundial, meu velho, e aos pequenos ‘que les den’.

Edu: O futebol já passou várias vezes por esse ciclo e sempre está dando um jeito de se reinventar, meio sem querer, aos trancos e barrancos, mas está. É isso que os gênios do mercado não conseguem entender nem detectar. Ou você acha que é possível ‘descontinuar’ um maná desses?

Carles: Eu me referia aos produtos ou clubes, neste caso, com menor audiência, que seriam os relegados com a eventual aparição de uma superliga continental ou mundial.

Edu: Você deixaria de ouvir música só porque 90% das rádios preferem tocar axé (com todo respeito à diversidade de gostos)?

Carles: Para a nossa sorte, o rádio é algo bastante digno por aqui, tem uma larga tradição e segue dando opções alternativas, onde é possível inclusive não ouvir só o lado A dos discos. Mas se todas as emissoras decidirem massificar e você for capaz de escapar à lavagem cerebral, só resta comprar para ouvir boa música: CDs, iTunes, já sabe…

Edu: E quanto a essa aposta da superliga, como já te disse, pago para ver.

Carles: É justamente o que querem que façamos, pagar para ver.

 

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: