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Ralf não é Busquets; Busquets não é Ralf

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

20 de março de 2013 | 06h23

Edu: Uma das notícias mais comentadas nesta semana por aqui – que até que me provem o contrário tem cheiro de falácia – foi uma suposta proposta de mais de 20 milhões de euros do Bayern pelo cara que estabiliza o meio-campo do Corinthians: Ralf. Pep Guardiola estaria querendo fazer de Ralf o seu Busquets de Munique?

Carles: Não me parece um pedido do Pep, por muito que eu ache o Ralf capaz de emular o Busquets. Javi Martinez foi contratado pelo Bayern junto ao Athletic de Bilbao e não o vejo jogando na zaga bávara. Se Javi foi sondado pelo Barça quando Pep era ainda o treinador, por uma simples regra de tres, não parece que ele esteja procurando um substituto para o navarro. Você, vê o Ralf triunfando no Bayern?

Edu: Vejo o Ralf triunfando em qualquer time minimamente organizado. É um cara de esquema, desprovido de qualquer vaidade, a essência do jogador que atua em função da eficiência do time. Aliás, não vejo Ralf emulando Busquets, de forma alguma, apesar de algumas características parecidas. Ralf é muito mais sério. Só acho que Guardiola pode estar procurando alguém desse perfil, um cara de esquema, seguro e de equipe. E andei vendo que houve uma certa decepção com o Javi Martinez na Alemanha, embora a chegada do Guardiola deve dar uma força óbvia para o volante espanhol.

Carles: Achei muita grana pelo Javi, muita responsabilidade. Provavelmente o Guardiola possa revigorá-lo, mas, que eu saiba, ele não é de dar moleza para ninguém, seja quem for e de onde for. É possível que sem De Marcos ou Muniaim, Martinez não seja o mesmo. Resistirá o Ralf à ausência do Paulinho? Mais sério que o Sérgio, você diz. O cara é seríssimo, então. Espero que você não esteja se deixando se levar pela tietagem.

Edu: Você sabe bem que nunca achei Busquests um cara à altura do Barça. Também não é mau jogador, não estou míope a esse ponto. Mas é um cara às vezes indolente demais em um time que precisa de alguém que não falhe naquela posição, porque o ponto forte do time é dali para a frente. Além de tudo é às vezes maldoso e um tanto exagerado quando sofre faltas, faz aquela encenação de menino sofrido, palmatória do mundo, para que a galera do Camp Nou fique solidária. Sempre achei que Mascherano naquela posição, que é a que ele conhece mesmo, daria muito mais certo no Barça. Mas é claro que nunca iriam trocar um produto autêntico de La Masia pelo ‘jefecito’. Seria uma blasfêmia.

Carles: Ledo engano, Mascherano é muito querido no Camp Nou (e acho que pelo resto de torcidas dos clubes por onde passou). Pelo visto, a visão do orgulho da Masia está chegando meio distorcida por aí. Se tem uma coisa de que a torcida ‘culé’ pode se vangloriar é de ser inteligente e justa. Se o Mascherano for melhor para o jogo do Barça não vai haver nenhum problema. Ele é um grande volante defensor, mesmo, só que muito mais estático que o Busquets.

Edu: Eu já acho uma estupidez submeter um cara com os recursos do Mascherano a uma posição de zagueiro de ofício. Tanto que várias vezes o Barça amargou momentos delicados por ali. Em vez de contratarem aquela inutilidade do Song deveriam promover o ‘Jefecito’ para a posição que ele conhece bem – onde fez sucesso em todos os clubes por que passou – e contratar um zagueiro de verdade. E, me desculpe, mas Busquets tem tudo, menos mobilidade. Nesse ponto é muito parecido como Ralf: chega na área cinco ou seis vezes por temporada se tanto e faz três ou quatro gols por ano e olhe lá. Olhe os números.

Carles: Esse é o caminho fácil, ortodoxo, nada no Barça é assim. Por lá não serve a frase “não se mexe em time que está ganhando”. Se não fosse assim, não teria se transformado numa das páginas de inovação na história do futebol. E não só uma vez. Acho que você viu pouco o Busquets. No começo ele chegava muito mais, mas teve que se definir como cabeça de área, dentro do que isso significa num jogo móvel como o do Barça. A chegada do Jordi Alba (muito diferente do estilo de Abidal) que junto com o Dani faz tudo menos defender, Busquets foi obrigado a fixar-se muito mais. E a história do Song está mal contada, quem sabe veio no pacote do Cesc e ninguém pensou nisso. E se você prestar atenção, o Mascherano ocupa uma posição lá trás, mas a função é a de um volante, fazendo diagonais para cobrir os lançamentos do time adversário. O problema é que no Barça ele faz isso desde a última linha o que o coloca em situações mais do que delicadas. Entretanto, como disse, a torcida ‘culé’ é inteligente, entende isso perfeitamente e nunca o responsabilizou por nenhum erro. Talvez ele mesmo tenha se sentido responsável, porque é um grande profissional.

EduBom, depois dessa catilinária, que mais posso dizer? Ainda bem que o Busquets está aí e o Ralf aqui. Mesmo porque acho improvável que o Bayern pague tanto por um volante tradicional (que certamente daria certo por lá) e não por um outro meio-campista muito mais moderno e quatro anos mais novo, como o Paulinho, que além tudo faz o que se espera de um sul-americano: gols.

Carles: Em uma coisa creio que estaremos de acordo: todos eles padecem do mesmo problema, jogar na posição mais ingrata de todas.  Sabemos do que estamos falando, ambos andamos brincando um pouco nessa zona do campo faz uns quantos anos, ou estou enganado?

Edu: Se bem que eu jogava mais na criação.

Carles: Provavelmente o Busquets e o Ralf vão contar a mesma coisa para os netos…

 

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