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Sedução ucraniana na fria Donetsk

Carles Martí (Espanha) e José Eduardo Carvalho (Brasil)

10 de agosto de 2013 | 06h15

Edu: Vemos por aí tantas aventuras de ‘investidores’ e projetos mirabolantes que nunca decolam, mas essa história de futebol-negócio tem sempre alguma coisa funcionando. Esse exemplo do Shakthar Donetsk merece um pouco de atenção do nosso viciado olhar ocidental. Provavelmente nenhum projeto do futebol foi tão bem elaborado como este, de reunir jogadores jovens que se adaptem a um modelo de jogo, com crescimento gradual mas sustentado e que, no fim das contas, ainda dá lucro. É verdade que tem a fortuna do bilionário Rinat Akhmetov por trás – e que fortuna! Mas nenhum dos grandes clubes artificiais dos últimos anos tem uma mecânica de gestão tão racional como essa.

Carles: O esquema de Akhmetov é redondo, grande capitalista e maior financiador do partido que representa os interesses patronais e ‘russófilos’. Seu grande mérito é investir na própria região. Assim mesmo, estou convencido de que alguns projetos, por bons que sejam no papel, não funcionam se não houver uma perfeita química com o fator humano que os põe em prática. Neste caso, importantíssima a chegada do romeno Mircea Lucescu, líder desse projeto.

Edu: Então, o Lucescu. Tinha uma carreira de cigano como treinador, passou por times pequenos da Itália (exceto uma temporada pela Inter), o que lhe deu uma rodagem com elencos jovens bastante importante. Conhece muito o futebol da Europa do Leste e viveu de perto as transformações políticas da década de 1990. E, o principal, está há nove anos no Shakhtar, tem intimidade com a proposta, é coautor eu diria. Não sei se os técnicos com uma visão mais imediatista, e que normalmente sonham apenas com as grandes ligas, topariam essa aventura.

Carles: Uma trajetória ascendente, irregular até, como todo aprendizado, com alguma que outro triunfo, mas sem grandes alardes. Poderia ser essa a descrição tanto do Shakhtar como de Lucescu até ambos se encontrarem em 2004. Daí para frente é evidente que as duas partes ganharam, completaram-se mutuamente. O passado errante do treinador romeno dá a impressão de ter sido planejado, porque, digam o que digam, parece inevitável a passagem pelo ‘calcio’ como doutorado para poder entender esse jogo aparentemente simples. Porque, para quem pretende triunfar no Vale de Donets, parecem importantes as vivências em futebóis como o romeno ou o turco, coquetel perfeito de indolência e paixão. Mas tem um último componente que parece ter sido fundamental nesse projeto, o dos jovens e meio desconhecidos valores brasileiros. Coisa de garimpo.

Edu: No site do clube, por estes dias, Akhmetov em pessoa explicava um pouco disso, da obsessão por descobrir jovens, mas também da ideia de formar bons times e lucrar com isso, sem meias palavras. O que estão fazendo agora com Bernard na verdade é um modus operandi. E se você olhar para os resultados, impressiona. O time foi campeão da Copa da Uefa em 2009 (hoje Europa League) e desde então tem incomodado muitos dos grandes, como fez na Champions do ano passado com Chelsea e Juve. Mas a habilidade de fazer negócios também chama a atenção. Fernandinho saiu daqui com 20 anos por 8 milhões de euros e foi vendido agora ao City por 40 milhões, aos 28 anos! Willian deixou o Corinthians aos 19 anos por 14 milhões de euros e foi para o Anzhi recentemente por 35 milhões. E não se trata de uma simples ponte de mercado. São jogadores que estiveram nas campanhas de todos os últimos títulos ucranianos (foram oito nos últimos 11 anos) e também nos torneios europeus.

Carles: Bom, tenho minhas sérias restrições a esse modo de ver o futebol, já não tanto pela ética ou gosto pela essência do esporte, que também, mas por aquela história de que as regras do mercado não permitem que os jogadores deixem de virar produtos na prateleira e, com isso, acabemos vendo talentos praticamente perdidos (quem sabe para sempre) em regiões emergentes economicamente. Lembro bem daquele time que venceu o Werber Bremen na final da UEFA 2009, num cenário muito conhecido de Lucescu, o Olímpico de Istambul, brasileiro do meio para a frente: Fernandinho, llsinho, Willian, Jádson e Luiz Adriano.

Edu: Ok, a velha angústia entre a essência e o mercado, da qual compartilho mais do que ninguém. Mas diante de tantas arremetidas pasteurizadas e sem nexo empresarial que temos visto na Europa Ocidental, a proposta de um clube nascido em um país novo, com muitos jogadores importados mas apoiado em vínculos firmes com a região de origem, é de se louvar. Principalmente porque o modelo também tem essência, valoriza o futebol de alguma forma. No campo de jogo, dá gosto ver esse Shakhtar.

Carles: Claro, o próprio Anzhi Majachkalá é um exemplo da falta de paciência que, sim, parece ter o mecenas do Shakhtar. Já sem o treinador holandês e trotamundos Guus Hiddink, o magnata Suleiman Kerimov parece que cansou do brinquedinho, acaba de anunciar que não vai mais investir e o time de estrelas vai para o desmanche, substituídos por juvenis. Além de Willian, por lá está Samuel Eto’o, o jogador mais bem pago do mundo, e, não sei bem com que tipo de relação, Roberto Carlos.

Edu: Roberto virou só um conselheiro, não sei de que exatamente, tanto que agora assumiu como treinador do Sivasspor, da Turquia. Mas esse caso do Anzhi é justamente a interface fracassada em relação ao modelo do Shakhtar porque foi uma aposta em medalhões e de curto prazo. Willian, aliás, foi transferido para lá a contragosto, era sondado pelo Chelsea, mas o time russo pagou a cláusula e não teve jeito. Certamente vai ver sua carreira regredir um pouco. Não tenho dúvida de que o fiasco do Anzhi valoriza ainda mais o modelo sustentável do clube ucraniano.

Carles: O mérito, no caso do time ucraniano, é maior, considerando o pouco atraente clima da região para os futebolistas dos principais centros. Por mais seriedade que tenha o projeto esportivo, sempre é considerado uma opção marginal, preterida frente a ofertas da Europa ocidental, por exemplo. Como agravante, a menor visibilidade que também dificulta o futuro nos grandes clubes. Suponho que para os representantes sempre haverá compensações para poder convencer os jogadores a enfrentar esse tipo de aventuras.

Edu: Para um jovem badalado, que estava na órbita de clubes ingleses e alemães, algo deve ter seduzido Bernard, além da grana, claro.

 

 

 

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