As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Redutos de hipocrisia homofóbica

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

08 de abril de 2013 | 08h32

Carles: No seu recente artigo “Muy machos” em El País, a jornalista e escritora madrilenha Rosa Montero, perguntava-se onde estão os jogadores gays do futebol espanhol. A sua estranheza se relaciona com algo já tão habitual na sociedade e até frequente no futebol de outros países, como o reconhecimento público de alguns jogadores da sua homossexualidade, e todavia fato inédito no futebol campeão do mundo. Como encara esse assunto o país de um certo deputado e pastor?

Edu: O país onde desgraçadamente calhou de nascer o deputado e pastor, você quis dizer… Aqui não é muito diferente. São raríssimos os casos de jogadores de futebol que sugerem até mesmo a existência de homossexualismo no meio em que vivem. Há dezenas de técnicos, jogadores de divisões de base e mesmo dirigentes que, em off, falam sobre o assunto e confirmam de forma natural a presença de homossexuais, como em qualquer outro setor. Mas ninguém dá a cara a tapa em público. É a mesma hipocrisia de todos os segmentos sociais conservadores.

Carles: O treinador italiano Marcelo Lippi, por exemplo, declarou que ao longo dos seus 40 anos no futebol, não conheceu ninguém que admitisse qualquer caso de homossexualismo. Ele pessoalmente, recomenda que cada um mantenha suas opções sexuais de forma privada, enquanto Del Bosque opina que cada um decida o que fazer. Mas é obvio que o mundo do futebol não vê com bons olhos que seus componentes abandonem a imagem tradicionalmente máscula. Assim mesmo, a seleção alemã predicou com o exemplo e aparentemente manteve a normalidade diante das manifestação de jogadores como Mario Gomes ou Neuer, favoráveis ao reconhecimento publico da homossexualidade.

Edu: É previsível a posição de caras como o Lippi, um tipo de comportamento modélico no futebol e que tem tudo a ver com suas convicções políticas, sociais, seu modo de ver a vida. Como o Lippi há milhares no mundo do futebol. Preferem fechar os olhos para algo que os incomoda muito além da conta. Deve ser assim na vida dele também. É claro que o mundo do futebol é, em princípio, homofóbico. Mas acho que é questão de tempo e o caso de Mario Gomes e Neuer comprova um pouco isso. As torcidas adversárias vão tripudiar, alguns personagens – como o próprio Lippi – vão se fingir de mortos, mas o caminho é irreversível. O destino da Humanidade é conviver com a diversidade e ponto final. Mesmo à custa de muitas cicatrizes.

Carles: Talvez um espelho em que o futebol brasileiro pudesse se mirar seria o vôlei que, pelo visto, aceitou com alguma normalidade o reconhecimento público de algumas das suas estrelas, não?

Edu: Nem tanta normalidade assim. O primeiro a assumir sua condição, Lilico, gay e negro, foi velada e gradualmente colocado à margem dos times daqui e conseguiu reerguer sua carreira jogando no Japão. Michael, jogador do Nosso Clube, um time do Interior, também foi hostilizado, principalmente em um jogo em Belo Horizonte, contra o Cruzeiro. Mas, nesse caso, o que aconteceu foi uma pronta reação da própria comunidade do vôlei – torcida, dirigentes, colegas -, o que tornou muito mais natural a sequência da carreira dele. Talvez tenha sido esse o mérito do Lilico, que sofreu as primeiras consequências e desbravou um caminho. Não sei, sinceramente, se isso ocorreria imediatamente no futebol, acho que o processo será bem mais lento. Se as torcidas de São Paulo xingam, hoje, os jogadores do Corinthians de ‘assassinos’, por causa da morte daquele torcedor em Oruro, podemos imaginar o que aconteceria a um jogador de ponta de um grande clube que abrisse sua preferência pela homossexualidade.

Carles: Segundo o psicólogo esportivo argentino Oscar Mangione, o futebol, como o exército, são espaços em que não se fala abertamente da questão homossexual por serem redutos de máxima expressão chauvinista da masculinidade. É evidente que nesses ambientes também existem gays, mas reconhecê-lo pode significar, aponta Mangione, a desgraça. Foi assim com Justin Fashanu de origem nigeriana, foi o primeiro jogador britânico que, nos anos 90, reconheceu publicamente sua homossexualidade. Após ser alvo de todo tipo de intolerância e acosso acabou no ostracismo da liga norte-americana até aparecer morto, aparentemente por suicídio. Um preço muito alto, sobretudo considerando, que inevitavelmente, o que hoje se considera antinatural pelos “bastiões da moralidade” vai acabar fazendo parte da normalidade.

Edu: Na entrevista publicada em Publico.es, sobre a repercussão da afirmação de Rosa Montero, o técnico e teórico do futebol Juan Manuel Lillo foi bastante claro sobre o tratamento do assunto entre os ‘boleiros’: ‘A verdade é que é se trata de um tema que entre nós, treinadores, não costumamos falar muito’. Não existe melhor definição de falso tabu do que essa.

Carles: E olha que Lillo é considerado paradigma de modernidade dentro o futebol.

Edu: O que temos de bom, neste momento, no Brasil é que as reações contra um parlamentar processado por homofobia que se transformou, por uma dessas aberrações periódicas do ambiente de Brasília, em presidente da Comissão de Direitos Humanos na Câmara, estão servindo para a promoção de uma atitude social em bloco contra o preconceito de uma forma geral. Quem dera que o mundo futebol aderisse ao movimento como fizeram muitos artistas, atores e representantes da área da cultura, das artes e dos segmentos progressistas da sociedade.

Carles: Se bem que o futebol e o esporte em geral possam ser considerados reflexos da sociedade, são redutos de conservadorismo. Contudo, mais cedo ou mais tarde, terão que se adaptar para não permanecer alheios. Essa adesão é sempre importante para o resto da sociedade, pelo peso e pela capacidade de promoção.

Tendências: