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Renatão, pelo jornalismo e pela Ponte Preta

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de fevereiro de 2014 | 19h35

Edu: Fazemos raras homenagens por aqui, por não ser o espaço mais adequado, mas existem algumas figuras que não podemos deixar passar batido. Uma delas, certamente, é Renato Pompeu, uma espécie de farol de sabedoria para ao menos duas gerações de jornalistas e um dos símbolos da época de ouro do Jornal da Tarde. Pois Renatão nos deixou ontem, aos 72 anos. Sobre ele não podemos sequer dizer que foi um ícone, porque os ícones inspiram imitação, de certa forma. Mas Renatão era único, original e inimitável. O consolo que temos para sempre é um enorme legado de textos brilhantes, análises ácidas e duras mas sempre cristalinas e ricas em detalhes, comentários carregados de ironia sobre qualquer tema, entre eles uma de suas paixões, o futebol, que tratava com os requintes de sua enorme capacidade interpretativa. Ponte-pretano doente, crítico do futebol de mercado, agudo observador das minúcias psicológicas do jogo, Renatão ultimamente não vinha levando tão a sério o futebol, talvez um tanto cansado das bizarrices extra-campo. Acho que vale a pena reproduzirmos aqui, como uma fonte de inspiração ao 500 aC,  trechos significativos de sua apreciações sobre o futebol ao longo da vida, desde o livro que escreveu quando tinha 37 anos, ‘A Saída do Primeiro Tempo’, até os posts igualmente reflexivos que fez nos últimos tempos no Blog do Renatão.

Carles: Certamente as minhas referencias sobre ele são menores que as suas, nem cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Mas a leitura de alguns dos seus textos levam-me a crer que a sua forma de enxergar o jogo tinha muita coisa em comum com o 500 aC. Não só é um consolo saber que outras mentes conseguem manter a paixão pelo futebol e, ao mesmo tempo, serem críticas, como uma honra saber que ele era um eventual leitor deste espaço. Pois nada mais justo então que passar a palavra deste post ao próprio Renatão:

“O futebol não é um esporte, é um espetáculo dramático. Distingue-se de outros espetáculos dramáticos, como o teatro, cinema e televisão, por duas razões: em primeiro lugar, por retratar, não um conflito entre personalidades, mas um conflito entre duas instituições que, no plano imediato, são os dois times de futebol. Em segundo lugar, por não ter um roteiro prévio conhecido de seus atores: os “atores”, os jogadores, vão criando o enredo, a trama e o desenlace conforme suas decisões de momento. Por retratar um conflito entre duas instituições, o futebol pode simbolizar qualquer tipo de conflito social.” 

“Pelo Êxtase e pelo Luto do Gol, o futebol nos prepara para as grandes experiências da vida. Na medida em que tenhamos desde a infância uma grande bagagem futebolística isso nos ajuda a enfrentar as agruras e as felicidades da vida. Aprendemos, pelo futebol, que nem infelicidade nem felicidade são eternas, tudo é uma questão de momento complexo.”

“Mas minha tia-bisavó mãe-de-santo previu, nos anos 1940, quando nasci, que essa Ponte Preta ilusória, quando, no mundo das aparências, fosse finalmente Campeã Paulista, o Campeonato Paulista nunca mais seria disputado, pois teria cumprido a finalidade para a qual foi criado. Do mesmo modo, quando finalmente essa Ponte Preta meramente contingencial fosse, nesse mundo enganoso, finalmente Campeã Brasileira, o Campeonato Brasileiro iria acabar. Coerentemente, no dia em que essa Ponte meramente existente, e não essencial, fosse finalmente Campeã Mundial, o próprio futebol teria chegado ao fim, pois teria cumprido o destino para o qual foi criado, ou seja, o de o mundo contingente, afinal, coincidir com o Mundo Verdadeiro, que é o Mundo da Espiritualidade, com o que a Ponte Preta será, como é no mundo verdadeiro, Campeã Eterna.”

“Me impressionaram muito, nos anos 1950, dois artigos que li (…). Um deles dizia que, no futebol, os brasileiros ‘viam’ uma sociedade não só melhor do que a realmente existente, como também a sociedade que queriam instaurar: em que todos tivessem direitos iguais e deveres iguais e em que não haveria distinções de raça, cor, ou origem social. O outro artigo era uma entrevista de um técnico europeu, segundo o qual os brasileiros não gostavam propriamente de futebol, e sim de torcer para um time de futebol. Em outras palavras, se um jogo envolvesse dois times sem maior torcida, mas de alto nível técnico, ele atrairia no Brasil muito menos atenção do que um jogo entre dois times de grande torcida de bem menor nível técnico. Levo a sério até hoje esses dois artigos e acredito mesmo que, juntando os dois, se pode desenvolver o conceito de que o povo brasileiro cultua uma ‘democracia hierarquizada’, segundo o qual todos devem ter direitos iguais, mas na prática os ‘grandes’ têm mais direitos do que os ‘pequenos’, o que se constata pelas constantes e sistematicamente não levadas em conta falhas da arbitragem contra os ‘pequenos’ nos jogos com os ‘grandes’.” 

“A partir de discussões com um intelectual americano e com um intelectual australiano, pela Internet, passei a pesquisar também, recentemente, outros esportes com bola além do futebol. Convenci-me de que o voleibol é um esporte que atrai pessoas que não apreciam conflitos sociais mais agudos (não há contato físico entre os adversários). Que o tênis é um esporte de burgueses, ou de pessoas de mentalidade burguesa, que se enfrentam individualmente sem entrar na “propriedade” do outro, ou seja, sem entrar na outra metade da quadra. E que o golfe é um esporte de grandes burgueses, pois, exatamente como um grande especulador financeiro, o golfista atua isoladamente, de acordo com seus interesses e possibilidades, sem interagir com os demais golfistas, sem enfrentá-los diretamente, mas procurando derrotá-los indiretamente. Ainda mais porque, pelo que sei, o golfe surgiu na Holanda na época em que se iniciaram naquele país as grandes especulações financeiras internacionais. Mas procuro não cair nas armadilhas do reducionismo. Sei muito bem que tudo isso acontece no plano simbólico, não no plano real. Nem todo torcedor de time “popular” é defensor das causas populares e nem todo torcedor de time “oligárquico” é favorável às oligarquias.”

 

 

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