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Repescagem para todos os gostos

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

12 de outubro de 2013 | 16h03

Carles: O convite para a festa do futebol em 2014 parece mesmo muito cobiçado, a ponto de criar intriga e desconfiança entre muitos dos aspirantes. Cristiano Ronaldo falava para os repórteres depois do empate contra Israel que, por via das dúvidas, não quer enfrentar a França, “é um adversário muito forte”, suavizava, mas “por vários motivos, é um adversário que eu não quero”, acompanhado de um olhar cheio de ironia. Não sei se foi a lembrança de Titi Henry dando uma mãozinha literal para que a França pudesse se classificar para a Copa de 2010 ou de que essa mãozinha venha agora diretamente do gabinete da presidência da UEFA. Antes do jogo contra o México, o panamenho Dely Valdés, ex-goleador de Oviedo e Málaga e atual treinador da seleção de seu país, chamava a atenção para um possível favorecimento dos mexicanos no jogo decisivo entre ambos pelo grupo da Concacaf. O México é uma espécie de Portugal do futebol americano, por mais craques que tenha, insiste em desperdiçar as chances. A próxima pode ser contra a Nova Zelândia, num jogo de repescagem. É possível que França, Portugal e México estejam entre os favoritos da corte para estar nessa festa tão especial, mesmo que persistam em querer voltar para casa na primeira fase. Isso se os europeus não se encontrarem pelo caminho e um deles fique fora, antes.

Edu: Cristiano pode ser o que for, marrento, antipático, pedantão, mas é sempre transparente, prático e direto, como costuma se portar em campo. É claro que, depois daquela tungada que tirou os irlandeses da Copa, a França perdeu a credibilidade e qualquer um tem direito a ficar desconfiado sem que ninguém conteste, muito menos a Fifa e a Uefa do senhor Platini. O mesmo vale para Dely Valdés, que sabe muito bem quanto deixaria de ser arrecadado em patrocínio, turismo, venda de ingressos e de badulaques se a fanática e numerosa torcida mexicana deixasse de comparecer a uma Copa, ainda mais no Brasil. Por via das dúvidas, é bom preparar as arbitragens, se bem que no caso panamenho pouco adiantou. E você sabe muito bem que, nesse futebol nosso de cada dia, sem uma boa intriga, a coisa não anda. Temos ainda umas poucas semanas antes da definição e principalmente na Europa o bicho vai pegar.

Carles: Aliás, as declarações de Cristiano são primorosas, coerentes e muito maduras, nem parecem ser da mesma pessoa que dizia há tempos despertar inveja dos demais por ser rico, bonito e famoso. O golaço de Jiménez de bicicleta, a três minutos do final de jogo contra o Panamá, emulando o de Rivaldo no Camp Nou em 2001, carrega uma eventual classificação mexicana de mérito técnico. Dependendo só de um empate para ir à “repechaje”, como dizem eles, contra a já classificada Costa Rica, enquanto Panamá já não depende de si mesmo e recebe outro classificado, a seleção norte-americana. Ainda assim, o México não deixa de surpreender, ganhou com sofrimento, de treinador novo e depois de despencar na classificação do hexagonal ao tomar um “Aztecazo” de Honduras e de reforçar a maldição dos “dos a cero” dos ianques. Sina que dura desde 2001, quando o então treinador estadunidense Bruce Arena decidiu levar os encontros com os vizinhos para o Columbus Crew, bem mais ao norte, única forma de que a torcida visitante não ganhasse em número aos locais. Desde então, foram quatro vitórias seguidas por placar idêntico: dois a zero, que virou grito de guerra no estádio, além do tradicional “iuesei!”. Para algo em que os latinos do norte podiam prevalecer…

Edu: Essa pequena odisseia mexicana a caminho da Copa é acompanhada de muito perto pelos brasileiros. Você sabe que aqui existe uma relação de amor e ódio com o futebol do México, que começou lá na Copa de 70, quando eles fizeram o time do tri se sentir em casa, e virou o fio na última década, com uma crescente rivalidade que culminou quando os mexicanos arrebataram aquela medalha de ouro na Olimpíada de Londres. A vitória brasileira na Confecup não serviu para amenizar e, no fundo, os brasileiros querem muito o México por aqui no ano que vem. Mais ou menos como acontece com o Uruguai, que deve passar um drama um pouco menor: precisa de um ponto contra a Argentina na terça-feira para decidir sua vaga contra a Jordânia. A bola de cristal do glorioso 500 a.C. me diz que ambos estarão na Copa, com um pouquinho de susto.

Carles: A Asociación Uruguaya de Fútbol já pensa na possibilidade de começar a preparar desde já o jogo do playoff na Jordânia, treinando na Europa. Uma espécie de posto avançado e de muito mais fácil acesso aos principais jogadores da Celeste que jogam aqui no continente. Imagino que nem pensam numa possível derrota em Montevidéu para os “hermanos” (neste caso, de verdade).

Edu: Ah, não, ali a coisa se ajeita. E ainda há uma remotíssima esperança de o Uruguai passar direto se, por um acidente, fizer dois ou três gols nos “hermanos”, e o Chile golear o Equador, algo improvável porque o empate em Santiago classifica os dois. A “movida” na segunda quinzena de novembro será pesada. E aí para o seus lados muita gente deve estar torcendo para se livrar também da Turquia, cuja torcida é mais de meio time. Certamente os patrícios preferem pegar a plácida Ucrânia do que os turcos barulhentos, ou mesmo a Grécia, que não traz boas lembranças desde aquela final da Eurocopa, com Felipão no comando.

Carles: Não estou achando nenhum desses enfrentamentos plácidos. Prefiro assistir a repescagem, repechaje ou playoff  de camarote, com as pulsações mais ou menos normalizadas, com o vencimento do meu passaporte revisado e em dia. E falando em Felipão, plácido mesmo foi o amistoso do time dele, com Neymar e Oscar marcando, este último com um passe do Paulinho que levantou a galera no estádio.

Edu: Placidez nenhuma. Neymar apanhou o tempo todo, sofreu 12 das 18 faltas que os coreanos fizeram no Brasil, mas também deixou o seu golzinho e alguns bons momentos. Imagino o pessoal do Barça vendo o magrelo apanhando direto e rezando contra o vírus Fifa.

Carles: Nem tão magrelo já. Pode ter certeza que fazia muito tempo que os jogos (e treinos, Hernanes mediante) da Seleção Brasileira não eram tão vigiados de perto na Catalunha. E com certo temor.

 

 

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