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Quando os modestos triunfam na Europa desigual

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

24 de abril de 2013 | 22h35

Edu: Há alguns dias esteve em São Paulo Paul Breitner, um histórico do futebol alemão, campeão do mundo em 1974. Com uma boa dose de arrogância ele afirmou nas várias entrevistas que concedeu por aqui que o trabalho de formação de jogadores na Alemanha estava em um patamar muito superior ao da maioria dos grandes centros europeus. Disse também que o saneamento de alguns clubes, entre eles o Dortmund, era motivo de orgulho para o país. Hoje vimos: não era arrogância.

Carles: Era arrogância, sim. Porque o futebol, como tudo na Alemanha, sofre com as políticas austeras e conservadoras que arrasam os direitos sociais na Europa e que chegam justamente num gentil oferecimento do governo Merkel. Outra coisa é que apesar do preço social que se paga, o que o ex-lateral do Madrid contou seja uma verdade como um templo. Já faz tempo que os salários dos operários alemães sofreram um arrocho tremendo (incluindo os critérios de aposentadoria e o seguro desemprego) e, segura de que está certa, ‘fraulein’ Angela pressiona o resto dos países a seguirem sua política. Esclarecida a fanfarronada alemã, o Borussia mostrou que realmente fez uma política sensacional na formação dos seus craques. Se bem que o espírito imperialista demonstra também sua voraz “autofagia”, sobretudo se forem confirmadas as transferências de Götze e Lewandowski para o todo-poderoso Bayern. Outro detalhe é que o futebol alemão não está isento de barbaridades como a de o Borussia pagar 17 milhões de euros por um jogador formado nas suas categorias de base como foi o caso de Marco Reus.

Edu: Breitner certamente não estava falando do governo Merkel, muito menos do arrocho social do país. Aliás, esquivou-se o tempo todo de questões sociopolíticas porque, imagino, não teria sólidos argumentos, governista que é. Estava mais se referindo ao papel que o futebol tem exercido hoje para a juventude alemã, no que, sinceramente, acredito. Quanto às distorções, que você chama de autofagia, está longe de ser privilégio alemão. Acho até que o Dortmund, que gastou menos do que o preço do Pepe para montar o time inteiro, já previa essa debandada de alguns craques em troca de muitos milhões de euros. Para um time que há seis ou sete anos estava falido, não está nada mal.

Carles: Só que é impossível desvincular a situação social e econômica do futebol profissional. Mas falemos do jogo, 4 a 1, e se o talentoso time do Burussia não tivesse passado a maior parte do primeiro tempo fazendo a bola cruzar os céus de Dortmund, algo que não entendi quando ganhava desde o oitavo minuto, o Madrid provavelmente teria sofrido uma derrota histórica. E falando em Pepe, desastrosa partida do central.

Edu: Vamos falar de situação social e econômica, sim, porque esse Borussia é o time mais socializado da Alemanha, foi a torcida que o salvou da bancarrota. A rigor, é um pequeno que deu certo por causa do apoio popular. Dortmund é uma cidade de meio milhão de habitantes, um tanto relegada economicamente, inclusive. Talvez a gente não tenha ideia neste momento da dimensão do resultado, porque acabou de acontecer. Mas numa perspectiva histórica o modesto derrubou o bilionário todo-poderoso. É muito diferente do duelo de gigantes da véspera que terminou com o Barça nocauteado.

Carles: Sem dúvida, é o mais popular da Alemanha. Dizem que o seu estádio é o mais ruidoso da Europa, sua torcida é incansável e praticamente foi ela que empurrou aquela bola contra o Málaga que levou o time à semifinal. Agora, ponha-se no lugar do torcedor local ao ver o sensacional time de cuja montagem ele também se sente responsável começar a ser desmontado pela força do talão de cheques que chega de Munique… Do ponto de vista neoliberal, perfeito, gastar menos do que o custo de Pepe e vender só o Götze por 35 milhões. Mas futebol é outra coisa, sigo convencido. Um aviso ao senhor Uli Hoeness que por certo está sendo investigado por fraude fiscal: depois dos 4 de hoje, Lewandowski vale o dobro.

Edu: O torcedor sente, vai esbravejar nos primeiros meses e coitado do Götze quando voltar lá com a camisa do Bayern. Mas ninguém vai cortar os pulsos por causa disso e daqui a pouco a ‘muralha amarela’ elege outro ídolo e pronto. Esses rancores no futebol de hoje são uma pequena parte do show, não mais do que isso, e não impedem a coisa de caminhar. Quando fechar a venda dos dois – Götze e Lewandowski , o Borussia terá feito o maior negócio do futebol europeu nas últimas temporadas. E a vida vai seguir…

Carles: Claro, já falamos disso, o garoto Götze tem 20 anos, é profissional e está absolutamente certo. Mas então também não levemos a proeza de saneamento dos clubes para o lado heroico e épico. Não tem milagre, é tudo produto de uma Europa cada vez mais desigual. E isso não tira o mérito dos espetaculares jogos realizados por Bayern e Borussia. Se chegarem à final, será feita justiça e isso eu já reconheci aqui faz algumas semanas.

Edu: Não tem nada de heroico, épico e milagroso no saneamento do Borussia, não sei de onde você tirou isso. Aliás, nem sei se o time está mesmo saneado – quem falou foi o Breitner. O que é admirável, isso sim, é que a torcida – que é quem interessa – abraçou a causa e tirou o clube do buraco. E, sinceramente, deixo para você fazer a conexão entre a Europa desigual e o Borussia de hoje. A estas alturas do dia não tenho mais paciência pra isso.

Carles: A conexão é obvia. A Europa é mais desigual graças à falsa moral propagada pelo atual governo alemão de que os problemas econômicos do continente se devem ao esbanjamento e ao consumismo irresponsável dos cidadãos. Provavelmente os mesmos que pagam ingresso no Santiago Bernabeu ou no Signal Iduna Park, cujos preços mais altos, por certo, seguem desproporcionais, por volta de 300 euros na Espanha e de 100 na Alemanha, durante esta fase da Champions. Inexplicável.

Edu: Ok.

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