As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quem perde e quem ganha na crise

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de setembro de 2013 | 08h46

Edu: Falamos muito neste espaço de técnicos perseguindo jogadores e de dirigentes autoritários que fazem e desfazem com seus times, sem o menor critério, ao sabor do vento. Tenho a impressão de que encontramos aqui a história ao revés, um time que persegue técnicos.

Carles: Fiquei sabendo mesmo, o filho pródigo torna ao lar. Tudo em paz né? Ao menor deslize, a torcida gritava “É Muricy!!!”, nem Franco nem Autuori conseguiram bons resultados e volta o campeão dos campeões. Seja feita a vontade popular e soberana… Hummmmm, algo me cheira a chamusca nessa história.

Edu: Vamos tentar isolar da história o presidente Juvenal Juvêncio, um sujeito descompensado, que definitivamente não faz bem ao futebol e que, em algum tempo recente, jurou a seus pares que, enquanto ele estivesse no Morumbi, Muricy não voltaria a ser treinador. Logo, um tipo desse não merece muita atenção. Quanto à torcida, é normal que queira Muricy diante de tantos desastres, porque foi o último técnico que ganhou alguma coisa importante por lá, ainda que tenha saído da última vez execrado por muitos setores da arquibancada. O pior, está claro, está no vestiário. É ali que Muricy foi eleito e é ali que terá que agir, muito mais do que no campo de jogo.

Carles: Eleito você diz? Inevitável pensar em líderes, formadores de opinião, grupos interessados e até lobbies. Pergunto, é completamente impensável que, desde fora, existisse um grupo de pressão sobre o vestiário pela volta do Muricy e que isso acabasse sendo o maior obstáculo para o trabalho de outro treinador, fosse quem fosse? Ou será que viajei muito?

Edu: Bom, por ali existe um líder supremo, não é preciso muito para concluir quem é. Rogério Ceni é um ótimo comandante nas horas boas, mas um exemplo daninho nas crises, porque é um líder intimidador, que assusta os mais novos e tem sempre o treinador como alvo principal, mesmo quando defenda o cara, como aconteceu durante os dois meses de Autuori e no início de trabalho do Ney Franco. Depois, todos vimos o que aconteceu. Além de Ceni, há um ou outro sub-líder, Luís Fabiano é um deles, mas não tem alma de capitão e anda em baixa com a torcida, talvez Ganso, que está longe de se firmar tecnicamente. O panorama ficará ainda mais claro daqui a quatro ou cinco jogos: com o São Paulo na zona da degola, veremos como esse mesmo time, com todos os defeitos que tem, reage com Muricy depois de enterrar dois técnicos de forma acintosa. Tenho a impressão de que veremos uma rápida recuperação depois dos cadáveres que ficaram pelo caminho.

Carles: Olha, permita que eu não espere pelos tais cinco jogos para vaticinar que o desempenho do time vai melhorar. Primeiro porque piorar demandaria mais do que esforço e segundo porque é evidente que a crise não é só de jogo, mas de ambiente, de comando. Vou tentar evitar as palavras complô e ditadura, mas me custa ouvir coisas como as que existe um líder bom para as horas boas e tóxico nos maus momentos e não recordar a imagem paternalista do velho generalíssimo. Essa autoconcessão de “mal necessário” pode até dar a falsa sensação de apaziguamento, mas nunca vai ser benéfico a médio e longo prazo, não vai permitir jamais que o grupo se desenvolva como tal, que cresça. Mas, claro, é sempre uma fórmula para se fazer imprescindível, principalmente com a aposentadoria acenando ameaçadora.

Edu: Então, ainda que façamos um esforço para não eleger este ou aquele vilão, eles existem e ponto. É bom deixar claro que todo empregado tem pleno direito de não gostar do chefe de plantão. Funciona assim nesta vida que levamos. Os comandados podem e devem questionar os comandantes e depois que aguentem as consequências. Mas neste caso os técnicos foram reféns do time, o que é diferente. Ney Franco não é nenhuma sumidade, Autuori tem os seus defeitos, mas o que aconteceu nos últimos tempos extrapolou, não é real que um grupo de trabalhadores possa se tornar tão negligente. Você falou em forças externas e elas também existem, claro. A maior de todas é a torcida, que também tem pleno direito. Mas, quanto à direção do clube, eu diria que também virou refém dos jogadores.

Carles: Provavelmente uma força externa manipulada por interesses, próprios e alheios. A torcida, através dos seus grupos de liderança, tem se transformado aí, aqui e na terra do fogo em instrumento de controle da opinião pública (da totalidade dela o que é muito diferente das torcidas organizadas com lugar cativo no estádio). Por sua parte, essa opinião geral mais ou menos ao sabor daqueles interesses, acaba sendo determinante nas decisões institucionais. Vox Populi! Poderia se dizer, sempre e quando essa voz não estivesse à mercê dos resultados esportivos que parecem não acontecer exatamente dentro de uma normalidade. Agora, sim, o acaso podia ser decisivo, e esses cinco jogos seguintes saírem pela culatra. Só que é impossível. Prevejo paz até a próxima crise, em que ganha quem mais puxa para o seu lado. Um círculo vicioso difícil de romper e que, via de regra, volta-se contra os seus próprios idealizadores.

Edu: O que se pode concluir de episódios como esse é que a noção de clube como instituição ainda é muito frágil por aqui. Não que na Europa seja tudo uma maravilha, longe disso, mas ao menos existe algum pudor em menosprezar dessa forma os valores da instituição. Está claro que o São Paulo saiu perdendo e não só dentro do campo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: