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Saga de Lost no Planeta Florentino

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

16 de outubro de 2013 | 17h11

Edu: Vemos tantas aberrações por aqui em matéria de gestão dos clubes, mas quase todas têm relação com falta de dinheiro, raramente com  excesso. Mesmo quando os corruptos se apresentam, normalmente, salvo exceções, é para dividir migalhas. Aí damos uma olhada no que acontece em Madrid e de certa forma nos serve de consolo. Como pode uma organização desse tamanho administrar tantos exageros financeiros diante de uma das maiores coletividades esportivas do mundo? Em que dimensão vive o senhor Florentino?

Carles: A vocação populista do Madrid sempre favoreceu a eleição de presidentes nesse estilo, especialistas em contratações de grande repercussão por cima do critério técnico. Desde que Floren assumiu, a coisa alcançou uma dimensão inesperada, sua fama de grande homem de negócios gerou um grande prestígio entre os associados e poder dentro do clube. Ele decide as contratações calculando quanto o novo jogador vai poder arrecadar para o clube através da participação nas campanhas de publicidade e vendas de imagem. Só que, dizem, não consulta ninguém, vive procurando gente para assessorá-lo que interfira pouco nas suas decisões. O último foi Zidane, um tipo bastante inútil fora dos gramados, que Pérez tentou colocar como gerente, treinador e finalmente como ajudante de Ancelotti. Desse jeito, o presidente sempre cumpre suas metas de arrecadação, mas quase nunca facilita o trabalho dos responsáveis pelo bom desempenho do time.

Edu: A impressão é de que a falta de valores faz as coisas irem desmoronando em torno, num efeito cascata. Parecia um bom começo de Ancelotti, uma aposta pelos jovens, pacificação pós-Mourinho, tudo ia aparentemente bem. Mas aí veio um tsunami que juntou as mágoas da época do português, a saída de Özil, o episódio Casillas e, obviamente, a hérnia de disco que custou 100 milhões de euros. Agora, leio que Khedira, que é um intocável na Seleção Alemã, como Özil aliás, se sente um estranho, não é querido pelo torcedor, não é bem visto no clube porque, teoricamente, é um ‘produto’ de Mourinho. É uma saga de Lost que não tem fim.

Carles: Provavelmente a saída do compatriota em direção ao Emirates agravou essa sensação de solidão de Sami. Ele não é um jogador espetacular, é sempre um coadjuvante, e isso é decisivo num clube como o Madrid. A eficiência é insuficiente. A saída de Özil é sintomática da falta de apego, da ausência de rosto nos negócios. Provavelmente, se Florentino mostrar as planilhas, conseguirá provar a quem for que o clube ganhou muito dinheiro com o alemão, e seus defensores argumentarão que a falta de carisma não permitia que ele participasse em muitos comerciais, em eventos, etc. O detalhe é que o time desmontou com a saída de Mesut. Sempre achei que Florentino era um torcedor com poder de decisão, com licença para realizar o desejo que fosse. Mas acho que é pior que isso, ele é o caso de extremo de mercantilização do futebol, obsessivo por obter rendimentos de uma atividade em que o lucro deveria ser menos relevante do que requisitos como o talento ou a adequação técnica. E veja como o futebol não perdoa. Um dos três ou quatro clubes mais poderosos do mundo não tem sido um habitual no pódio de títulos ultimamente. E o pior dos castigos para essa política veio em forma de protrusão. Uma protrusão de 100 milhões. E se o brinquedinho Bale quebra “no pasa nada”, é só ir ali em Mônaco e buscar o Radamel Falcao. O Madrid paga.

Edu: Já acho que é um modelo Florentino, não um modelo Madrid. É exclusivo, uma grife, não é usual em outros clubes, mesmo nos mais poderosos. A saída de Özil causou comoção tanto na Plaza de Castilla quanto na Praça da Paz Celestial. Vieram manifestações de todos os lados, com um questionamento dos mais simples: se Özil não serve, quem serve? Aí, suponho que os companheiros do próprio Madrid se puseram a tentar entender o que é preciso fazer para ser reconhecido. Sinceramente, Carlão, muito simplista a versão da falta de carisma, da utilização para eventos, do craque midiático, etc. Não existe proposta de clube de futebol que sobreviva sem futebol, ainda que dê algum dinheiro.

Carles: Por favor, não me entenda mal, Özil serve e tem talento de sobra para jogar em qualquer time do mundo. Minha linha de raciocínio é para poder entender os absurdos d esse homenzinho, ele sim sem nenhum glamour. Os jogadores do Madrid por aqui são estrelas de comerciais de TV ou figuras beneméritas em ações sociais organizadas para reforçar positivamente a imagem do clube. Dificilmente se via o Özil numa dessas situações. Tampouco Khedira, como não se via Bodo Illgner, por exemplo, em outros tempos. Questão de caráter ou diferença cultural. Pelo jeito, esse perfil não serve para o Madrid, mesmo que seja um cracaço ao que ninguém seja capaz de questionar. Espero que uma proposta desse naipe não sobreviva mesmo, ela é destrutiva, gente como Florentino pouco faz pelo futebol e tamanho “derroche” só pode vir de uma entidade com muito dinheiro. Ou muito crédito, porque se andou falando por aqui que o Madrid teria uma dívida superior aos 500 milhões de euros!

Edu: Jogador de futebol é estrela de comercial aí, aqui e em qualquer lugar onde exista futebol e consumo. Neymar e até o aposentado Ronaldo aparecem mais na TV que a presidente Dilma e Barack Obama somados. Mas se Neymar não fizesse o que faz, e bem, não conviveríamos com sua figura 10 ou 15 vezes ao dia na telinha. A questão do Özil pode ser de pouca habilidade com o idioma ou uma mera preferência dos anunciantes pelo Cristiano Ronaldo e pelas melenas do Sérgio Ramos. O Madrid é uma coletividade, insisto nisso, algum eco deve ter o que o torcedor comum manifesta. E o torcedor comum não quer isso que aí está. Hoje, a Comissão de Justiça do Senado Brasileiro aprovou um projeto que responsabiliza os dirigentes pelas dívidas dos clubes. Acontece que a maior dívida que temos por aqui não chega no joelho da dívida do Floren, porque, claro, quanto mais dinheiro o sujeito tem maior é dívida. Não sei se esse projeto seguirá adiante, porque ainda vai enfrentar os lobbies de sempre. Mas sei que é algo que vocês já têm aí e parece que não é respeitado.

Carles: Ser estrela de comercial deveria ser uma consequência da fama, mas não um requisito para ser titular num time de futebol. Dificuldade com o idioma não é prerrogativa de Özil ou Benzema, se bem que um esforço de integração sempre se agradece e alemães e franceses não destacam por tentar. A legislação por aqui corresponsabiliza até quem é síndico de prédio e comete um erro com consequências sobre as contas da coletividade. Claro que é mais fácil que se penalize a um síndico que a um sujeito com as costas quentes como Florentino.

Edu: Então, só resta a vocês – Barça incluído – continuarem acompanhando a saga do planeta Florentino.

 

 

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