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Sangue novo para sacudir a poeira do English Team

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

31 de março de 2014 | 20h10

Carles: Segundo The Guardian, Thereza May, a Home Secretary do governo britânico, comunicou que “Cameron considera a possibilidade de ampliar a licença para que os pubs ingleses possam fechar mais tarde no dia 14 de Junho”. O jogo contra a Itália, que começa às 11 pm, deve terminar por volta da uma da madrugada e, aí, até conseguir separar cada inglês da sua ‘pinta’, podem já ser as tantas. E segue: “Se conseguirmos a classificação para a próxima fase, já veremos”. Vão bem humildes, eles, não?

Edu: Desacreditados, mais que humildes. Faz já algum tempo que o torcedor inglês, um sujeito que normalmente é capaz de fazer loucuras por seu time do coração, passa mais tempo ironizando a seleção nacional do que dando demonstrações de fé. Cameron e sua turma mais chegada do número 10 de Downing Street não devem ser muito diferentes. ‘A seleção inquieta a mente do torcedor inglês’, costuma dizer o venerável John Carlin em suas crônicas, um desses que não se cansa de esculhambar o time, lembrando que todos, jogadores, imprensa e técnicos, vivem procurando desculpas. Neste caso, não seria exatamente uma desculpa: esse jogo aí a que você se refere será disputado em plena Amazônia e o adversário não é nada confiável.

Carles: Bom, o Carlin não vale, ele tem mais de espanhol, filiação incluída, do que de inglês, se bem que voltou a morar lá, recentemente. E convenhamos, assim como nem todo brasileiro passa os dias sambando, nem todo inglês responde ao protótipo de sujeito arrogante e ignorante do resto de culturas. Tem a vertente da fleuma britânica, e muitas vezes eles demonstram uma grande capacidade para rir de si mesmos. O maior exemplo é o humor do grupo Monty Python e um dos seus sketchs mais célebres, Crônica da partida de futebol entre filósofos, uma espécie de Canal 100 paródico que documenta uma hipotética final mundial de futebol entre filósofos Gregos e Alemães – surpreendentemente reforçados por Beckenbauer!!!! – e classificados depois de terem eliminado os ingleses na semi. Talvez numa versão dos Monty, a Inglaterra não teria saído vencedora daquele duelo de 30 de julho de 1966, em Wembley.

Edu: E talvez, por outro lado, superasse tantas outras ocasiões em que entrou favorita e saiu deprimida. A mídia esportiva inglesa, como os muitos comediantes que passam semanas montando piadas sobre o English Team a cada fracasso, ainda considera um mistério o fato de jogadores tão internacionais e com currículos tão turbinados colecionarem fiascos em série pela seleção. Nem é tão enigmático, na verdade, porque de duas uma: ou esses jogadores não são tudo isso e se destacam nos seus times porque os estrangeiros é que fazem a roda girar; ou a seleção já não tem mais apelo diante da grandiosidade da Premier League. O certo é que sempre dá a impressão de Rooney, Gerrard, Lampard e Ashley Cole estarem cumprindo uma liturgia de rotina e sem nenhuma graça quando vestem a camisa da seleção. Tenho dúvidas se Roy Hodgson e os ares do trópico serão capazes de mudar essa história.

Carles: Eu diria que um pouco de cada uma, a obstinação do craque inglês depende bastante do fator surpresa, o inesperado que oferecem latinos e jogadores do leste europeu às equipes de Premier, mas a seleção tampouco seduz tanto e o deles não é o único caso na Europa. Apesar disso, o clima que se respirou durante a sessão de fotos do English Team para a Copa e para vender ingressos do Inglaterra-Peru no próximo 30 de maio em Wembley, era bem diferente, principalmente por parte de jovens como Daniel Sturridge e Oxlade-Chamberlain. Pelo visto, a estratégia é fazer os testes pré-copa contra times latino-americanos, talvez prevendo uma estreia sem vitória e tendo que decidir a sorte contra Uruguai e Costa Rica.

Edu: Por isso que talvez Roy Hodgson seja, neste momento, o nome mais próximo do ideal para tentar revitalizar algumas coisas por ali. Não foi à toa que ele deu oportunidade a uma nova geração que chega bem mais pilhada e sem estar contaminada pelos decanos. Sturridge é um deles, um jogador que renasceu no Liverpool ao lado de Luis Suárez. Mas há outros, como Ox Chamberlain, a quem o técnico deu espaço e não se arrependeu, e Andros Townsend, um meia-ponta driblador à moda antiga, um dos poucos que consegue se destacar no caos atual que é o time do Tottenham. Hodgson viveu mais tempo como treinador fora do que dentro da Inglaterra, o que certamente deu a ele uma visão menos engessada do futebol. Acho até que essa garotada pode levar os mais experientes a sacudir um pouco da poeira.

Carles: Inclusive pela miscigenação, muito mais autêntica nesta nova edição. Sturridge tem muito das ancestrais raízes jamaicanas. Se no Liverpool ele faz duo com o superego Luisito, no time inglês faz par com o ex-futuro-quase-bad-boy Rooney, de quem nunca sabemos bem o que esperar. Junto com a moçadinha, teremos medalhões como o próprio Wayne, Gerrard, Lampard e Cole (os dois do Chelsea, quiçá na reserva). E definitivamente sem o capitão Terry, que representava a tradicional liderança dos zagueiros nos times ingleses.

Edu: Mas até na defesa Hodgson mexeu bem e talvez tenha encontrado uma fórmula mais eficiente com dois jogadores rápidos de sua confiança Cahill e Jadielka. Na lateral esquerda o excelente Leighton Baines, do Everton, fez todo mundo se esquecer de Cole, mas na direita deve jogar Glen Johnson, do Liverpool, lento e problemático no mano a mano. Só que tudo nesse time passa pelo meio de campo e se Hodgson se propor a conservar Gerrard como volante, como ele vem atuando ultimamente, será um grande avanço para quem sempre teve por ali jogadores mais físicos do que técnicos. Em todo caso, como se trata de Inglaterra, tudo o que dissermos aqui pode virar água já na estreia na calorenta Manaus. No fim, o time corre o risco de ter que decidir mesmo o segundo lugar do grupo contra os uruguaios, dia 19 de junho, em Itaquera. Ou seja, do outro lado estará Luisito.

Carles: Se levarmos em conta a dança dos números do Ranking Fifa – às vezes mais enganosos que as eternas promessas da seleção inglesa – o segundo posto se disputa mesmo na estreia em Manaus, entre os europeus, já que os uruguaios são os melhores posicionados no sexto posto, depois vem a Itália 8ª, Inglaterra 12ª e por último Costa Rica, no 34º posto. Por último, permita-me comentar aqui a tal polêmica que, de alguma forma, aproximou CBF e FA, o terreno dos negócios e patrocínios que andou dificultando a edição o chamado álbum oficial das figurinhas da Copa. Segundo eu sei, foram as duas únicas que apresentaram obstáculos aos editores. Você recomenda que o resto de federações deixem se aconselhar pelos assessores brasileiros e ingleses antes de fechar um negócio?

Edu: Nem precisa de recomendação, ninguém vai cair nessa esparrela.

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