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‘Que pasa’ com o Palmeiras?

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

11 de fevereiro de 2013 | 06h21

Carles:  Frequentemente você pede que eu seja isento ao falar d e Real Madrid e Barça. Hoje quem vai pedir sou eu. Explique-me o que realmente acontece com o Palmeiras.

Edu: A situação é muito clara, não é uma análise pessoal. O clube tem problemas financeiros graves, tem uma estrutura política complicada, bem à moda dos antigos modelos dos clubes brasileiros, e uma imensa e exigente torcida que perdeu a paciência faz tempo. É problema de gestão? É falta de resultados? Também é. Mas não é novidade por aqui e muitos clubes saíram de situações delicadíssimas depois de baterem no fundo do poço. Os casos mais graves e recentes foram de Corinthians e Fluminense, que hoje são os dois grandes campeões no país. Portanto, tem jeito.

Carles: Fico pensando se seguem pagando as consequências do contrato nefasto com a Parmalat ou se, em função das origens ligadas a um bairro tradicional que mudou seu perfil, existe uma dificuldade em encontrar a verdadeira identidade.

Edu: Pois é, essa é uma tentação na qual a gente corre o risco de cair, culpar as interferências externas. Só que o sistema de cogestão com o Palmeiras foi, na verdade, um dos poucos cases de sucesso da Parmalat em seus acordos com clubes de futebol. Deu bons resultados no campo e razoável retorno comercial. O que a Parmalat fez em outros lugares é que foi nefasto em matéria de gestão, inclusive em seu próprio feudo. Quando a empresa afundou, no início da década de 2000, teve que fazer um leilão dos jogadores do Parma. E a família Tanzi, proprietária, foi parar na cadeia. Mas o Palmeiras, que encerrou seu acordo com a empresa em 2000, saiu ileso. O torcedor até hoje tem saudade daqueles tempos.

Carles: Está claro que, enquanto vigorava o acordo de cogestão, os resultados esportivos foram os melhores. Mas sem querer insistir no tema, existe a possibilidade de que o processo de desligamento tenha sido parecido ao da saída do conforto da casa dos pais para tentar a vida sozinho?

Edu: Aí já é possível que sim, o que deixa claro o problema de gestão do próprio Palmeiras. O envolvimento de várias correntes políticas pulverizou os controles de poder no clube de tal forma que virou uma guerra sem tréguas, cuja maior vítima foi o time de futebol. E a torcida também, claro. É bom lembrar que, em uma década, o time caiu duas vezes para a Série B.

Carles: Eis o motivo da minha reflexão. Cair duas vezes deixa de ser circunstancial para ser sintomático. E a questão da identidade cultural? Ou melhor, a procura de uma identidade que eventualmente se perdeu entre os antepassados do bairro fabril de Pompéia e adjacências (Água Branca, Perdizes). Uma das situações empresarias mais recorrentes é a falta do autoconhecimento e daí as dificuldades em identificar objetivos e antídotos para os próprios problemas. Em resumo, uma barreira para a inovação e renovação.

Edu: Exato. Digamos que esse tipo de reflexão é essencial para se começar de novo, embora eu não veja claramente um problema grave de identidade cultural externo, por parte dos torcedores. O que há é um conflito sério interno. E não existe situação mais propícia para propor inovação do que quando se chega ao fundo do poço. Para citar o exemplo do maior inimigo do Palmeiras, quando caiu para a Série B o Corinthians tinha uma dívida muito maior da que o rival tem hoje, era um time bem pior e uma diretoria que era caso de polícia. A queda, a depressão, a desilusão da torcida serviram como um ponto de inflexão para que tudo fosse mudado, exatamente tudo. E o time ressurgiu porque priorizou coisas básicas a partir do zero. Por exemplo: a primeira missão era ganhar a Série B. E assim foi feito. O resto veio com firmeza administrativa e alguma inovação na área de marketing. O que vejo agora no Palmeiras ainda é uma confusão de objetivos. Fala-se em Libertadores, em Campeonato Paulista e é dado como certo que o time ganha a Série B. Mas não se vê firmeza de propósitos a longo prazo, a situação para o torcedor ainda está bastante nebulosa.

Carles: Não podemos esquecer que a figura do “corneteiro” é praticamente uma invenção palestrina. Será a falta de comunhão de propósitos dentro próprio quadro associativo uma dificuldade? Temos aqui um caso parecido de negativismo compulsivo, o segundo time da cidade de Valência, o Levante. Era habitual que quando não saía o gol até os 15 minutos em casa, os próprios torcedores soltassem a frase “se masca la tragédia”. Ultimamente, houve uma renovação gerencial na diretoria e parece que o ar de pessimismo da torcida ficou lá no passado. Paradoxalmente, o time é que é velho! Mas sabem tirar a autoconfiância a experiência e cria um clima positivo, e os resultados vêm sendo surpreendentes até para os próprios “granotas”.

Edu: Tem tudo a ver. Uma das verdades absolutas do futebol é que o torcedor precisa sentir firmeza, às vezes acima dos resultados. Firmeza de intenções e de ações. O torcedor vem junto quando a coisa é transparente e objetiva. Ainda mais uma torcida tão numerosa e dedicada como a do Palmeiras. Se o recomeço for simples e objetivo, como uma missão possível, o torcedor vai lotar o estádio em todos os jogos da Série B.

Carles: Objetivamente, como é que vai a tentativa de renascimento. Obviamente as noticias sobre a Série B daí não abundam por aqui.

Edu: A nova direção do Palmeiras trouxe o guru da era Parmalat, José Carlos Brunoro, um especialista em gestão. Isso criou uma grande expectativa na torcida, porque o Brunoro é muito querido, ganhou títulos em sua primeira passagem. Mas não se trata de um milagreiro. É preciso mais, um projeto firme. Por enquanto, o que vemos é uma série de contratações discutíveis para renovar o time, um esforço descomunal da diretoria para tentar colocar as finanças em ordem e uma grande confusão quanto a objetivos, porque o time está na série B mas vai disputar a principal competição continental, que é a Libertadores. Então qual seria as saída: montar um time consistente para ganhar a Série B ou apostar em algumas loucuras para tentar a Libertadores correndo o risco de não se sair bem nas duas competições? É o que a torcida precisa saber.

Carles: Se torcida e compreensão pudessem ser “conjugados” na mesma frase eu, pessoalmente, sacrificaria a Libertadores. Mas quem sou eu? Lembro da fase sofrida do time do São Paulo durante a construção do Morumbi. Gostaria de entender qual é a interferência que a reestruturação das instalações esportivas, incluindo o estádio, pode ter nesta crise esportiva e financeira profunda do Palmeiras.

Edu: Nesse caso, acho que pouca interferência. O estádio é praticamente uma obra terceirizada, o clube pode ter sofrido um pouco pelo fato de ter que pagar para jogar em outros estádios durante a reforma. Mas não foi isso, certamente, que afundou o Palmeiras. E sobre o objetivo, o mais lógico seria mesmo priorizar a Série B. Dois anos seguidos longe da Séria A seriam um desastre sem precedentes.

Carles: Estou totalmente de acordo. Pensei que nunca diria isso, mas desejo toda a sorte ao Palmeiras. Afinal de contas, o que seria do Batman sem o Coringa para combater?

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