As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Renovar, planejar, arriscar

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

17 de maio de 2013 | 06h19

Edu: Uma leva de garotos na faixa dos 20 anos estará na Copa do ano que vem, alguns já agora nas Confederações. Tem pinta de ser uma geração dourada vindo por aí. Das principais seleções, só Inglaterra e Espanha não têm esses jovens entre os titulares. A não ser que o Marquês arrume um lugarzinho para Isco ou Muniain.

Carles: Para a Confederações poderia estar o Isco. Tanto ele como Iker Muniain foram um pouco prejudicados pelo desempenho dos seus times no trecho final da temporada. O mais provável é que Del Bosque opte por levar ‘veteranos’ como Mata ou De Gea, como terceiro goleiro. A comissão técnica de La Roja deve tentar extrair o máximo da atual geração até como premio e reconhecimento ao alto rendimento deles.

Edu: Mas pode ser um erro não começar a mesclar, até para que a garotada absorva um pouco dos Xavis da vida. Como Dunga deveria ter feito com Neymar em 2010. A opção por um time jovem neste momento pegou o pessoal daqui de surpresa, ninguém esperava que Felipão colocasse quatro moleques nessa faixa de idade entre os convocados, com perspectiva de três deles jogarem como titulares, Neymar, Oscar e Lucas (o quarto é Bernard). Só pode se tratar mesmo de uma única saída: renovar ou renovar.

Carles: Outra estratégia é tentar manter os blocos. Existe uma geração que tem Juan Mata e David De Gea, ambos jogando como titulares na Premier, da qual fazem parte outros jogadores que ainda não chegaram à seleção principal, mas que ganharam quase tudo nas bases inferiores, tais como Iñigo Martinez, Thiago Alcântara, Tello, Deulofeu, Rodrigo, entre outros. Um grupo de jogadores que se conhecem porque cresceram juntos. Além do próprio Muniain.

Edu: Dá para entender a posição do Marquês, mas não vejo motivo para não usar dois ou três desses meninos de vez em quando. Ainda considero o recente modelo alemão o mais eficiente. Começaram a renovação em 2006, apostaram num time totalmente jovem em 2010 e agora chegarão com tudo para ganhar a Copa, reforçados com mais um pequeno fenômeno, Mário Götze. Parece que eles não se importaram muito de perder em 2010. O olhar estava posto em 2014. E a Itália fez um pouco isso também, com menos planejamento, mais por intuição. Terá caras como El Shaarawy e Marco Verratti, ambos praticamente adolescentes.

CarlesEntão nos aguarde. ‘El mismísimo’ CholoSimenoe está preparando e cuidando entre algodões o novo Romário, que tem nome de herói do futebol de desenho animado japonês (pouco popular no Brasil), Oliver Torres, 18 aninhos. Dependendo de como for a final da Copa del Rey desta sexta, pode até ser que Oliver disponha de alguns minutos. A questão é que cada uma das seleções está num estágio diferente de renovação, por compromisso ou necessidade.

Edu: Enquadro Brasil e Itália entre os que estão por necessidade, enquanto Alemanha, principalmente, e França planejaram melhor, assumem esse compromisso. Os franceses vêm com um grupo bem interessante, com Varane e Paul Pogba à frente. Só a Inglaterra segue marcando passo, um pouco como Portugal. E a Espanha me parece indefinida. Está no ponto em que o Brasil esteve em 2006: tinha material humano para renovação, mas resolveu apostar nos campeões de 2002. Deu no que deu.

Carles: O peso dos herdeiros das gerações campeãs! Acabam tendo prolongada a sua apresentação em sociedade. Além disso, é possível que se sintam um pouco intimidados. É o que parece estar acontecendo com o grupo liderado por Thiago Alcântara dos que se esperava uma resposta mais imediata.

Edu: Uma Copa do Mundo ou outro evento de grande porte como a Eurocopa são os cenários ideais para graduações, para ver que se intimida com o passado e com o presente. Por isso os técnicos poderiam arriscar mais, do contrário nunca surgirá um Pelé com 17 anos. A Eurocopa viu um bom exemplo disso. A Holanda se deu mal por escalar o lateral Jetro Willens, com seus 18 anos recém-cumpridos. Mas o moleque ganhou confiança naquela situação adversa e agora é figura intocável. E não acho que se o Marquês experimentar o Isco ou Felipão apostar no Bernard pode haver grande prejuízo.

Carles: É verdade, Zé, mas você tem que concordar que existe uma tendência em retardar a aposentadoria em todas as atividades profissionais e isso prolonga a sensação de utilidade. Dosificar a participação da garotada, sobretudo os que demonstram precocidade, é interessante sim. A convivência entre gerações é uma forma de intercambiar experiência com atrevimento. Ter o oportunidade de errar, inclusive, como por exemplo, o Pogba no outro dia contra a Espanha pelas eliminatórias para a Copa. Em duas jogadas, no intervalo de um minuto, recebeu dois cartões amarelos e deixou a França em inferioridade. Faltou malícia, mas não vontade. É obvio que essa situação é um  aprendizado, mas que deve obedecer a um planejamento para preservar o garoto.

Edu: Você pode considerar como uma forma de planejamento, sim. Estou colocando um garoto, corro alguns riscos, mas vou contar com ele antes do esperado porque já terá passado por momentos de pressão e, portanto, de aprendizado. Insisto: não teríamos tantas dúvidas quanto a Neymar se ele tivesse experimentado a vivência naquela Copa da África do Sul. Colocaram caras mais maliciosos e deu no quê? Pogba fez uma bobagem quando tinha condições de fazer uma bobagem. A maturidade também chega dessa forma.

Carles: Neymar é justamente um claro exemplo de falta de perícia de quem administra a sua carreira. Por um lado, está sendo exposto a situações de idolatria às que poucos resistem impunes, quanto mais um jovem inexperiente. Por outro, recebe faz anos uma superproteção excessiva. Contudo, ninguém está pensando em proteger a criatura, mas a mercadoria supervaliosa em que ele se transformou. Não estou contra a exposição desses jovens ao futuro de sucesso, aos focos, ao julgamento de milhões de pessoas, mas que isso se faça de forma responsável, considerando o ser humano e suas possíveis fragilidades. E isso serve para os que chegam arrebentando e para os que são descartados, por serem uns “velhos” de 35 anos.

Edu: Não sei onde você vê irresponsabilidade em mesclar dois ou três jovens com um time experiente. Ao contrário, é responsável até demais, cauteloso até demais, compõe um planejamento inclusive um tanto conservador. E em nenhum momento propus mandar os velhos para o garrote.

Carles: Sou fã do futebol de Hazard, o belga do Chelsea, com talento para ser titular em 99% dos times da Europa. Quando chegou, contratado pela segunda maior soma da história do clube, foi sendo colocado aos poucos no time, cada vez mais minutos e com maior frequência até chegar à condição de titular absoluto. O mesmo acontece com Oscar, apesar de demonstrar uma maturidade acima da idade, inclusive pela sua biografia pessoal. E com o companheiro deles, o Mata quando está na seleção espanhola. Não sou contra a mescla, mas que seja feita com critério, considerando a evolução psicológica desses meninos. Lembre-se que para cada um deles que chega a triunfar, dezenas deles, promessas, ficam pelo caminho e no esquecimento.

Edu: Como também sou fã do Hazard, fico por aqui para dar a impressão de que concordamos em algo. Do contrário teria que começar de novo para ver se você entenderia…

Carles: Pois viva a juventude e viva a experiência. E que convivam de forma natural.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: